A autodestruição da social-democracia
por João Rodrigues, Publicado em 15 de Junho de 2009
A lição da crise é que ela não ensina, não gera respostas políticas automáticas. Talvez a solução venha de uma esquerda socialista renovada
O PS não está só. As eleições para o Parlamento Europeu foram marcadas pela acentuada erosão eleitoral da social -democracia europeia. A crise poderia ser uma oportunidade para a reforma igualitária das instituições do capitalismo em que este movimento político se havia especializado há algumas décadas atrás, mas em vez disso é acompanhada pelo seu esgotamento político numa União dominada pelas direitas e pela apatia política.
Uma lição da crise é que a crise não ensina nenhuma lição, ou seja, a crise nunca gera respostas políticas automáticas, nem de esquerda, nem de direita. Tudo depende da luta das ideias e das políticas. No entanto, é preciso notar que estas lutas ocorrem num quadro que não é neutro. Na realidade, o liberalismo económico está inscrito nas regras e nas práticas económicas europeias. Este é o grande paradoxo europeu das últimas décadas: a social-democracia trabalhou para a destruição das condições institucionais - pleno emprego com direitos, sindicatos fortes, propriedade pública de sectores estratégicos ou controlo dos fluxos económicos - que tinham garantido a sua hegemonia e que favoreciam todos os imaginários socialistas.
Creio que esta opção se deve, em simultâneo, a um processo de colonização ideológica e a um erro de cálculo. O erro foi pensar que a moeda única e o mercado interno europeu, como que por uma mão invisível, criariam a vontade política para voos progressistas de criação de um Estado federal onde as políticas sociais- -democratas poderiam ser reinventadas. Não criam e não criarão. O processo de colonização ideológica, talvez favorecido pelo erro, está bem patente numa formulação neoliberal alemã a que o PS acabou por aderir: a economia social de mercado, ou seja, a ideia de que as políticas públicas, crescentemente conduzidas por organismos emancipados do controlo democrático e apenas temperadas por políticas sociais de remendo, devem estar orientadas para a promoção da concorrência mercantil ou para a sua imitação.
José Sócrates já afirmou que o actual rumo, de desastre socioeconómico, é para manter. Um produto da erosão ideológica da social-democracia acompanha assim as tendências europeias guiadas cada vez mais pela direita. É como se estivéssemos num plano inclinado. Um dos poucos sinais de esperança é que num dos países mais desiguais da Europa existem tradições socialistas em renovação e em crescimento dispostas a assumir todas as responsabilidades políticas na travagem e reversão deste processo. Temos de começar por algum lado.
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
Escreve à segunda-feira
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