EDITORIAL

O pecado de Sócrates

por Martim Avillez Figueiredo, Publicado em 18 de Junho de 2009   
O pior não é a derrota nas eleições europeias. O dramático é Sócrates estar a mudar aquilo que defendeu durante quatro anos para tentar ganhar em três meses
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Esperava-se ver sair desta entrevista um primeiro-ministro mais prudente nas suas afirmações e mais moderado nas suas certezas. Não foi isso que aconteceu. Sócrates anunciou uma remodelação do Governo sem a fazer, enumerou estatísticas que provam como o seu caminho estava correcto e lembrou como apanhou um país endividado que o forçou a medidas extraordinárias. Queria parecer modesto, mas revelou uma fragilidade que mostra que Sócrates é eficaz quando acredita em si próprio, no seu caminho, na sua energia, na sua teimosia. Se lhe diminuem essa possibilidade, perde-se no caminho. Sócrates não sabe falar suave.

O que permite discutir aqui um assunto que o primeiro-ministro, erradamente, está a permitir que a oposição lidere: o plano para a retoma da economia, que Sócrates defendia ser o do apressar os grandes investimentos em infra-estruturas - as grandes obras públicas. E aqui Sócrates não esteve bem na entrevista. Aliás, a referência a Keynes foi mesmo um absurdo. Vamos por partes.

Primeiro: ninguém duvida que gastar dinheiro público em momentos de crise é virtuoso. Mas Keynes não falava de momentos assim - ele limitava-se a defender que em busca de pleno emprego valeria a pena o Estado empregar de um lado e pagar do outro.

Segundo: Sócrates e o seu Governo acreditaram que o caminho passava por apressar as grandes obras - todas elas discutidas há décadas neste país por PS e PSD. Aeroporto, TGV, novas auto-estradas. Foi uma escolha - e defenderam-na, sublinhando como esses gastos apressariam o caminho da retoma, criando emprego, gerando dinheiro fresco, salvando empresas.

Terceiro: Ferreira Leite veio apontar os erros a essa estratégia, com faro e oportunidade política, defendendo que esse dinheiro deveria ser colocado ao serviço da pequena economia. Sucede que é Sócrates que está no poder, e foi com base nele que muitas empresas deste país planearam investimentos e projectaram receitas - supondo que essas prometidas grandes obras se fariam. Sócrates, perante a pressão de Ferreira Leite e a derrota eleitoral, recuou na sua estratégia. O accionista principal desta marca de informação é uma empresa de construção que concorre nessas grandes obras, mas isso em nada influencia esta opinião. Já escrevi muitas vezes que um país não pode introduzir este grau de volatilidade na economia: quando se decidem grandes investimentos, as empresas contratam recursos humanos, ajustam recursos técnicos e gastam muito dinheiro e tempo, deixando até de lado outros negócios. Essa capacidade de um país afirmar um rumo é central, por exemplo, nas decisões de investimento estrangeiro. Sócrates, com este seu recuo, não está a ser solidário sequer com essas empresas a quem pediu trabalho nestes últimos anos - deixou-as cair. E isso é o pior que um governo pode fazer a uma economia.

Quarto: Verdadeira coragem democrática era Sócrates seguir a estratégia de Ferreira Leite. Quando ela dissesse que, chegando o PSD ao poder, não haveria obras, ele diria que com ele elas se manteriam. É uma questão de palavra. E o eleitorado escolhia. Assim, todos reparam na cobardia política a três meses das eleições.

 

 



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