visto de fora

Permanecer fiel é amar verdadeiramente

por Francesco Alberoni, Publicado em 23 de Junho de 2009   
Uma emoção, para durar, também exige alguma vontade. São os pactos de fidelidade que se fazem por tempo indeterminado
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Os casais modernos têm por base o enamoramento, que é exclusivo. A pessoa que amamos é a única que desejamos e nós somos os únicos que ela deseja. É por isso que os apaixonados são espontaneamente fiéis. Contudo, para poder durar, o amor exige uma intervenção da vontade. Os cônjuges e amantes fazem um pacto de fidelidade que os vincula por tempo indeterminado. É por isso que a fidelidade tem dois lados: um, espontâneo, que tem por base o desejo; o outro, assente no acordo, na instituição. Todas as religiões - cristã, judaica, islâmica - atribuem um peso preponderante ao pacto, à instituição.

A fidelidade pratica-se como qualquer outro imperativo moral.

Mesmo que muitos filósofos, como Rousseau, De Rougemont e Fromm desconfiem do amor e defendam que a relação de um casal deve basear--se mais na vontade do que no sentimento.
Esta tese, se levada ao extremo, exclui o amor e concebe a fidelidade como pura obrigação. Assumiste o compromisso de seres fiel, que deves respeitar sempre e em qualquer circunstância. Evitarás as pessoas que possam influen- ciar-te negativamente. Não frequentarás ambientes promíscuos. Não te aproximarás de homens ou mulheres que te agradem e que possas desejar. Sufocarás à nascença os teus impulsos eróticos até ficares indiferente aos estímulos, até que os outros te sintam frio e distante. São em menor número aqueles que deram importância à fidelidade espontânea que nasce de um amor apaixonado. E, contudo, ela existe.
Basta pensar no testemunho desta mulher: "Desde que te amo, sou feliz, o meu corpo renasceu, sinto novas emoções, prazeres nunca antes imaginados. É por isso que não quero esgotar nem estragar as magníficas sensações que me fazes sentir. Bastaria o simples contacto com outro homem para lhes contaminar irreparavelmente a pureza e a perfeição. Como uma gota de veneno que polui um jarro de água puríssima, como comer a maçã da árvore maldita no paraíso terreal."
Na realidade, todos os homens e todas as mulheres possuem a capacidade de vivenciar uma intimidade amorosa que proporciona grande prazer e que precisa da fidelidade. Uma fidelidade desejada e procurada, que dá felicidade e que se torna hábito, sem qualquer esforço nem renúncia. É claro que é difícil de alcançar, mas é mais adequada ao nosso tempo do que a concebida como pura obrigação e imposição.

Sociólogo, escritor e jornalista



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