Ocidente aperta segurança enquanto Al-Qaeda planeia novo "atentado espectáculo"
por Sara Sanz Pinto, Publicado em 02 de Novembro de 2010
A criatividade da organização terrorista expôs novas vulnerabilidades da segurança aérea
Governos, companhias aéreas e aeroportos voltaram a apertar as medidas de segurança depois de duas bombas terem sido interceptadas no Dubai e Reino Unido. O primeiro alerta, dado pela Arábia Saudita e com base em testemunhos de Jabr al-Faifi (antigo membro da Al-Qaeda que se entregou às autoridades há duas semanas), apontava para duas embalagens de explosivos, em voos de carga distintos da Qatar Airways, mas ambos com embarque no Iémen e Chicago com destino final. As autoridades alemãs afirmaram que as bombas, escondidas de forma engenhosa em impressoras da Hewlett Packard, continham 300 e 400 gramas do explosivo PETN e os efeitos de detonação teriam sido significativos. Um dos pacotes passou pelo aeroporto alemão de Colónia, mas acabou por ser descoberto na paragem seguinte pelas autoridades britânicas. Outro apenas chegou ao Dubai.
O Reino Unido, bem como vários países, já proibiu o embarque no Iémen de mercadorias desacompanhadas com destino ao país, enquanto a FedEx e a United Parcel Service (UPS), empresas norte-americanas responsáveis pelo transporte dos cartuchos de impressora com explosivos, suspenderam a actividade no país muçulmano. No Iémen, o Comité Nacional para a Segurança da Aviação Civil garantiu ontem que "toda e qualquer mercadoria e bagagem seria alvo de uma intensa inspecção". Mas o país que é sede de um dos maiores núcleos da Al-Qaeda disse que iria necessitar de "muita ajuda" para garantir a segurança perante a "agenda global" da organização terrorista. Em declarações à CNN, o general norte-americano David Petraeus disse que no tempo em que foi chefe das forças dos EUA no Iraque apercebeu-se dos problemas que começavam a surgir no Iémen.
Em resposta, o primeiro-ministro do país no Golfo do Aden, Mohammed Qubaty, apelou à "colaboração global e regional" no que toca à partilha de informações, mas deixou claro que o Iémen não se quer tornar num outro Iraque e recusa a presença de tropas estrangeiras.
Em Londres, o primeiro-ministro David Cameron convocou ontem um comité de crise para decidir a reposta britânica face às ameaças. Oficiais britânicos de contra terrorismo alertaram para o facto da organização terrorista ter exposto - com o transporte de explosivos em cartuchos de impressoras - um conjunto de sérias vulnerabilidades na segurança aérea.
Para José Manuel Anes, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), "não há dúvida de que a Al-Qaeda está a tentar fazer um novo grande atentado e que continua a privilegiar o meio aéreo". Face ao problema, o especialista defende que única forma de combater a ameaça é apertar a segurança e sublinha que a organização terrorista, apesar de continuar a apostar em ataques terrestres, não vai por de parte a ideia de um "atentado espectáculo". Porém, Anes, que no domingo regressou do Canadá e teve oportunidade de passar pelos novos pórticos de inspecção corporal, garante que os "serviços de segurança estão a funcionar muito bem". "Se as medidas de segurança já eram boas, vão ficar melhor ainda. As pessoas não devem parar de viajar, porque esse é o objectivo da Al-Qaeda, espalhar o medo e paralisar o mundo ocidental."
Mais correio A polícia grega interceptou ontem vários pacotes armadilhados. Um deles tinha como destinatário o presidente francês Nicolas Sarkozy. Duas embalagens chegaram mesmo a explodir num posto de correios deixando ferida uma funcionária. A restante estava endereçada às embaixadas da Bélgica, Holanda e México e acabou por ser detonada pelas autoridades. "A polícia não acredita que exista qualquer relação com a Al-Qaeda. Mas estamos a investigar", afirmou o porta-voz Thanassis Kokalakis.
O plano, apesar de fracassado, serve de exemplo para o outro dos efeitos do terrorismo internacional. "Depois dos ataques às Torres Gémeas em 2001 o cerco montado à Al-Qaeda enfraqueceu-a. Agora está a recuperar com várias sucursais em todo o mundo", explica Anes. "Agora, desde 2005, assistimos a outro fenómeno preocupante que é o terrorismo sem líder, espontâneo, formado por grupos de jovens, muitos deles nascidos na Europa, mas com ascendência muçulmana, que se estão a radicalizar e que vêem na Al-Qaeda o exemplo a seguir."
Sara Sanz Pinto
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