Processo da CIA está cheio de mentiras e enganos
Publicado em 20 de Junho de 2009
O processo arquivado pela procuradoria revela invenções dos inquiridos. Alguns dos casos de tortura citados por Ana Gomes nunca aconteceram
"Estava na brincadeira e inventei uma história para os amigos. Nunca pensei que chegasse tão longe", confessa o estilista Orlando Cosmelli. O português naturalizado canadiano foi citado no início do processo dos "voos da CIA" relacionados com a base das Lages nos Açores como tendo sido raptado em Torremolinos, levado para interrogatório em Ceuta, sujeito a maus tratos, interrogado, e posteriormente libertado na rua de São Marçal, em Lisboa, onde morava.
No processo, a que o i teve acesso, a Polícia Judiciária contactou telefonicamente o estilista, nascido em Angola há 51 anos, com nacionalidade portuguesa e naturalizado canadiano, que revelou que tinha estado, de facto, em Torremolinos em 2004, mas que o rapto por agentes da CIA nunca existiu.
O caso arquivado pela Procuradoria Geral da República revela também outros enganos. O jornalista da Lusa, Aranda da Silva - que teria afirmado à eurodeputada do PS Ana Gomes, ao denunciante do processo, o jornalista Rui Costa Pinto, e a um jornalista do "Expresso", que tinha visto seis prisioneiros acorrentados, em fila indiana, a sair de um avião nas Lages - declara agora no processo que tanto os jornalistas como a eurodeputada Ana Gomes deturparam as suas declarações.
Aranda da Silva disse ainda que, ao contrário do que a deputada socialista afirmou, "nunca se deslocou ao local do avistamento com Ana Gomes".
A procuradoria arquivou o processo por ter apurado, "unicamente", que terá ocorrido o transporte de dois deportados oriundos do Canadá no aeroporto de Santa Maria, nos Açores. Um, Said Jaziri - e, outro, "presumivelmente de nacionalidade portuguesa". Escreve-se ainda que pode ter havido transporte de militares detidos.
Segundo as conclusões do inquérito, houve 148 tripulantes ou passageiros, que passaram nos aeroportos dos Açores, Lisboa, Porto e Cascais. Mas, através dos depoimentos de 137 testemunhas, conclui-se que não "há indícios que levem a concluir" que tenham existido crimes, "denunciados ou quaisquer outros em território nacional no âmbito das extraordinary renditions (rendições extraordinárias)".
No processo diz-se ainda que terá havido uma utilização abusiva do expediente "voos de Estado" por parte dos operadores dos aviões, uma vez que o Ministério dos Negócios Estrangeiros "não concedeu autorizações diplomáticas". O documento refere que não se pode excluir que estas 148 pessoas "possam estar ligadas directa ou indirectamente, às autoridades norte-americanas e, em concreto, às actividades da CIA". Mas, conclui, que "não se logrou demonstrar tal relação".
Em reacção a este arquivamento, Ana Gomes escreveu que "como assistente no processo tem uma data limite, nos primeiros dias de Julho, para reagir". E garantiu que o vai fazer.
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