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Em terra de mafiosos italianos quem tem olho é cineasta

por Hélder Beja, Publicado em 19 de Junho de 2009   
Sousa Duarte foi à Sicília investigar a vida do realizador Frank Capra e acabou por voltar com um livro cheio de histórias da máfia
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O cinema e a máfia dão-se bem. Foi sempre assim, desde que Francis Ford Copolla, Martin Scorsese e outros cineastas italo-americanos começaram a emergir nos EUA. António de Sousa Duarte sabia-o e em 2007 rumou à Sicília com o propósito de investigar a vida de Frank Capra (1897-1991), realizador de "Do Céu Caiu Uma Estrela" (1946) e vencedor de três Óscares ao longo da carreira.

O que o ex-jornalista português de 45 anos desconhecia era que, poucas ruas ao lado da casa onde nasceu Capra, na povoação de Bisacquino, estava a antiga morada de um ilustre padrinho da máfia: Dom Vito Cascio Ferro (1862-1943). A descoberta deu um livro: "O Sangue da Honra", que parte da investigação de Sousa Duarte para a ficção de Francisco Moita Flores.

"Frank Capra e Dom Vito nunca se cruzaram, apesar de terem partido para os EUA praticamente na mesma altura [primeiros anos do século 20]", conta Sousa Duarte. O agora consultor na área da comunicação passou um mês na Sicília a "falar com vizinhos da casa onde Capra nasceu e com filhos de contemporâneos dele".

Na sombra da máfia Um estrangeiro que apareça a fazer perguntas em Bisacquino e na localidade Corleone (sim, terra natal de Dom Vito Corleone, protagonista de "O Padrinho") "rapidamente se torna alvo de atenções". Sousa Duarte garante que não sentiu "nenhum perigo" mas sabe que esteve sempre "sob vigilância". Não foi fácil. "Eu era um jornalista no coração da máfia e ali toda a gente sabe o que se passa", prossegue o homem que antes deste livro escreveu biografias de figuras como Salgueiro Maia ou D. Manuel Martins, antigo bispo de Setúbal.

Para Sousa Duarte, há duas Sicílias: a dos destinos turísticos e costeiros, como Palermo, Messina e Siracusa, e a do interior, parada no tempo: "Percebe-se um bocadinho porque é que nasceu ali a máfia. Há um clima que nos esmaga, que nos stressa em função da escuridão, do silêncio, do mistério que ali se vive."

Capote português Feita a pesquisa, a primeira ideia de Sousa Duarte era escrever um ensaio jornalístico. Mas a história foi engrossando e ganhando personagens - como o polícia Joe Petrosino, assassinado em 1909 por Dom Cascio Ferro. Até que apareceu Moita Flores.

Apesar de valorizar a sua investigação, Sousa Duarte diz que o livro "nunca teria existido sem a mestria de Francisco Moita Flores". E não tem dúvida em afirmar que, por melhor que tivesse sido o seu ensaio, "jamais teria sido um romance como este".

Moita Flores pegou na investigação e fez uma novela, uma história ficcionada em que se cruzam as personagens desenterradas por Sousa Duarte. O investigador não poupa elogios, dizendo que "Moita Flores é o maior novelista ibérico vivo" e "uma espécie de Truman Capote da Península Ibérica, com um registo que transforma a reportagem em ficção".

Além de Portugal, "O Sangue da Honra" também estará à venda a partir de hoje em Itália, com o título "Capra non era un Maffioso" e com chancela da Cavallo di Ferro.


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