Crise em Itália. O princípio do fim do governo de Berlusconi
por Gonçalo Venâncio, Publicado em 15 de Novembro de 2010
Tensão política agrava-se. Fini tira tapete a Berlusconi forçando demissão de membros do governo
Na semana passada, a "Casa dos Gladiadores" em Pompeia veio abaixo. A derrocada de um dos maiores tesouros da Roma Antiga deixou o governo de centro-direita debaixo de fogo pelo constante desinvestimento na cultura. Este episódio é elucidativo de um certo declínio do país. Mas é sobretudo um prenúncio do que poderá acontecer no palco político: tal como aconteceu com a "Casa dos Gladiadores", é possível que o governo de Silvio Berlusconi em breve fique reduzido a pó.
Hoje, quando regressar ao trabalho depois da Cimeira do G20 na Coreia do Sul, Berlusconi deverá encontrar na sua secretária quatro cartas de demissão. Todas elas de decisores políticos de topo afectos ao novíssimo partido de Gianfranco Fini, Futuro e Liberdade. Em tempos não muito longínquos aliado fiel de "Il Cavaliere", Fini abandonou o Povo da Liberdade (PdL) em Julho em guerra aberta com Berlusconi. Agora, promete pregar mais um prego no caixão do governo do magnata milanês, provocando a demissão de um ministro, um ministro adjunto e dois secretários de Estado da sua formação partidária. "Berlusconi ainda pode sobreviver por mais um mês, mas os equilíbrios de poder já não estão a seu favor", explicou à Reuters Maurizio Pessato, da empresa de sondagens SWG.
As movimentações de Fini surgem depois de Berlusconi ter arriscado uma manobra de "ou vai ou racha", anunciando a votação de uma moção de confiança em Dezembro. Berlusconi pretendia clarificar o cenário político e, nos seus cálculos, jogou com o timing pensando que Fini e o seu grupo parlamentar deixariam passar o voto de legitimação do executivo por não estarem ainda preparados para ir a eleições com um partido recém-criado.
Fini, por seu lado, há muito que vem deixando entender que quer tirar o tapete a Berlusconi e a um governo em "degeneração moral". "Berlusconi tem de chegar ao presidente e apresentar a sua demissão", afirmou a semana passada, num comício em Perugia.
A crise política está em marcha numa altura em que a Itália, sentada num monte de dívida, se vê muito pressionada pelos mercados e ainda precisa de aprovar um orçamento do Estado que prevê cortes de 13 mil milhões de euros na despesa.
Berlusconi continua a gozar de uma ténue maioria no Senado por via da sua aliança com a Liga do Norte de Umberto Bossi, mas já não pode contar com o mesmo tipo de conforto no parlamento, câmara presidida por Fini.
As graças de Fini Antigo líder do Movimento Social Italiano, de raízes fascistas, Fini tem-se sucessivamente reposicionado no espectro político, migrando para o centro. Há 16 anos na sombra de Berlusconi, Fini deu um contributo importante para a vitória do PdL nas eleições legislativas de 2008. A relação dos dois homens, contudo, assentou mais no pragmatismo político do que na admiração pessoal. Até ao ponto de não retorno, já este ano. Sem saber que estava a ser gravado, Fini disse que Berlusconi "não sabia distinguir liderança de monarquia absoluta." Depois disso, os jornais do grupo de Berlusconi abriram uma caça ao homem que só acabaria com a expulsão de Fini do PdL.
Apenas com 8% das intenções de voto, Fini não vê com bons olhos uma ida às urnas, assinalando a possibilidade de ser formado um novo governo de centro-direita sem Berlusconi. Um hipótese rejeitada liminarmente por "Il Cavaliere", convicto do apoio do eleitorado: "Não leiam os jornais. Ainda há eleitores e 60% deles estão comigo" atestou Berlusconi no comício no passado domingo. As sondagens não dizem exactamente o mesmo. Escândalos de corrupção e sexo têm marcado a sua administração e os inquéritos de opinião mostram que os italianos estão cansados de ter um governo que trabalha mais para a sobrevivência do seu líder do que para o país.
Desacreditado Os índices de popularidade de Berlusconi caíram para os 34% e até nichos eleitorais que constituem parte da sua base de apoio - como a grande indústria ou os grupos católicos - se desligaram do presidente do Conselho de Ministros. Dionigi Tettamanzi, arcebispo de Milão, desferiu recentemente um poderoso ataque à classe política dominante: "A Itália de hoje está doente, tão doente como Milão na altura da peste... a imoralidade cresce a todos os níveis."
Caso a moção de confiança não passe no parlamento, Berlusconi será forçado a demitir-se. A partir daí o presidente Giorgio Napolitano pode começar a ouvir os partidos na tentativa de formar um governo interino, com ou sem Berlusconi, até à realização de novas eleições no início de 2011. Escrutínio a que, de certeza, Berlusconi dirá: "presente".
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