Exorcista: O libertador dos espíritos demoníacos

por Rosa Ramos, Publicado em 23 de Junho de 2009   
Humberto Rolo é um dos três padres exorcistas da Igreja Ortodoxa em Portugal
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Chegou a um ponto em que "não dava para aguentar". Por isso, Maria (nome fictício) escreveu ao Patriarcado da sua área de residência e ao Papa a pedir ajuda. Desde sempre que se lembra de sentir a presença de "maus espíritos". Ouvia barulhos e começou a ter problemas com o filho de 18 anos. "Afastaram-no de casa, afastaram toda a gente de mim e quase perdi o meu marido", recorda. Da Igreja não chegou qualquer ajuda. Foi então que uma prima lhe falou, há dois anos, da Igreja Ortodoxa. "Fui e fizeram-me logo o exorcismo", conta. Depois do ritual - e apesar de as melhorias não serem imediatas - Maria converteu-se à Igreja Ortodoxa e agora é diaconisa. O sal exorcizado, a água benta e os óleos sagrados passaram a fazer parte do seu quotidiano, dividido agora entre as lides domésticas e a ajuda a outros fiéis.

Em São Frutuoso, uma aldeia a menos de dez quilómetros de Coimbra, os cerca de 800 habitantes já se habituaram à convivência com estas histórias invulgares, que envolvem espíritos malignos e forças ocultas. Desde Janeiro, a povoação tem visto aumentar o número de visitantes. Foi lá que o padre ortodoxo Humberto Rolo fundou o Priorado de São Jorge - a poucos metros da praça principal, onde se situa a associação recreativa e as duas igrejas católicas romanas. Aqui, todos sabem que o padre Humberto é diferente. Um sacerdote dos sete ofícios ou, mais concretamente, um exorcista. É um dos três padres ortodoxos habilitados à prática do exorcismo em Portugal. Os outros dois trabalham em Lisboa e Santarém.

Consciente da imagem soturna que envolve o exorcismo, é de uma forma muito pragmática que o padre Humberto aborda o assunto: "Ir a um exorcista é como ir a um cirurgião. É preciso identificar o problema, a sua causa e depois resolvê-lo." Para ele, um exorcista tem a seu cargo múltiplas tarefas. "É um catequista, um confessor, um orientador espiritual e um formador", descreve.

E o ritual é bem diferente daquilo que se vê no cinema. "Casos assim existem, são situações de possessão completa, mas são raros. Apenas 2% a 3%", explica. A maior parte das perturbações é bem menos grave, mas mais frequente. "E ninguém está imune", garante o sacerdote. Os sintomas podem ser os mais variados, de mudanças súbitas de comportamento a divórcios. Independentemente dos sinais, só há duas razões que conduzem a estas perturbações. "Ou por acção directa de Santanás ou por causa da prática de bruxarias realizadas por terceiros", afirma o sacerdote.

Ritual Qualquer que seja o problema ou a causa, o ritual não varia. Deve ser feito preferencialmente numa igreja. No altar, têm de estar dispostos os objectos sagrados: água benta, cuja aspersão inicia o ritual de exorcismo; sal exorcizado; óleos sagrados para untar o exorcizado; relíquias de Santa Cruz, que se acredita terem estado em contacto directo com o corpo de Cristo, ou de qualquer santo; e o manual de instruções, o chamado "Ritual dos Exorcismos", muito semelhante ao usado pela Igreja Romana. Já nas situações mais complicadas, é recomendável a presença de um médico. "Embora seja difícil encontrar, em Portugal, algum disposto a ajudar", lamenta o exorcista.

Todas as sessões são diferentes. Apesar de consistir apenas numa oração, um exorcismo é sempre um momento difícil. "Há dias em que faço seis seguidos e outros que demoram mais de 15 dias sem que consiga fazer mais nada", conta. "Às vezes, sai-se exasperado e muito desgastado fisicamente."

Por vezes, o sacerdote é confrontado com situações mais complicadas. "Uma vez fui empurrado pelo ar a uma distância de três metros por uma senhora que não tinha mais de 60 quilos e 1,68 metros de altura", garante. Mas podia ter sido pior. "Há casos em que são arremessados objectos contra o exorcista." Muito frequentemente, assegura o sacerdote, o demónio faz com que a pessoa exorcizada verbalize mentiras para denegrir a imagem do sacerdote, "para cortar os elos de confiança, criar embaraço e assim acabar com o ritual".

No Priorado de São Jorge, antes de qualquer exorcismo é preciso fazer uma consulta de diagnóstico. Custa 25 euros. Depois do exorcismo, é preciso contribuir para a compra do material gasto no ritual e comprar os remédios necessários para o tratamento. Podem ser sal exorcizado, óleos sagrados ou, simplesmente, água benta.


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