MGMT. Os miúdos estão bem
por Tiago Pereira , Publicado em 18 de Dezembro de 2010
No dia do concerto no Campo Pequeno, Andrew VanWyngarden explica como o último álbum da banda foi de objecto de ódio a disco exemplar em menos de um ano
Abril de 2010: os MGMT editam "Congratulations", um álbum que é um fiasco, que não aproveita nem pitada do génio pop espelhado na estreia "Oracular Spectacular", de 2008, o tal que mostrou ao mundo canções de vício technicolor, como "Kids" ou "Time to Pretend". Dezembro de 2010: ainda que, na maioria das situações, fuja dos lugares de topo, "Congratulations" é incluído nas listas dos "melhores do ano" de tudo o que é gente que interessa - vulgo revistas da especialidade e blogs da moda. Andrew VanWyngarden, vocalista dos MGMT, explica o que aconteceu nos entretantos: "É simples, as canções conquistaram o seu espaço. E algumas pessoas perceberam que foram longe de mais ao crucificar o álbum assim que ele saiu. Basta ver como os temas funcionam ao vivo, no meio das canções de 2008." Está apresentada a argumentação e o convite/desafio para assistir ao concerto que a banda dá hoje em Lisboa, no Campo Pequeno. Tudo no mesmo parágrafo.
Parabéns Andrew diz-nos que este final de ano está a ser perfeito, que "a digressão tem corrido muito bem, nunca vivemos esta sintonia entre os EUA e a Europa, toda a gente parece estar na mesma frequência". Mas este é um músico que lê os jornais e as revistas, que se preocupa com o que dizem sobre o seu trabalho, que navega entre críticas online com os nervos do puto ansioso que não sabe "o que vai acontecer agora". E esteve atento ao que a crítica lhes dedicou: "Chateou-me o facto de pensarem que tudo se resumia a uma questão de ego, que uma canção de 12 minutos significa megalomania." Os MGMT eram afinal, "uma banda de pop electrónica, diziam muitos". Tudo porque, pobres apologistas das coisas do psicadelismo colorido onde cabe até o universo particular dos sintetizadores, assinaram um primeiro álbum "que tinha canções feitas para a festa, para o baile popular". A verdade é que Andrew - e o seu companheiro de composição, Ben Goldwasser - são homens de outras inspirações, de "rock clássico, de coisas menos elegantes, dos anos 80, da new wave". Os singles certeiros do primeiro álbum são "canções antigas", escritas e gravadas antes de outras descobertas. E entre os concertos e o sucesso inesperado que acompanharam a edição de "Oracular Spectacular", tornou-se adulto o desejo infante de voltar ao estúdio para brincadeiras de descobertas ingénuas - ou como seria bom poder fazer tudo o que lhes desse na ideia. O resultado foi uma viagem ácida na companhia de todos os nomes que compõem a discografia caseira da banda.
Como brinde, esta inquietação (pouco filosófica, mais prática que outra coisa) surgiu atrelada à dificuldade em fazer o tal do segundo disco. "É um cliché da crítica falar no complicado segundo disco. E as nossas questões não estiveram relacionadas com problemas criativos ou falta de inspiração. Apenas pouco descanso depois de uma digressão longa e falta de organização entre tantas ideias que tinhamos." Mas Andrew acredita no valor dos preconceitos e dos carimbos de uma indústria previsível. Aceita-as como uma questão de conforto e adaptação às leis do mercado. Como prova do seu apreço por tais dogmas, conforta os que esperam já por um terceiro registo: "O nosso próximo álbum será homónimo. ''MGMT''. Assim toda a gente poderá dizer que se trata de um regresso às origens, um reencontro com a génese do grupo, depois de um período menos focado." É neste momento que tomamos nota do recado para um texto futuro.
Conclusão "Congratulations" é um grande disco, um dos maiores de 2010, e em palco está maduro, ainda perdido de amores pela libertinagem que o gerou mas apenas porque pode (que isto do desvario intencional não é para todos). Não há, como nunca houve, muito espaço para exercícios de ginástica preformativa nas actuações dos MGMT - ou, nas palavras de Andrew, "por mais que queira, não consigo ser um Mick Jagger, não sou assim". VanWyngarden alimentou, em tempos, a fantasia de reinterpretar o modelo Jeniffer Herrema (a iconográfica líder dos Royal Truxx), mas era tudo "muito confuso". Ficou-se pela "concentração", elemento obrigatório quando o objectivo é ser alguém no mundo da pop. "Não quero ter nada a ver com os hipsters de Brooklyn ou com a cena de Nova Iorque. É uma cidade muito grande, com muita gente, vai ter sempre uma cena, mais que uma. Quero é marcar a diferença". Dizemos-lhe que, a continuar com feitos como "Congratulations", será fácil.
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