BPN. 15 milhões apreendidos em ''roulement de créditos''
Publicado em 29 de Outubro de 2010
DCIAP investiga empréstimos do BPN com garantias falsas. O dinheiro era desviado para sociedades offshores que adquiriam outros bens e contraíam novos créditos
Quinze milhões de euros. Foi o montante apreendido esta semana pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) da Polícia Judiciária, no âmbito da investigação a um dos 17 inquéritos do Banco Português de Negócios (BPN). Uma complexa rede de financiamentos feitos junto do BPN com recurso a garantias falsas ou sobreavaliadas, em que estão em causa crimes de burla qualificada, corrupção, branqueamento, falsificação de documentos e abuso de confiança.
Foram detidas preventivamente três pessoas: o empresário Carlos Marques e dois advogados, Diamantino Morais e Teresa Rodrigues, ambos com escritórios no Algarve. Além dos três detidos, foram constituídas arguidas outras seis pessoas.
Carlos Marques é dono de um stand de automóveis em Lisboa. Na verdade, a SportClasse é mais do que um stand. "Especialista Independente Porsche", a empresa dedica-se desde 1994 à venda, reparação, manutenção e restauro de todo o tipo de modelos desta marca.
A Operação Rollerball foi conduzida pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) e envolveu 160 polícias. Além da UNCC, contou com o apoio de elementos da Direcção de Serviços e Investigação da Fraude e Acções Especiais (DSIFAE), bem como da Direcção-geral de Informática e Apoio aos Serviços Tributários e Aduaneiros (DGITA).
Durante dois dias, as autoridades fizeram 55 buscas a escritórios, sociedades comerciais e residências por todo o país. Foram à Câmara Municipal de Sintra, onde falaram com o presidente Fernando Seara e notificaram Luís Duque, o vereador com o pelouro das Obras e do Trânsito, para prestar declarações. Fonte próxima do vereador disse ontem ao i que Luís Duque é amigo pessoal de Carlos Marques mas nunca avaliou, a seu pedido, qualquer terreno, e que a câmara de Sintra não está envolvida de forma alguma no caso BPN.
O DCIAP considera "fortemente indiciado que os suspeitos utilizaram sucessivos financiamentos bancários - com valor superior a 100 milhões de euros -, com recurso a sociedades por si representadas e/ou controladas, sustentados em garantias falsas ou imóveis sobreavaliados, conluiados com empresas de avaliação imobiliária e altos quadros de instituições bancárias, colocando-se, seguidamente, em situação de incumprimento, deixando executar as garantias de valor inferior ao montante financiado."
Segundo a polícia, o dinheiro não era utilizado para os fins dos empréstimos e os projectos em que assentavam as avaliações nunca foram concretizados. Os suspeitos manipulavam a contabilidade das empresas e ocultavam os verdadeiros fluxos financeiros, que encaminhavam para contas tituladas por sociedades offshore através das quais adquiriam outros imóveis, com os quais obtinham novos financiamentos, numa lógica de roullement de créditos, ou para aquisição de bens de luxo, como os automóveis e o iate apreendidos.
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