Cidade
Cowork Lisboa. Um dia a partilhar a secretária com estranhos
por Clara Silva, Publicado em 06 de Novembro de 2010
Há quem estude gastronomia portuguesa e há quem escreva sobre experiências com moscas. Este texto foi enviado de um espaço que aluga mesas na LX Factory, onde o i esteve um dia a trabalhar
A manhã de trabalho não começou bem. Acordei tarde e, quando finalmente cheguei a Alcântara, consegui estacionar o carro tão longe da Lx Factory, que tenho a impressão de ter vindo a carregar um saco cheio de pedras desde a Torre de Belém. Na verdade, consegui encaixá-lo num buraco perto da antiga FIL e o que trazia na mão era apenas um pesado computador, meu companheiro na primeira experiência de coworking.
Enquanto subia até ao quarto andar - sítio onde, desde Fevereiro deste ano, 50 desconhecidos alugam e partilham secretárias para trabalhar - fui preparando uma desculpa para o atraso. Só depois me apercebi de que não tinha um chefe ali a quem dar satisfações. Estava por minha conta.
Na sala principal de cowork, onde o café é grátis durante todo o dia, vejo que, apesar de já passar do meio-dia, fui das primeiras a chegar. "Esta gente não é muito madrugadora", explicar-me-ia mais tarde Fernando Mendes, o responsável pelo espaço que tem sido um sucesso desde a abertura e que até já tem lista de espera para conseguir mesa. Percebo também que a maior parte das pessoas já tem o computador montado na sala.
O espaço onde me instalo, pensado para quem quer alugar secretárias por pouco tempo (dez euros por dia ou 39 euros por semana) é o mais recente e também o mais barulhento. Por duas vezes, tive de lançar um olhar mortífero pelo vidro para o empregado da cafetaria em frente, Quarto com Vista, que se entusiasmou com o volume da música. A primeira pessoa que conheço é Maria do Carmo Figueira, de 55 anos, uma tradutora literária que, segundo Fernando, "apesar de ter uma casa na Ericeira com vista para o mar, prefere trabalhar ali de vez em quando".
A vista do Cowork Lisboa não fica atrás. Da mesa de Raúl, de 60 anos, um urologista mexicano reformado, consegue-se ver o Tejo e os carros que passam na ponte 25 de Abril. De iPad e apontamentos na mão, Raúl conta-me o que vai fazer em Lisboa até Setembro do próximo ano: "Estudar gastronomia e vinhos portugueses. Quero abrir um restaurante em Guadalajara, onde há muita competitividade e tenho de ter comida que me distinga. Uma amiga já me ofereceu um livro com as 1000 formas de cozinhar bacalhau", ri-se. Raúl herdou o aluguer de secretária do genro (175,45 euros por mês - dos mais caros porque a mesa fica encostada à janela) que foi dar aulas de Política para os Estados Unidos.
Alguns metros à frente, Richard, de 38 anos, um biólogo inglês de pala no olho, aceita fazer uma pausa no trabalho e beber um café na cozinha do espaço. "Já bebi muitos hoje", diz sorridente, enquanto lava a sua caneca. Há três anos que vive em Lisboa e tem uma empresa de biotecnologia: "Fazemos pequenas experiências com moscas num laboratório para descobrir fármacos para o tratamento do cancro." Como nem sempre trabalha no laboratório, "porque a empresa ainda está no início", e como já estava farto de se sentar em frente ao computador de casa, escolheu o Cowork Lisboa. Com Francis, um luso-britânico que faz projectos de consultadoria de energias renováveis, passou-se o mesmo.
Só na primária tive colegas de carteira com gostos e ambições profissionais tão diferentes. Tânia, uma enfermeira de 32 anos que está a fazer a tese de mestrado, diz-me que é pena não ter vindo na primeira quarta-feira do mês: "Tomamos o pequeno-almoço juntos. Quem trouxer a iguaria mais original tem 50% de desconto na mensalidade."
No fim do dia de trabalho, ainda vou a tempo de cortar o cabelo por um euro. O cabeleireiro do brasileiro Caco Neves tem uma "happy hair" (a happy hour dos cabelos) na porta em frente ao cowork.
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