EDITORIAL
O anátema da pobreza e a retórica da política
por Carlos Ferreira Madeira, Publicado em 03 de Janeiro de 2011
Portugal sempre foi pobre. Deixou apenas de ser miserável. Há 2 milhões de pessoas em risco e falar da coisa não chega: é preciso agir
Portugal sempre foi um país pobre: deixou apenas de ser absolutamente miserável a partir dos anos 60 do século passado. Apesar da guerra do Ultramar, a relativa abertura do país ao exterior com a adesão à EFTA (Associação Europeia do Comércio Livre), em 1961, a nova dinâmica nas importações e nas exportações e as entradas de capital privado estrangeiro no país, associadas às remessas dos emigrantes e à industrialização da cintura de Lisboa, produziram efeitos positivos na sociedade.
O ritmo de crescimento económico foi interrompido com a revolução e a descolonização, os choques petrolíferos globais, a instabilidade política que degenerou no fatal recurso, por duas vezes, ao FMI. A adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1986, permitiu o acesso a fundos astronómicos, que alguns economistas contabilizaram em 10 milhões de euros por dia. A integração na moeda única foi outro sucesso, apesar da armadilha que trouxe atrelada: o endividamento excessivo.
Globalmente, porém, a evolução das condições de vida dos portugueses em meio século foi notável: o rendimento médio das famílias aumentou mais de seis vezes, a maioria das famílias saiu da pobreza extrema e abandonou as sopas de cavalo cansado; o pão e os produtos hortícolas produzidos numa base de subsistência deixaram de ser a alimentação diária. A taxa de mortalidade foi reduzida e estabilizou na média europeia - um sinal inequívoco de modernização e do alargamento dos cuidados de saúde. A alfabetização avançou como uma locomotiva furiosa, como a electrificação e a rede de saneamento básico. A rapidez da mudança permitiu-nos bater recordes na Europa: dois terços das famílias adquiriam telemóvel e casa própria e muitos portugueses chegaram ao top do clube dos europeus que têm duas casas. O crédito fácil e a rede europeia permitiu-nos viver melhor. Criou, porém, outro problema de fundo: a desigualdade. As diferenças entre ricos e pobres aumentaram e o fosso é dos maiores da Europa. Esta realidade é economicamente nociva e potencialmente geradora de conflito.
A classe média cresceu com a obesidade do Estado, que criou emprego e despesa astronómica com o alargamento das suas funções sociais; o endividamento privado disparou por via do crédito e do consumo: as famílias deixaram de poupar. Nos últimos anos, os governos deram sinais errados aos cidadãos e às empresas e, quando rebentou a crise, percebeu-se que o país produzia menos do que consumia. As famílias gastavam mais do que ganhavam. Emergiu assim a realidade até então disfarçada: a pobreza. Em 2008, o risco de pobreza ameaçava já perto de 18% da população (12% dos empregados corriam o mesmo risco). A fotografia no caso das crianças (22%) e dos idosos (23%) era ainda mais aterradora. E 4% dos portugueses não tinham dinheiro para fazer uma refeição de carne ou peixe dia sim dia não. Hoje 2 milhões vivem abaixo do limiar da pobreza. O anátema está a generalizar-se.
Que a classe política, independentemente do partido ou da ideologia, se digladie na retórica sobre a pobreza é, no mínimo, uma atitude de mau gosto. A pobreza é real e vai agravar- -se neste ano de recessão económica, desemprego recorde e estrangulamento fiscal. Não basta chamar a atenção para o fenómeno: são precisas acções políticas para o combater. Ilegalizar a pobreza é querer terminar com ela por decreto: não funciona. Mais vale imitar as acções individuais de milhares de portugueses que se dedicam a ajudar os outros, como podem, numa base voluntária. Isto sim, é um sinal positivo: a sociedade civil está a organizar-se autonomamente - à margem do ineficaz paternalismo do Estado.
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