Presidenciais

As mulheres dos Presidentes. Ser primeira-dama a full-time

por Sónia Cerdeira, Publicado em 22 de Janeiro de 2011   
Não foram eleitas, não tiveram orçamento, nem desempenharam o papel principal. Mas as agendas das mulheres dos Presidentes estiveram sempre preenchidas
Opções
a- / a+
"Primeira-dama não. Não gosto desse nome. É artificial." Manuela Eanes prefere ter sido "mulher do Presidente" e explica porquê: "Não há primeiras-damas. Há companheiras, donas de casa, governantas, mães de filhos, mulheres. Somos tudo."

Manuela Eanes, mulher do ex-Presidente da República Ramalho Eanes chegou ao Palácio de Belém em 1976 por força das circunstâncias. "Era nossa intenção continuar a viver na nossa casa. Mas Portugal estava a construir-se em democracia e havia grupos de pessoas a gritar das 9h00 da manhã às 4h00 da madrugada à nossa porta. Havia muita insegurança", recorda. O Palácio estava, aliás, "muito degradado". "Trouxemos móveis do Palácio da Ajuda, da Cidadela de Cascais e quadros de museus escolhidos por mim para dar à residência oficial o aspecto de um lar", refere. Ser primeira-dama logo após o 25 de Abril "não foi fácil". "Houve muita angústia, muito sofrimento. Recebi inclusive ameaças de rapto ao meu filho. Pensa-se que o Presidente toca num botão e faz um milagre e não é assim", garante a ex-primeira-dama.

As dificuldades de Maria José Ritta, mulher de Jorge Sampaio, foram outras. Antes de o marido ser eleito Presidente ocupava o cargo de directora-geral da TAP. "Geria pessoas com determinados objectivos e passei para um papel secundário. Prescindir disso para me dedicar 24 horas por dia em regime de voluntariado ao serviço do país foi uma decisão solitária", lembra. Hoje não se arrepende: "Foi uma grande oportunidade, passei a olhar as pessoas e os problemas com outros olhos."

A mulher do Presidente pode escolher não ser primeira-dama a full-time. Mas todas as mulheres que passaram pelo Palácio de Belém decidiram acompanhar o marido. Enquanto o Presidente da República trata das questões essencialmente políticas, as primeiras-damas são o rosto das causas que decidem apoiar. "Somos constantemente assediadas com pedidos de ajuda", recorda Maria Barroso, mulher de Mário Soares. "A primeira-dama não pode ser uma figura meramente decorativa e por isso tem a obrigação de responder a esses pedidos", afirma. Maria Cavaco Silva decidiu, por exemplo, conceder o seu "Alto Patrocínio" à Associação Humanitária de Doentes de Parkinson e Alzheimer. "O Alto Patrocínio não significa dar dinheiro à instituição, mas sim o reconhecimento público do seu trabalho. É a própria que faz a selecção das associações que quer apoiar, após alguns contactos que manteve", explica fonte da Presidência.

Sem ajudas No tempo de Maria José Ritta foi criado o Gabinete do Cônjuge para apoiar a actividade da mulher do Presidente. A primeira-dama não tem vencimento, nem recebe ajudas de custo, mas tem direito a uma assessora e uma secretária, pagas pela Presidência. Ajudam-na a tratar da correspondência - "Em dez anos de mandato recebi 150 mil cartas e emails e nenhum ficou sem resposta", garante Maria José Ritta - e também da organização das visitas de chefes de Estado ou dos convites que recebe.

A agenda da primeira-dama é "vasta", diz fonte da Presidência. "Nas deslocações utiliza um dos carros e o motorista do Presidente fazendo-se acompanhar da assessora", acrescenta. O dia-a-dia fica preenchido com visitas a associações sociais e culturais, organização de eventos, por exemplo exposições no Palácio de Belém, e toda uma quantidade de cerimónias e inaugurações para as quais é convidada. Sem orçamento, a primeira-dama pode apenas apoiar causas e "perceber as necessidades das pessoas para desencadear campanhas de solidariedade", explica Maria José Ritta, admitindo que "são gotas de água".

O tema dos gastos da primeira-dama surgiu na campanha de Cavaco Silva, quando este revelou que a reforma da mulher era de "800 euros" e por isso dependia dele. As visitas de Estado ao exterior e as visitas de trabalho de chefes de Estado a Portugal exigem que o Presidente da República e a primeira-dama representem a imagem do país. "Em dez anos de exposição pública temos de ter alguns cuidados, não repetir fatos, por exemplo. Não é uma questão de vaidade pessoal, mas o Presidente e a mulher têm de representar bem o país. Pode ser pesado em termos de orçamento e por isso acho que deveriam existir despesas de representação", admite a mulher de Jorge Sampaio. No pós-revolução, o Presidente da República "ganhava menos que o secretário de Estado e passámos algumas dificuldades financeiras", revela Manuela Eanes. "Mas, apesar de tudo, os meus filhos foram felizes. Os funcionários viviam em casas anexas ao Palácio e as crianças brincavam todas. O nosso mediador de seguros é uma das crianças que brincavam com os nossos filhos."

A possibilidade de conhecer países diferentes e personalidades que fazem parte da história é uma das grandes vantagens de ser primeira-dama, aponta Maria Barroso. Afinal, os pormenores não estão ao alcance de todos. "Nem toda a gente pode dizer que esteve na tomada de posse de Nelson Mandela, na África do Sul. Até convidou guardas da prisão onde tinha estado", recorda. A visita do ex-presidente de Moçambique Samora Machel a Portugal é lembrada com carinho por Manuela Eanes: "Criámos logo uma grande empatia, tanto que a Graça [Machel] me escreveu um poema na ementa do jantar."

Apesar de as solicitações à primeira- -dama serem especialmente de carácter social e cultural não pode estar à parte do que se passa no país. Nem que seja para aconselhar o Presidente. Antes do título de primeira-dama, vem o de mulher, dizem: "O meu marido chegava muitas vezes a casa preocupado. Vivia-se uma grande instabilidade social com governos sucessivos a cair, manifestações de rua, decisões complicadas a tomar. Dava sempre a minha opinião, mas sem a atitude ''faz isto ou faz aquilo'' e procurava criar um ambiente de paz em casa", revela Manuela Eanes. Já Maria José Ritta confessa que "discordava muitas vezes" de Jorge Sampaio. "Mas tomada a decisão competia-me acompanhá-lo. Quem manda, manda bem, como diz o povo. O apoio da mulher é muito importante mas nunca pode substituir o Presidente nas grandes decisões. É essa total solidão que é a defesa e a força da sua independência", justifica. Maria Barroso diz que se "preocupava", mas que o marido "não precisava de conselhos". "Sabia bem resolver os problemas." Uma coisa é certa, diz Maria José Ritta: "A mulher tem de ter a humildade de perceber que não foi eleita e que terá sempre um papel que não é o principal."


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close