Os casais modernos têm por base o enamoramento, que é exclusivo. A pessoa que amamos é a única que desejamos e nós somos os únicos que ela deseja. É por isso que os apaixonados são espontaneamente fiéis. Contudo, para poder durar, o amor exige uma intervenção da vontade. Os cônjuges e amantes fazem um pacto de fidelidade que os vincula por tempo indeterminado. É por isso que a fidelidade tem dois lados: um, espontâneo, que tem por base o desejo; o outro, assente no acordo, na instituição. Todas as religiões - cristã, judaica, islâmica - atribuem um peso preponderante ao pacto, à instituição.
Mesmo que muitos filósofos, como Rousseau, De Rougemont e Fromm desconfiem do amor e defendam que a relação de um casal deve basear--se mais na vontade do que no sentimento.
Esta tese, se levada ao extremo, exclui o amor e concebe a fidelidade como pura obrigação. Assumiste o compromisso de seres fiel, que deves respeitar sempre e em qualquer circunstância. Evitarás as pessoas que possam influen- ciar-te negativamente. Não frequentarás ambientes promíscuos. Não te aproximarás de homens ou mulheres que te agradem e que possas desejar. Sufocarás à nascença os teus impulsos eróticos até ficares indiferente aos estímulos, até que os outros te sintam frio e distante. São em menor número aqueles que deram importância à fidelidade espontânea que nasce de um amor apaixonado. E, contudo, ela existe.
Basta pensar no testemunho desta mulher: "Desde que te amo, sou feliz, o meu corpo renasceu, sinto novas emoções, prazeres nunca antes imaginados. É por isso que não quero esgotar nem estragar as magníficas sensações que me fazes sentir. Bastaria o simples contacto com outro homem para lhes contaminar irreparavelmente a pureza e a perfeição. Como uma gota de veneno que polui um jarro de água puríssima, como comer a maçã da árvore maldita no paraíso terreal."
Na realidade, todos os homens e todas as mulheres possuem a capacidade de vivenciar uma intimidade amorosa que proporciona grande prazer e que precisa da fidelidade. Uma fidelidade desejada e procurada, que dá felicidade e que se torna hábito, sem qualquer esforço nem renúncia. É claro que é difícil de alcançar, mas é mais adequada ao nosso tempo do que a concebida como pura obrigação e imposição.
Sociólogo, escritor e jornalista




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