Crise da dívida

FMI. Portugal é o mais exposto à Irlanda. De propósito.

por Ana Suspiro, Publicado em 18 de Dezembro de 2010   
A Irlanda é escolhida pelo sistema financeiro nacional como palco de operações de titularização por causa da fiscalidade favorável
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Portugal é o país que tem maior exposição a investimentos na Irlanda em percentagem do PIB (produto interno bruto). A conclusão é do Fundo Monetário Internacional (FMI), num relatório divulgado ontem que serviu de base à decisão de viabilizar a ajuda à Irlanda.

Nas contas do FMI, os investimentos e as aplicações nacionais na Irlanda representam 18,8% do PIB português. Em números redondos, estamos a falar de qualquer coisa como 33 mil milhões de euros que, segundo o FMI, estão sobretudo aplicados em títulos e instrumentos de dívida de longo prazo. A seguir a Portugal, e pelo critério do PIB, surge o Reino Unido (8,9%) que tem a maior exposição absoluta a activos irlandeses, estimada em 134 mil milhões de euros. A dimensão dos números surpreendeu os especialistas contactados pelo i. O presidente do ISEG, João Duque, avança com a hipótese de que estes dados estejam inflacionados por operações de titularização de créditos realizadas pela banca nacional, por intermédio de veículos criados na Irlanda. A razão desta prática está na política fiscal mais suave da Irlanda, em particular no que toca a empresas e capitais.

Fonte bancária contactada pelo i confirma este tese. A Irlanda, a par do Luxemburgo, é um destino muito procurado pelos bancos nacionais para domiciliarem operações de titularização de créditos, sobretudo obrigações hipotecárias (empréstimos à habitação). Isto significa que, embora os fluxos financeiros passem pela Irlanda, os activos subjacentes são créditos concedidos no mercado nacional. Por outras palavras, estas aplicações estarão expostas a activos portugueses e não irlandeses, segundo os especialistas ouvidos pelo i.

A titularização é um instrumento financeiro que consiste em antecipar receitas futuras, vendendo os créditos com um juro garantido à banca ou a empresas especializadas, que depois os podem transaccionar no sistema financeiro ou, como tem acontecido recentemente, utilizar como colateral em troca de financiamentos do Banco Central Europeu.

A operação mais conhecida foi realizada pela ex-ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite, que vendeu ao Citigroup dívidas ao Fisco e à Segurança Social, antecipando receita que serviu para abater ao défice. Dentro destas dívidas de longo prazo podem estar créditos à habitação, às empresas, ao consumo, concedidos pelo bancos nacionais, mas também o défice tarifário da electricidade (dívidas dos clientes da EDP), receitas futuras da TAP ou das portagens da Brisa, para falar só em operações divulgadas.

A exposição directa dos bancos portugueses à Irlanda existe, mas é mais limitada. Segundo os testes de stresse divulgados em Agosto, a banca nacional tinha cerca de 840 milhões de dívida pública irlandesa. Aproximadamente metade desse valor, que se reportava a Março, era investimento do BPI.

O FMI considera limitada a exposição da banca mundial à dívida soberana de Dublin, mas alerta para o elevado valor dos investimentos bancários em outros activos irlandeses. À frente estão os bancos alemães (113 mil milhões de euros), seguidos dos ingleses e dos franceses. Sublinha ainda que o risco de contágio da crise irlandesa é muito significativo por causa das intensas relações financeiras do país a nível mundial.

Portugal mais vulnerável Portugal surge no trio dos países periféricos que estão mais vulneráveis a um contágio made in Ireland, juntamente com a Grécia e Espanha, uma visão aliás secundada por analistas internacionais (ver caixa). O FMI defende ainda que há um risco considerável de os problemas nos dois maiores bancos irlandeses, Allied Irish Bank e Bank of Ireland, passarem a outros bancos europeus. A probabilidade, diz a instituição, é superior a dois terços, com especial relevo para os bancos portugueses e gregos.


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