Literatura

Michel Houellebecq. Do plágio da Wikipedia ao Goncourt

por Clara Silva, Publicado em 09 de Novembro de 2010   
Depois de ter sido acusado de copiar citações da internet no romance "La Carte et le Territoire", o escritor recebeu ontem o mais importante prémio da literatura francesa
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Em Setembro deste ano, o site slate.fr noticiava que pelo menos três passagens do recém-lançado livro de Michel Houellebecq tinham sido copiadas da Wikipedia, a enciclopédia gratuita online. Segundo o site, em "La Carte et le Territoire" - que traduzindo seria qualquer coisa como "O Mapa e o Território", embora ainda não haja edição portuguesa - o escritor francês plagiara as descrições da mosca-doméstica, do activista Frédéric Nihous e da cidade de Beauvais.

Houellebecq, conhecido pelas suas afirmações polémicas - numa entrevista disse que o islão era "a religião mais estúpida" e as suas obras são muitas vezes consideradas racistas, sexistas e pornográficas - respondeu com um vídeo. "Já muita gente misturou documentos reais com ficção. Eu fui sobretudo influenciado por [Jorge Luis] Borges e [George] Perec", explicou de cigarro na boca.

Com plágio ou não, o quinto romance de Michel Houellebecq valeu ontem ao escritor o Goncourt, o mais importante prémio da literatura francesa. Depois de dez anos de espera, Houellebecq convenceu o júri com "La Carte et le Territoire" e conseguiu sete votos em nove possíveis - os outros dois foram para a obra "Apocalypse Bebé" de Virginie Despentes.

"É uma sensação bizarra mas estou muito feliz", disse à avalanche de jornalistas que o rodearam no restaurante Chez Drouant em Paris, onde o nome dos vencedores do prémio é anunciado todos os anos. "Há pessoas que só sabem o que se passa na literatura contemporânea graças ao Goncourt e como a literatura não é a preocupação central dos franceses é interessante."

No livro, o próprio Michel Houellebecq é a personagem principal, um escritor bêbado, mal-vestido e fedorento, a quem o filho de um arquitecto famoso pede para escrever o prefácio do catálogo da sua exposição. Na realidade, Houellebecq já escreveu a introdução do catálogo da exposição do artista Jeff Koons em Versailles. Em "La Carte et le Territoire" o alegado problema do escritor com o álcool também é abordado: "São os jornalistas que me dão a reputação de bêbado: o que é curioso é que nenhum deles percebeu que se bebo na sua presença é só para os suportar", escreveu.

Filho de uma médica e de um guia de montanhismo, Michel Houellebecq nasceu na ilha Reunião há 52 ou 54 anos (a certidão de nascimento e a biografia oficial variam na data), mas foi viver com a avó para a Argélia quando tinha 6 anos. Frequentou o liceu em França, onde mais tarde se viria a casar e a tirar o curso de engenharia. Trabalhou como informático e teve cargos no Ministério da Agricultura e na Assembleia Nacional.

Só em 1994 publicou o seu primeiro romance, "Extensão do Domínio da Luta", livro sobre a miséria afectiva que fascinou a crítica e os leitores. A sua segunda obra, "Partículas Elementares", de 1998, foi a mais polémica (muitos consideraram as descrições dignas de um filme pornográfico), mas era uma das favoritas ao Goncourt. Actualmente, o escritor mora em Cabo de Gata, Espanha.



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