Campanha. Alegre apanhado no fogo cruzado entre Belém e S. Bento

por Liliana Valente, Publicado em 17 de Janeiro de 2011   
Socialistas não poupam críticas a Cavaco e falam em eleições legislativas. Alegre diz estar contra cortes nos salários de privados
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Cavaco ataca o governo. Governo ataca Cavaco e Manuel Alegre reage. Os incómodos do apoio do PS ao histórico socialista começaram a aparecer ainda na primeira semana oficial de campanha.

O actual Presidente da República enquanto candidato disse que os portugueses preferiam a verdade a "andar iludidos por quem nos governa" e a resposta não tardou nos microfones da campanha. Francisco Assis - que esteve pela terceira vez com Manuel Alegre - dramatizou o discurso, falou da necessidade da esquerda se unir e lançou para a mesa a possibilidade de haver eleições legislativas. O combate às políticas de direita é neste momento prioritário e o líder parlamentar socialista promete: "Vamos travá-lo na revisão constitucional na Assembleia da República e vamos travá-lo nas ruas e praças deste país quando tivermos eleições".

À noite foi a vez de Augusto Santos Silva relembrar que não é papel de um Presidente da República "disputar eleições legislativas nem tutelar o governo, nem definir o rumo das políticas".

Tal como o primeiro-ministro, Santos Silva não mencionou o nome de Cavaco, mas relembrou que ser Presidente "não é ser chefe de facção", criticando sempre indirectamente. "Não queremos provincianos, mas um cidadão do mundo" na Presidência, rematou.

Também Alberto Martins, o ministro da Justiça e dirigente socialista falou em Matosinhos, para uma audiência que almoçou em pé, do "projecto oculto" da direita só possível com Cavaco na Presidência.

Os ataques cruzados entre o governo e o candidato apoiado pelo PSD e CDS começam a subir de tom à medida que se aproxima o dia 23. E Alegre é obrigado a falar de temas que são caros ao partido do governo que o apoia. "Eu estou contra. Não se percebeu se o actual Presidente quer alargar os cortes salariais também ao sector privado. Um dos seus principais conselheiros, Vítor Bento, já falou de cortes de 20 % em todos os salários", disse quando questionado se concordava com os cortes salariais a trabalhadores por conta de outrem sugeridos por Cavaco.

A reacção chegou um dia depois e de forma contida. Do PS ninguém fala mas Francisco Louçã, coordenador do Bloco de Esquerda, partido que apoia Alegre, entrou no debate: "Esta ideia de curar a economia através do corte dos salários, da austeridade que destrói a vida das pessoas, é a essência desta campanha eleitoral da direita", disse.

"É óbvio que a reeleição de Cavaco Silva terá consequências políticas internas fortes", diz ao i Medeiros Ferreira, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Mário Soares. Uma tese que os socialistas explanam em cada comício para apelar ao voto útil à esquerda e forçar uma segunda volta das eleições presidenciais.

Também o politólogo Adelino Maltez acredita que a radicalização do discurso feita por Cavaco e por Alegre significa que "os partidos já devem ter estudos de opinião que indicam uma segunda volta devido à abstenção e por isso populismo para cima", disse ao i. Para o politólogo as eleições traduzem-se agora num "combate entre dois situacionismos: por um lado o presidencial, por outro o governamental", resumiu. Do lado alegrista, Almeida Santos reforçou os apelos à esquerda relembrando os eleitores que "não votar ou votar em branco é dar meio voto a Cavaco Silva". Depois, em declarações à margem do comício de Coimbra - onde Alegre foi surpreendido por mais de um milhar de manifestantes do ensino particular e cooperativo - dizer que "talvez [o PS] pudesse dar mais apoio" a Manuel Alegre.

Desespero e reforma O apelo à não- -abstenção à esquerda tem sido recorrente nos discursos de Alegre. Cavaco acabou por lhe dar uma ajuda. "Não tem vergonha de dizer que a mulher ganha 800 euros de reforma a uma senhora que ganha 100 euros?", diz ao i uma apoiante de Alegre. "Estava indecisa se votava ou não. Depois de dizer aquilo vou votar Manuel Alegre", confessou Conceição Pedraz, uma reformada de Leça da Palmeira.

Ontem acompanhado de diversos dirigentes de topo do PS - durante o dia teve mesmo o apoio de dois ministros, Augusto Santos Silva e Alberto Martins, do líder da bancada parlamentar e dos deputados Renato Sampaio e Strecht Ribeiro - respondeu às acusações de estar "em desespero" feitas por Cavaco dizendo que demonstra algum "nervosismo e preocupação". Expressão já repetida por Alegre para mostrar que "a onda [de apoios] está a crescer". Matosinhos deu novo alento à candidatura - durante todo o dia Alegre não parou de sorrir o que raramente tinha acontecido até aqui em campanha - e ouviu da boca do presidente da Câmara de Matosinhos, Guilherme Pinto, um pedido: Registe no calendário uma data "aqui começou a segunda volta", disse. Antes, também Assis tinha dito que "é claro que as coisas começam a mudar". Assis falava do apoio e Alegre aproveitou: "Vamos sair daqui com toda a força e confiança" para forçar uma segunda volta. Mas o candidato acabou por admitir indirectamente que nos primeiros dias o partido não esteve muito empenhado na campanha. "Tenho tido um apoio cada vez mais empenhado" do PS, admitiu.

Com Sónia Cerdeira


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