Sonhos infantis: Mãe... há um monstro debaixo da minha cama!
Publicado em 20 de Junho de 2009
Esteja atento aos sonhos dos seus filhos. São portas abertas para compreender desejos ou frustrações
No fundo de uma casa lilás há uma porta azul que, ao abrir-se, mostra lá fora um corredor de nuvens alinhadas em montinhos de algodão. É o caminho que se percorre até chegar à outra ponta de um céu carregado de tons laranja. A viagem termina assim que os olhos abrem e, ainda antes de chegar à escola, a recordação desaparece para sempre. Em menos de nada, os sonhos fogem da memória dos miúdos. Agarrá-los antes de se perderem é uma oportunidade que os adultos têm para entender as emoções das crianças. "Os sonhos infantis são alertas para os pais, pois podem ser expressões de preocupações, de necessidades e de desejos dos filhos", garante a psicoterapeuta Natacha Rodrigues.
Mas descodificar as aventuras vividas pelos mais novos durante a noite não é tarefa instantânea. "Não existe uma correlação directa com o estado emocional da criança", avisa o pediatra Mário Cordeiro. A sua interpretação é sempre individual e varia de caso para caso. Depende, portanto, do momento, da história de vida e do contexto pessoal de cada criança. Mas, a vantagem é que são fáceis de entender. Nos sonhos infantis não há leituras nas entrelinhas, interpretações freudianas ou mergulhos nas profundezas do subconsciente.
"Os sonhos das crianças são simples, breves e sem ambiguidades", explica Cristina Nunes, psicoterapeuta e directora associada da CliniPinel, clínica vocacionada para as as áreas de Psiquiatria, Psicoterapia e Psicanálise. São rastos de desejos por realizar, inquietações com algo que ficou pendente na véspera. "Retratam sobretudo aspectos pontuais mal resolvidos durante o dia e raros são os casos em que é possível interpretar o lado emocional mais profundo da criança", esclarece Cristina Nunes.
Mas há sonhos que são recorrentes. Que fazem parte do imaginário colectivo de quase todos os miúdos. São símbolos universais, combinados com ingredientes culturais e individuais, explica Natacha Rodrigues: "Sonhar com monstros é muito mais comum em crianças do que em adultos, mas no Japão, por exemplo, o monstro pode adoptar a forma de um godzilla, enquanto que, em Portugal, cabe ao bicho-papão simbolizar o medo."
Medos Fugir sem hipóteses de fuga, ser perseguido por serpentes ou por feras, atormentado por bruxas e outras figuras fantásticas são alguns dos padrões infantis identificados pelo pediatra Mário Cordeiro. São vários os feitios que o medo assume para uma criança e poderão querer dizer que estão frustrados, se sentem culpados, frágeis, revoltados, com remorsos ou raiva: "Os sonhos agradáveis, por outro lado, poderão estar relacionados com a sexualidade ou erotismo, com a mãe, o nascimento, etc."
As fantasias agradáveis são as mais facilmente partilhadas com os pais, ainda que por vezes possam ser embaraçosos para as crianças, adverte a psicanalista Luísa Branco Vicente. "Quando se está no período classicamente conhecido como edipiano, uma menina pode sonhar que casou com o pai e um menino com a mãe, e desta forma conseguir eliminar um rival."
Outros sonhos são transversais a todas as idades, quase próprios da espécie humana. "Voar ou andar no céu, perder peças de roupa ou cair de um comboio são padrões recorrentes que, ainda assim, devem ser pensados em função do aqui e agora do sonhador", diz Cristina Nunes.
Pesadelos Acordar ao meio da noite com os pesadelos dos filhos já aconteceu à maioria dos pais. Em regra, não é motivo de preocupação: "Boa parte das vezes é apenas resultado do imaginário infantil que vai sendo construído a partir de experiências, jogos, filmes ou histórias que ouviram contar e que interpretam à sua maneira", defende a directora da CliniPinel.
Os pesadelos, esclarece Mário Cordeiro, embora sejam inquietantes são uma forma positiva de encarar as emoções negativas. Além do mais, acrescenta o pediatra, permitem exteriorizar um lado negro sem que isso tenha consequências no seu estado de vigília. "Por vezes os pesadelos escondem sentimentos que não foram e nem devem ser verbalizados. Os sonhos maus são complexos e podem ter inúmeros significados mas, mesmo que sejam aterradores, são factores protectores."
O certo é que um pesadelo pode ser um momento de grande tensão para as crianças até aos cinco anos, uma vez que existe maior probabilidade de confundirem a ficção com a realidade, explica Natacha Rodrigues. Aos adultos basta não dramatizar e ter uma postura tranquila para transmitir confiança aos mais novos. O significado dos pesadelos é semelhante ao dos outros sonhos e deve ser "desmistificado" pelos mais velhos, defende Cristina Nunes.
"Se os pais conseguirem, numa atitude não ansiosa, acalmar a criança e incentivá-la a contar o pesadelo, contribuirão certamente para a sua resolução", assegura Luísa Branco Vicente. Apoiar, ter paciência e ouvir são alguns dos comportamentos adequados. "O importante é não deixar escapar nunca um desabafo como 'que chatice!' ou 'amanhã bem cedo tenho de ir trabalhar'. Caso contrário, os pais serão o pior dos pesadelos", avisa Mário Cordeiro.
Os maus sonhos só constituem motivo de alguma preocupação quando se tornam repetitivos e interferem no ritmo de sono da criança. "Nessas alturas, os educadores deverão consultar um pedopsiquiatra ou um psicólogo infantil para avaliar a situação", diz a psicanalista Luísa Branco Vicente.
Mas enganam-se os que estão convencidos que os sonhos são a única fonte de informação que os pais têm para compreender o estado emocional dos seus filhos. "É bom notar sinais de tristeza ou de depressão durante o estado de vigília", esclarece Mário Cordeiro. Se existirem motivos de apreensão, insiste Cristina Nunes, outros indícios mais evidentes que os sonhos, despertam no "olhar intuitivo" dos adultos a necessidade de intervir.
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