Crime

Carlos Castro. Assassínio do cronista não abalou mundo LGBT

Publicado em 10 de Janeiro de 2011   
Escritor Eduardo Pitta denuncia ao i que a comunidade LGBT "é preconceituosa"
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Agressões violentas na cabeça e estrangulamento provocaram a morte do colunista social Carlos Castro. Ontem, o porta-voz do gabinete de medicina legal da cidade de Nova Iorque, Ellen Borakove, confirmou os motivos da morte do jornalista. O relatório do médico legista aponta "lesões causadas por impacto violento" e "compressão no pescoço" disse Borakove, citado pela Lusa. O principal suspeito, o manequim Renato Seabra, está "em avaliação psiquiátrica num hospital da cidade", sob custódia da polícia. A polícia de Nova Iorque encontrou o corpo do colunista "banhado em sangue e com mutilações nos órgãos genitais" por volta das 19h00 de sexta-feira (hora local de Nova Iorque) no Hotel Intercontinental, no centro de Manhattan.

Para o presidente da Opus Gay, António Serzedelo, "Carlos Castro foi vítima de violência doméstica", algo que "infelizmente" também acontece entre casais "heterossexuais". O dirigente da comunidade LGBT considera alguns dos comentários difundidos na internet "horríveis". Para Serzedelo, o ponto de partida passa pela aceitação de que os comportamentos de um casal gay são iguais aos dos heterossexuais. "Entre os homossexuais também há discussões, violência e chantagem emocional, contrariamente ao que o movimento associativo tentou transmitir de que os casais gays seriam quase perfeitos", nota.

O escritor Eduardo Pitta, que recentemente casou com o companheiro de anos, denuncia a tentativa de "branquear" o assassinato de Carlos Castro e que o caso "trouxe ao de cima fantasmas do passado": "Não falta muito para que apareçam pessoas a dizer que o assassino se defendeu de uma tentativa de violação", diz ao i.

Eduardo Pitta acha que o caso está a passar "um bocadinho à margem da comunidade LGBT", porque esta "é preconceituosa": "Era um cronista social popular, de revistas de cabeleireiras. No fundo, acham que ele ''não é dos nossos", não pertence a meios com grande poder económico." A ILGA divulgou no seu site um comunicado de luto pela morte de Carlos Castro. Ao i, Paulo Côrte-Real lamentou a morte de "um dos primeiros activistas pelos direitos dos homossexuais". Na opinião do presidente da Opus Gay, o poder político tem responsabilidade no preconceito contra a comunidade gay e a morte de Carlos Castro "poderá ser o momento oportuno" para governo, partidos e poder local reforçarem a aceitação de gays no âmbito social e profissional. "A lei não muda mentalidades", lembra.

Os comentários homofóbicos têm disparado nos sites dos jornais, em blogues e no Facebook. Miguel Vale de Almeida, antropólogo, ex-deputado independente do PS e activista LGBT afirma ao i que "um caso dramático como este tem demasiados elementos narrativos com alguns fantasmas que as pessoas têm sobre as relações homossexuais", nomeadamente "a diferença de idades muito grande, a diferença muito grande de nível sócio-económico e o meio social de fama e glamour". Ora, com este contexto, o assassinato de Carlos Castro "tornou-se lenha para a fogueira das fantasias, preconceitos do passado e estereótipos em relação aos gays", sustenta Vale de Almeida.

Eduardo Pitta lembra que "a crise da meia-idade nos heteros é um valor em si mesmo", mas nos homossexuais e nas mulheres "esse desvio está vedado". Para Vale de Almeida, Carlos Castro, que não pertencia ao seu universo de "referências estéticas", "teve um papel muito importante ao assumir-se gay, fez coisas muito importantes na luta contra a Sida e não tinha papas na língua a denunciar hipocrisias".

Fabíola Cardoso, do Clube Safo (Associação de Defesa dos Direitos das Lésbicas) desvaloriza o caso e diz ao i "que o nosso país é fértil em conseguir que pequenos incidentes se transformem em grandes problemas". A activista não teme que todo o trabalho desenvolvido pelas associações contra a discriminação dos homossexuais seja prejudicado por este "incidente trágico" e sublinha que "a aceitação homossexual é um percurso irreversível da modernização da sociedade".

O decreto-lei que veio permitir o casamento gay foi aprovado exactamente há um ano no Parlamento, mas as associações contactadas pelo i asseguram que há ainda "muito a fazer". Para o presidente da ILGA, Paulo Côrte-Real, "a lei é só o início; estamos ainda numa fase de luta".


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