Conservação
Harry Potter. O último feitiço a atingir as corujas
por Marta F. Reis , Publicado em 05 de Novembro de 2010
Seria a última pergunta a fazer a um ornitólogo, ainda por cima activista. Mas Abrar Ahmed garante que a história é verídica. Em 2008 andava embrenhado numa investigação de fundo ao tráfico de corujas na Índia quando recebeu um telefonema da mulher de um amigo rico. O filho fazia dez anos e a senhora gostaria de ter uma bela coruja branca na festa. "Vão fazer algum ritual de magia negra?", saiu-lhe. Pergunta normal, a superstição ainda pesa nas celebrações indianas. A resposta mereceu tolerância zero: "Não, o tema da festa é o Harry Potter, e queremos ter uma Hedwig (a coruja que o amigo Hagrid oferece ao rapaz que se descobre feiticeiro aos 11 anos). Por favor, pede a alguém que nos capture uma. Pagamos o que for preciso." O problema é que o caso não é isolado. Nos últimos anos, a história para adolescentes assinada por J. K. Rowling serviu de catalisador à ameaça que paira há séculos sobre as corujas. A Índia diz estar pronta para agir.
Um relatório da TRAFFIC sobre o tráfico de corujas na Índia, resultado de 16 anos de investigação intensiva de Abrar Ahmed, chegou esta semana às caixas de correio, depois de ser apresentado com pompa e circunstância pelo ministro indiano do Ambiente, Jairam Ramesh. A rede internacional de monitorização do tráfico de animais selvagens, em parceria com o governo indiano, escolheu a melhor semana do ano para revelar o cenário crítico no Sudoeste Asiático. Hoje começa o importante festival das luzes Diwali, um ponto alto do calendário religioso hindu, e se tudo se desenrolar como nos últimos séculos (e a ideia é essa) centenas de corujas vão ser trocadas no mercado ilegal para cumprirem os desígnios da deusa da riqueza Lakshimi, que, segundo a tradição, monta nestas aves, que por isso se tornam amuletos obrigatórios nos lares indianos. Numa versão ainda menos pacífica, os sacerdotes da magia negra aproveitam o Diwali para tentar controlar os poderes sobrenaturais dos deuses, sacrificando as aves noite dentro em cemitérios e nas margens dos rios.
Tráfico descontrolado
A Ásia permanece o principal bastião do tráfico de animais selvagens. Através da TRAFFIC, todos os meses há notícias de grandes apreensões de marfim, elefantes vivos, tigres, leopardos, leões. Se a imagem de funcionários do aeroporto tailandês, como recebemos em Setembro, a posar atrás de malas com 90 quilos de marfim já chama a atenção, 80 páginas sobre o infortúnio das corujas é coisa para nos prender à leitura - mais não seja pelo fascínio humano (e meu) por este animais de olhos grandes e hábitos incorruptíveis. Nos últimos anos, Abrar Ahmed correu todos os circuitos de comércio ilegal de corujas na Índia, vivas ou já em partes - como ingredientes para receitas curativas ou para os rituais de mais de 17 tribos espalhadas pelo país. Por exemplo, os Mirshikar, uma comunidade muçulmana no Uttar Pradesh (norte), tornaram-se especialistas no transporte de espécimes vivos para os principais mercados. Já os Kalandars, tribo espalhada numa linha que vai do Norte a Bangalore, são mais artísticos. Conhecidos pelas performances de rua com ursos, aproveitam as grandes corujas apanhadas entre Dezembro e Fevereiro para dar outro colorido ao peditório.
A ironia, diz ao i Richard Thomas, porta-voz da TRAFFIC, é que, embora todas as autoridades reconheçam que a captura tem aumentado, pouco se sabe ou faz quanto à dimensão do tráfico - um crime, à luz da lei indiana, desde 1991, quando uma emenda ao Decreto de Protecção da Vida Selvagem (de 1972) proibiu comércio, captura, caça e transporte destes animais.
O trabalho do ornitólogo indiano demonstra que algo não está a funcionar. Ahmed começou a estudar o tráfico de aves na Índia em 1992, mas entre 2001 e 2008 centrou-se exclusivamente nas corujas, e nos meandros do circuito ilegal. Das 30 espécies conhecidas no país, encontrou exemplares de pelo menos 13 à venda nos mercados, com preços entre mil e 40 mil rupias indianas (15 a 635 euros). As que têm mais saída, identificou Ahmed, são o bufo-de- -bengala (Bubo bengalensis) e a coruja- -pescadora (Ketupa zeylonensis), embora a pequena coruja-malhada (Athene brama) seja a mais comum nos escaparates - por ser também a mais comum no país. Os grandes olhos laranja da Ketupa zeylonensis, 56 centímetros de altura, permitem entender a superstição. Muitos dos compradores são pescadores em busca de bênção divina.
Ovos como dados, carne afrodisíaca
O comércio pode passar a ser uma frente de combate - tão simples como dizer não aos miúdos (e graúdos) que querem ter uma coruja como mensageira - , mas a triste sina das corujas tem raízes demasiado fundas na cultura indiana. As penas são símbolo de poder e riqueza em tribos como os Nishi ou os Wansho, em Arunachal Pradesh (nordeste). Nas florestas de Maharasthra, na costa ocidental do país, os ovos são preciosos para os jogadores: durante a noite enterram-nos em potes selados para no dia seguinte procurarem, nas manchas da casca, um número de sorte. Mas há todo um rol de utilizações: a carne, dizem, é um poderoso afrodisíaco. O tufo das orelhas, misturado com leite e rícino (a semente de mamoneira), pode ser transformado num pó capaz de induzir o Vaskikaran (hipnotismo): basta borrifá-lo na cabeça do pretendente.
Não se sabe, porém, se ou como estes animais continuam a chegar ao Ocidente (antes da proibição há registo de 500 corujas exportadas para os EUA e o Reino Unido). Não seja por isso, que por cá há problemas suficientes. Os dados da GNR são conhecidos da TRAFFIC: em Portugal o maior problema são os animais em cativeiro ilegal. Só no primeiro semestre de 2010 foram apreendidas em Portugal 16 552 aves e 111 animais - os mais comuns papagaios, catatuas, araras, cobras e até primatas. Entre 1992 e 2008 (16 anos vs. seis meses em Portugal), Ahmed encontrou nos escaparates ilegais indianos 1022 corujas.
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