Sumo
"Até tenho uma alimentação mais correcta do que a maioria"
por Rui Catalão, Publicado em 13 de Dezembro de 2010
Carlos Neves tem 29 anos, é lutador de sumo e falou ao i sobre esta arte marcial que por cá ainda está a dar os primeiros passos
Esqueça a ideia de que o sumo é só para asiáticos de olhos em bico. São cada vez mais os europeus no mais alto nível da modalidade. O português Carlos Neves é um desses exemplos: vai a europeus e mundiais mesmo sem receber apoios do Estado. E garante que não é menos saudável por pesar 177 quilos.
Em Portugal, quando se pensa em fazer desporto, o sumo deve aparecer no fim da lista de modalidades. Como começou?
Antes do sumo já tinha praticado outras artes marciais, como o judo. Depois também fiz alguns desportos colectivos: futebol, voleibol, hóquei em patins e râguebi. Mas todos como hobby. O sumo, com esta parte da competição, surgiu de uma brincadeira de amigos. Disseram-me: "Tu, que és grande, devias era experimentar o sumo!" Não me deixei ficar atrás e disse: "Não é tarde nem é cedo." Foi assim que comecei a vir da Marinha Grande para Lisboa aos sábados de manhã. Tinha 19 anos.
Que dificuldades sentiu no início? Era fácil arranjar adversários para lutar?
A modalidade em si não é muito complicada. Os exercícios mais difíceis para mim eram os agachamentos, porque o sumo trabalha muito as pernas e a zona abdominal. Mas também ganhei mais agilidade. Nessa altura havia um grupo grande de pessoas a treinar em Lisboa, na Federação Portuguesa de Sumo. A maioria estava na universidade, como eu, e aquilo funcionava como hobby.
Entretanto começou a levar o sumo mais a sério. E com isso vieram as competições internacionais...
Foi desde 2004. Formámos uma equipa para ir ao campeonato europeu. Nessa altura custeámos a viagem com a esperança de que depois da primeira participação conseguíssemos apoios das entidades oficiais.
Que nunca apareceram.
Pois. Neste último mundial, na Polónia [Carlos Neves foi eliminado nos 16 avos--de-final], paguei tudo do meu próprio bolso. Tive duas grandes ajudas - da empresa onde trabalho e dos clientes de um estabelecimento nocturno -, mas isso não tapou o rombo todo na minha conta. Ao todo, a participação custou cerca de 800 euros. Mas os problemas com apoios sempre existiram. Uma vez fui à Estónia para uma competição e pedi ajuda cá, para ver se me arranjavam alojamento. Não obtive resposta, mas depois reparei, durante a competição, que havia bandeiras portuguesas no público. No final fui lá falar com eles, para agradecer o apoio, e apercebi-me de que entre essas pessoas estava a embaixadora portuguesa na Estónia, que lá tinha ido em representação oficial. Para isso, teve direito a carro com motorista, comitiva... tudo isso pago pelo Estado. E eu, que fui lá de facto para combater, não tive direito a nada.
Mesmo assim, tem contornado as dificuldades para lutar com os melhores do mundo. Chegou a pensar em sair do país para ir para o Japão, por exemplo?
A liga profissional japonesa é muito elitista e é preciso um empurrão para lá entrar - ou seja, um patrocinador. Com a minha idade é difícil lá chegar porque eles também têm regras muito rígidas. Só aceitam atletas acima dos 25 anos se de facto tiverem um apoio forte.
Há muita gente que ainda olha para o sumo como um desporto pouco saudável, que incita ao excesso de peso. Faz sentido pensar assim? Como é a sua alimentação?
Quando comecei a treinar para ser peso--pesado, o aumento da massa muscular causou logo um aumento de peso. Actualmente tenho uma alimentação perfeitamente normal. As pessoas podem não entender isto, mas o meu corpo neste momento já tem todas as reservas de que necessito. Se comer exactamente o mesmo que você, isso vai chegar para os meus gastos diários. Não vou perder peso por esse motivo. Se calhar até tenho uma alimentação mais correcta do que a maioria das pessoas. Tenho cuidado com o colesterol e essas coisas todas. Faço exames regularmente e não costumo ter problemas de saúde.
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