Há risco de esta crise financeira se tornar numa crise de saúde?
A crise traz sempre novos problemas: na saúde mental, com um aumento da procura de ansiolíticos, e também nos cuidados alimentares, com uma certa população que começa a comer mal. Há um impacto imediato na psique colectiva, mais ansiedade e mudanças comportamentais. É uma relação que já foi demonstrada e que deve ser monitorizada com atenção por parte das autoridades.
E reduzirá o acesso aos cuidados?
Nos fóruns de discussão europeus há noção desse perigo. Não é de agora, nós é que acordámos tarde para a gravidade do nosso défice, mas há mais de 15 anos que os responsáveis pela saúde sabem que é preocupante e não foi estancado. Ao haver cortes urgentes num curto espaço de tempo e sem planeamento - o que provavelmente vai acontecer -, o primeiro efeito é um corte no acesso. Por isso é que em Inglaterra e na Alemanha há uns anos se começou a falar num chamado pacote mínimo de serviços de saúde públicos - o Estado percebeu que não é sustentável garantir tudo a toda a gente, todo o tempo, e recontextualizou o que é realmente importante garantir, a que segmentos da população e quando. Nos países escandinavos um cidadão com mais de 65 anos não tem acesso, por financiamento público, a um bypass. Não é enganado, já sabia antes, mas é um pouco chocante para nós. O Estado considerou que devia concentrar-se noutros serviços.
Está a falar de um sistema diferente do português. Em Portugal, o que é que na sua opinião poderá ser feito?
O ano de 2011 vai ser o início da mudança radical na realidade do sector da saúde. O corte orçamental superior a 6% sem planeamento, claramente imposto pelas finanças e não por um pensamento estratégico, vai resultar em processos extremamente complexos, conflituosos e que poderão parecer perfeitamente irracionais a nível local. Podem ter alguma racionalidade macro, mas depois as implicações pelo país fora serão difíceis de entender. Não tendo havido um debate alargado entre as várias forças políticas, não havendo um plano para os próximos anos com o que deve ser atingido, em que áreas, sacrificando o quê, concentrando onde, vai ser um processo perfeitamente improvisado num contexto de fragilidade política. Não será a melhor forma de entrarmos na grande mudança do serviço de saúde português. Mas acredito que daqui a quatro anos o sistema será completamente diferente, estará irreconhecível. O sector privado assumirá um papel de liderança a vários níveis, até tecnológico, e o público estará numa situação ainda mais frágil do que hoje, as políticas de financiamento serão diferentes e um certo conceito de Serviço Nacional de Saúde (SNS) será necessariamente repensado.
Acredita num SNS concentrado em serviços prioritários?
É um debate político que tem que ser iniciado em Portugal. O caderno mínimo de serviços não tem de ser tão mínimo quanto isso, mas clarifica o que as pessoas têm direito de forma gratuita.
E é um caminho inevitável?
É, porque os últimos 15 anos foram pouco claros na direcção política, cometeram-se erros e fizeram-se investimentos desnecessários. Por exemplo, Lisboa tem excesso de camas hospitalares e um défice dramático de cuidados pós-hospitalares. Os cuidados continuados são uma das mais importantes reformas, mas ainda muito frágil e pouco valorizada. As pessoas continuam a querer um hospital em cada esquina. Essa é uma das grandes mudanças a fazer. A ideia de que há hospitais a mais não pode ser aplicada a todo o país, mas em Lisboa claramente há camas a mais. As soluções passarão pela reconversão para cuidados de que as pessoas precisam.
Diz que daqui a quatro anos o sistema estará irreconhecível. Como?
Que vai ser diferente, poucos têm dúvidas. A dúvida é como será. Esse é o debate que se deve ter, equilibrando posições entre os agentes políticos. O ideal seria que as camas de doentes agudos fossem repensadas, que o défice de camas pós- -hospitalares fosse resolvido. O que implica grandes cortes nos cuidados hospitalares, redução e encerramento de hospitais. Mas também que as mais-valias sejam reinvestidas na comunidade local. Terá de ser resolvido esse enviesamento do nosso sistema, que o tornou num dos menos eficientes da Europa. Teremos unidades mais pequenas, viradas para a comunidade, e muito provavelmente geridas por entidades não-públicas. Não necessariamente privadas, mas com personalidade jurídica diferente.
Porquê não-públicas?
A administração pública pode ser eficiente, mas não esta, pejada de um mapa legislativo tão complexo que dificulta os processos de decisão. É conhecido o formulário para a autorização de compra de cadeiras para um centro de saúde com 11 assinaturas e vários meses de espera. Essa administração pública não é viável para gerir unidades flexíveis e próximas do cidadão. As unidades de cuidados continuados nem sequer podem contratar as pessoas. A administração pública está a impedir uma boa gestão pública. Numa administração pública burocrática e lenta, a gestão nunca pode ser flexível e torna-se fechada às necessidades da população local, que não é igual em todo o país.
Que tipo de liderança é necessária?
É fundamental despartidarizar. Quando temos algo lento e complexo, liderado por pessoas nomeadas pelo governo, temos um problema complicado. Há eleições, há nomeações, há constrangimentos a que um gestor não pode estar submetido, mas tem estado. O ideal seria haver uma espécie de entidade executiva de um plano quinquenal de mudança efectiva, acordado pelas forças políticas, com metas de saúde, e que não tivesse a intervenção do plano político durante a sua execução.




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