Sempre que um pediatra ou um professor me trata por mãe olho para trás para ver se a mãe deles entrou na sala. É automático. Ainda não me habituei a este estatuto e questiono sempre: "É comigo?" E é sempre.
E porquê este tratamento especial? Tenho uma teoria (como boa portuguesa que sou): os professores e os pediatras de- senvolveram ao longo dos tempos um sentimento de condescendência (quase desprezo) pelos pais e construíram uma linguagem própria para não se denunciarem. Por exemplo, quando um professor diz: "Se a mãe me permite, eu não acho bem que o seu filho traga o Magalhães para a escola com a placa da internet", o que ele está a querer dizer é: "Ó minha tontinha, ainda não percebeu que ele passa os intervalos a ver sites para maiores de 40 anos e a senhora a pagar? Livra, na faculdade ninguém me avisou que eu tinha de levar com esta gente!" E quando um médico pergunta: "A mãe não sabe que não devia ter levado o seu filho ao McDonald?s depois de ele ter passado o dia e a noite a vomitar?", é uma questão retórica, o que ele quer dizer é:
Eu percebo que os médicos achem os pais uma ameaça à saúde das crianças por não saberem identificar uma simples tosse seca e compreendo que os professores pensem que educamos mal os nossos filhos de propósito, só para os chatear. De todas as pessoas que conheço, sou eu quem mais os respeita e considera. Mas será que podem deixar de me tratar por mãe? É que soa mal, dito ao pé dos meus filhos.
Jornalista




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