Exame de Matemática do 9.º ano ao nível do ensino primário

Publicado em 23 de Junho de 2009   
Sociedade Portuguesa de Matemática diz que o exame do 9.º ano teve um grau de dificuldade "muito baixo" em quase todas as perguntas
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Os números: 382, 523 e 508. O desafio: calcular a média aritmética dos três valores. A ajuda: a máquina de calcular e o resultado da soma das unidades. O primeiro exercício que quase 100 mil alunos do 9.o ano fizeram ontem durante o exame nacional de Matemática exige conhecimentos que se aprendem no 6.o ano. O exemplo serve para a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) demonstrar que a prova foi "demasiado elementar" para os alunos que têm como ambição terminar a escolaridade obrigatória.

"Perguntas triviais, operações de multiplicar e de dividir de nível de 4.a classe ou a leitura simples de dados inseridos em tabelas foram alguns dos obstáculos que os adolescentes tiveram de ultrapassar em hora e meia", explica o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, Filipe Oliveira, defendendo ainda que os resultados da prova, "por mais optimistas que venham a ser", não irão reflectir o aproveitamento dos alunos do 3.o ciclo do ensino básico.

Os matemáticos da SPM que avaliaram a prova asseguram ter exemplos suficientes para comprovar que quase todas as perguntas incluídas no exame nacional têm um grau de dificuldade "muito baixo". Filipe Oliveira enumera três exemplos concretos: "A pergunta cinco pede para ler valores num gráfico simples; a questão seis está ao nível do 3.o ano de escolaridade, a sétima pede para identificar um sistema, mas não para o resolver."

A crítica da Sociedade Portuguesa de Matemática não está no facto de os exercícios serem fáceis: "O grave é o número exagerado de perguntas cujas matérias já deveriam ter sido adquiridas em anos anteriores e o facto de não existir nem uma questão com um grau de dificuldade mais complexo." Grande parte do programa curricular do 9.o ano ficou, portanto, excluído, alerta a SPM. E há um efeito perverso em baixar o nível de exigência: "Os exames com estas características transmitem a ideia de que não vale a pena aprofundar as matérias."

Mais cedo do que tarde, os alunos pagam a factura, adverte o vice-presidente da sociedade. A falta de preparação só será sentida no ensino superior, uma vez que, nos últimos anos, o grau de dificuldade dos exames do secundário também tem sido baixo, defende Filipe Oliveira: "É nos cursos tecnológicos e de ciência que a falta de preparação vai ser flagrante."

Menos alarmada está a Associação de Professores de Matemática (APM), para a qual o exame cumpriu todas as competências do ensino básico: "É uma prova menos fácil do que a do ano anterior mas, mesmo assim, acessível para quem termina o 9.o ano", diz Ana Martins, professora da APM.

De acordo com a associação, os itens do exame nacional avaliam o raciocínio e a resolução de problemas é adequada ao ano de escolaridade em causa. A excepção vai apenas para a pergunta seis: "Demasiado elementar", reconhece a professora. Apesar do optimismo, Ana Martins esclarece que os eventuais "bons ou maus resultados" não irão reflectir o grau de aprendizagem dos alunos. Só que isso nada tem que ver com o nível de dificuldade da prova. "Nem todos os estudantes investem no exame da mesma forma. Se para uns o exame representa uma etapa determinante para passar de ano, para os restantes isso é indiferente, pois já garantiram a passagem do secundário."

O i quis ouvir o Ministério de Educação, mas fonte do gabinete de comunicação esclareceu não poder "reagir" aos comentários que cada entidade faz a "cada um dos exames" previstos para este ano lectivo.



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