Mon ami Sarkozy. Portugal não vai já ao FMI, mas a pressão mantém-se

Publicado em 29 de Novembro de 2010   
"Medidas concretas", pede agora a Europa a Portugal. Sarkozy travou a pressão sobre o resgate de Lisboa, mas cada dia é um dia
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Mário Soares tinha o "mon ami Mitterrand", Sócrates tem o son ami Sarkozy, que nesta altura já deverá substituído até Jose Luis Zapatero no papel do seu "melhor amigo na Europa". Foi a Sarkozy que Sócrates recorreu para convencer Angela Merkel de que Portugal não precisa de pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional. Segundo fontes governamentais, Sarkozy estará neste momento convencido - e tenta convencer Angela Merkel - de que Portugal se aguenta sem ter que recorrer ao FMI.

Vários contactos entre o presidente francês e o primeiro-ministro português - de resto, noticiados pelo próprio Eliseu - terão contribuído para que a reunião de ontem dos ministros das Finanças da União Europeia tenha passado sem que a iminência da "débacle" portuguesa tenha sido notícia.

Mesmo assim, Bruxelas continua a pressionar Portugal. No final da reunião do Ecofin, o comissário europeu responsável pelos Assuntos Económicos, Olli Rehn, saudou a aprovação do Orçamento do Estado para 2011 "que está totalmente em linha com a estratégia orçamental acordada", mas não baixou a pressão sobre a economia portuguesa. "Estamos prontos para ajudar Portugal, em cooperação com as autoridades do país", afirmou Rehn, elogiando a preparação de "uma agenda de crescimento que inclui reformas importantes no mercado de trabalho". "Nós concordámos com isso e encorajámos Portugal a intensificar essas reformas, e estamos prontos para ajudar Portugal, em cooperação com as autoridade do país", disse o comissário europeu, insistindo que, depois da aprovação do Orçamento, é essencial avançar com "medidas concretas".

Também o ministro belga das Finanças, Didier Reynders, país que preside à União Europeia, afirmou que os ministros das finanças felicitaram "a intenção de Lisboa de anunciar reformas estruturais na saúde e nos transportes, assim como uma refundação do quadro orçamental". Citado pela edição online do "Le Monde", Reynders defendeu um aumento da capacidade de crescimento e da produtividade em Portugal, "um trabalho que terá que ser feito com a Comissão Europeia".

Apesar de fontes diplomáticas citadas pela Lusa negarem a existência de pressões sobre Portugal relativamente à orientação a dar à política orçamental, ou um eventual pedido de resgate, a verdade é que o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, abandonou a reunião sem pronunciar uma palavra à imprensa. Recorde-se que o ministro das Finanças tinha definido como tecto máximo a seguir ao qual pediria o recurso ao FMI uma taxa de juros de 7%. E já por várias vezes esse limite foi ultrapassado.

Tudo por tudo contra o recurso ao FMI José Sócrates está a tentar o tudo por tudo para evitar recorrer ao Fundo Europeu de Emergência e para recuperar a confiança dos mercados. O principal instrumento é a flexibilização da legislação laboral, já anunciada na sexta-feira, uma ideia que tem anticorpos dentro do próprio PS. Esta semana, Sócrates vai reunir-se com responsáveis das 10 maiores empresas exportadoras (onde se incluem a Petrogal e a Soporcel) e com os parceiros sociais para propor as mudanças no código de trabalho.

Na quinta-feira, o conselho de ministros aprovará a lei de enquadramento orçamental, que também terá como função "acalmar os mercados", com "mais garantias de vigilância e de controlo por forma a assegurar que estes objectivos serão cumpridos e garantidos para reforçar a confiança", segundo disse Sócrates na sexta-feira, afirmando que Portugal continua a ter condições para se financiar nos mercados internacionais.

O meio-caminho Sarkozy-Merkel A chanceler alemã, Angela Merkel, queria que, automaticamente, os investidores privados fossem obrigados a co-responsabilizar-se pelas dívidas dos países em falência, para poupar os contribuintes obrigados a "resgatar" países como a Grécia e, desde ontem, a Irlanda. Sarkozy era contra. A solução encontrada ontem fica-se pelo meio caminho: os privados serão chamados a ajudar os países em crise só em alguns casos.

O acordo entre os ministros da zona euro, anunciado ontem, depois de intensas negociações telefónicas entre Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, tinha como objectivo acelerar os preparativos para a criação de um futuro fundo permanente europeu de auxílio a países em risco, em substituição do actualmente existente criado para socorrer a Grécia. Mas este novo fundo só estará em vigor a partir de meados de 2013.

Enquanto já o próprio Eliseu é obrigado a vir a público desmentir que a economia francesa esteja ameaçada pela crise do euro, a Bélgica já é referenciada como à beira de entrar no clube dos países em risco.

Hoje, a Bélgica enfrenta um importante teste nos mercados, onde vai hoje vender biliões de dívida pública. O nível de confiança dos investidores na economia belga estará nesta segunda-feira à prova - as preocupações sobre o défice elevado misturado com uma grande instabilidade política estão a começar a atingir o país que neste momento preside à União Europeia, embora desde Junho esteja a tentar formar um novo governo sem sucesso. O risco da Bélgica entrar no grupo dos países em risco, se rapidamente não conseguir encontrar uma solução política estável para reduzir o défice, já começa a ser apontada pelos "mercados". Na semana passada, as taxas de juro começaram a penalizar a Bélgica.

Também a Espanha tentou ontem afastar a nuvem negra de um iminente resgate - considerado incomportável e que daria cabo do euro, que não teria meios para socorrer.

Ontem, ao chegar à reunião do Ecofin, a vice-presidente espanhola, Elena Salgado, insistiu que a reunião era apenas sobre a Irlanda: "Hoje vamos falar da Irlanda, os problemas estão na Irlanda", disse Elena Salgado aos jornalistas, ainda que tenha reconhecido que "os efeitos" da crise possam ser "transladados para outros mercados".

Mas a Europa continua a ter meios para solucionar as crises. Pelo menos, nisso acredita o presidente da Comissão Europeia, citado pela France Presse: "Temos todos os instrumentos para o caso de haver outras crises" na Europa, disse Durão Barroso.


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