Depois de ter sido acusado de copiar citações da internet no romance "La Carte et le Territoire", o escritor recebeu ontem o mais importante prémio da literatura francesa
Em Setembro deste ano, o site slate.fr noticiava que pelo menos três passagens do recém-lançado livro de Michel Houellebecq tinham sido copiadas da Wikipedia, a enciclopédia gratuita online. Segundo o site, em "La Carte et le Territoire" - que traduzindo seria qualquer coisa como "O Mapa e o Território", embora ainda não haja edição portuguesa - o escritor francês plagiara as descrições da mosca-doméstica, do activista Frédéric Nihous e da cidade de Beauvais.
Houellebecq, conhecido pelas suas afirmações polémicas - numa entrevista disse que o islão era "a religião mais estúpida" e as suas obras são muitas vezes consideradas racistas, sexistas e pornográficas - respondeu com um vídeo. "Já muita gente misturou documentos reais com ficção. Eu fui sobretudo influenciado por [Jorge Luis] Borges e [George] Perec", explicou de cigarro na boca.
Com plágio ou não, o quinto romance de Michel Houellebecq valeu ontem ao escritor o Goncourt, o mais importante prémio da literatura francesa. Depois de dez anos de espera, Houellebecq convenceu o júri com "La Carte et le Territoire" e conseguiu sete votos em nove possíveis - os outros dois foram para a obra "Apocalypse Bebé" de Virginie Despentes.
"É uma sensação bizarra mas estou muito feliz", disse à avalanche de jornalistas que o rodearam no restaurante Chez Drouant em Paris, onde o nome dos vencedores do prémio é anunciado todos os anos. "Há pessoas que só sabem o que se passa na literatura contemporânea graças ao Goncourt e como a literatura não é a preocupação central dos franceses é interessante."
No livro, o próprio Michel Houellebecq é a personagem principal, um escritor bêbado, mal-vestido e fedorento, a quem o filho de um arquitecto famoso pede para escrever o prefácio do catálogo da sua exposição. Na realidade, Houellebecq já escreveu a introdução do catálogo da exposição do artista Jeff Koons em Versailles. Em "La Carte et le Territoire" o alegado problema do escritor com o álcool também é abordado: "São os jornalistas que me dão a reputação de bêbado: o que é curioso é que nenhum deles percebeu que se bebo na sua presença é só para os suportar", escreveu.
Filho de uma médica e de um guia de montanhismo, Michel Houellebecq nasceu na ilha Reunião há 52 ou 54 anos (a certidão de nascimento e a biografia oficial variam na data), mas foi viver com a avó para a Argélia quando tinha 6 anos. Frequentou o liceu em França, onde mais tarde se viria a casar e a tirar o curso de engenharia. Trabalhou como informático e teve cargos no Ministério da Agricultura e na Assembleia Nacional.
Só em 1994 publicou o seu primeiro romance, "Extensão do Domínio da Luta", livro sobre a miséria afectiva que fascinou a crítica e os leitores. A sua segunda obra, "Partículas Elementares", de 1998, foi a mais polémica (muitos consideraram as descrições dignas de um filme pornográfico), mas era uma das favoritas ao Goncourt. Actualmente, o escritor mora em Cabo de Gata, Espanha.
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