Sócrates: a táctica da humildade desapareceu em menos de 24 horas
Publicado em 18 de Junho de 2009
Quem vê no estilo do primeiro-ministro um problema, desista: afogado em determinação, ele é o mesmo e não se desvia do "rumo"
A humildade durou 24 horas: "Este é o nosso rumo, não terão outro", avisou "o" José Sócrates de sempre no debate da moção de censura ao governo. "Eu governo com base das minhas convicções", "eu quero fazer mais e melhor a lutar por aquilo em que eu acredito". O tom foi este e o único erro reconhecido - não no debate, mas só fora do hemiciclo - foi a falta de investimento na cultura.
CDS e PSD começaram por tentar ridicularizar a "humildade", mas a táctica ultra-sónica já tinha ido desta para melhor. Ou, pelo menos, não apareceu ontem no debate da moção de censura que o CDS levou à discussão no parlamento. Como de resto tinha notado Paulo Portas, a "humildade não cola" com o chefe do governo. "Bem me parecia que o português suave e humilde não duraria mais de quatro minutos", registou Portas.
O único foco de "humildade" foi o assumir, pela primeira vez de forma clara, a nova estratégia para o TGV. O TGV parou "por escrúpulo democrático" e a adjudicação fica adiada para depois das eleições. O ministro Mário Lino tinha falado apenas no adiamento da assinatura do contrato de concessão. Sócrates esclareceu: "O próximo governo estará completamente livre para fazer a adjudicação, as bases da concessão e assinar o contrato de concessão".
O CDS acusou o governo de ter perdido as eleições, porque foi derrotada "a arrogância de quem se sente autorizado a perseguir classes profissionais inteiras". Portas para Sócrates: "Um primeiro-ministro nas suas circunstâncias ou mudava de ministros ou de políticas. Não mudou de ministros a tempo, para os remover, agora tem um problema de credibilidade; para mudar de políticas tem um problema de autenticidade. Se quiser fazer um flic-flac quem acreditará que é autêntico e verdadeiro?". É este o labirinto de Sócrates até Outubro.
No PSD, sentiu-se a falta de Paulo Rangel, ausente em Bruxelas. José Pedro Aguiar-Branco apanhou o TGV, mas Sócrates já tinha a resposta preparada.
A esquerda distanciou-se do CDS, mas atacou o governo. Francisco Louçã acusou Sócrates de autorizar, na lei do trabalho domiciliário, "a roubalheira de ter miúdos de 14 ou 15 anos a coser sapatos em São João da Madeira". A "lei que é uma vergonha". O ministro Santos Silva proclamou que não eram 14 anos, mas 15. A lei do trabalho domiciliário permite "trabalhos leves" a crianças que tenham terminado "o ensino obrigatório".
Jerónimo de Sousa avisou que "nenhuma maioria absoluta se pode sentir segura quando desestabiliza a vida às pessoas": "O PS que se cuide. A questão de manter o rumo é profundamente preocupante. Que rumo? O que leva a mais desigualdades? Um punhado fez fortunas fabulosas durante o seu mandato!".
Metade do debate foi sobre a legitimidade da moção de censura em vésperas de eleições. No final, a moção foi rejeitada. O PSD votou ao lado do CDS, mas Bloco e PCP abstiveram-se, por terem razões de censura ao governo de ordem oposta.
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