EDITORIAL

Orçamento e tratado em viagem a Bruxelas

por Manuel Queiroz , Publicado em 29 de Outubro de 2010   
Afinal o governo recuou e já quer fazer "mais um esforço". Esta Europa algo desmiolada ainda tem peso em Portugal
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E subitamente, ao sexto dia, o governo disse que afinal se estava muito mais perto do que parecia de se chegar a um acordo sobre o Orçamento de Estado para 2011.

Depois dos falcões Silva Pereira e José Sócrates, ontem apareceram os cordeiros com o mesmo nome. O que pode ter mudado? O primeiro-ministro ter ido a Bruxelas ontem mesmo? É uma boa hipótese. Os títulos de primeira página do

i e do "Público" de ontem, que mostravam como o acordo não fora conseguido por pequeníssimas décimas do PIB? Provavelmente também teve muito peso.

Duvidamos todos que este Orçamento resolva os problemas do país e também temos dúvidas que este Orçamento seja para mesmo executar. Mas nem nós nem José Sócrates ou Passos Coelho duvidamos que neste momento já não somos nós os donos do jogo. São os mercados, é Bruxelas, é o euro - e aí a coisa fia mais fino. Já não se podem empurrar culpas, nem se pode fazer de conta que as coisas não são assim tão más. São péssimas. Temos duas hipóteses: ou damos a entender que ainda somos nós que tomamos as decisões ou deixamos mesmo que outros as tomem. A diferença não é muita, mas ainda há um módico de dignidade patriótica que é necessário mostrar.

Não é muito, mas é o que nos resta.

Entretanto, uma sondagem da Universidade Católica dá 40% ao PSD e 26% ao PS. É o PS a beber o cálice até ao fim, como dizia Nogueira Leite.

MUDAR O TRATADO? O Conselho Europeu que ontem começou tem uma agenda de peso: Angela Merkel insiste que é preciso mudar o Tratado de Lisboa para acomodar as exigências de defesa do euro, que passam por tirar os direitos de voto aos países que deixam derrapar os défices e a dívida e por multas em dinheiro. Ora obrigar alguém com os bolsos vazios a pagar uma multa é algo do domínio do impossível. Vão meter um país na cadeia?

Percebe-se que a Alemanha queira "sanções automáticas" para defender o euro, embora haja um acordo com Sarkozy para serem os ministros das Finanças a aplicá-las, o que nunca é tão automático como se fosse a Comissão (que era o que estava previsto).

Mas rever um tratado é um sarilho tão grande como foi aprová-lo. E o documento entrou em vigor há menos de um ano (1 de Dezembro de 2009). Faz algum sentido? Mais: é possível em países como o Reino Unido fazê-lo?

O euro ainda não conseguiu ser um bom negócio para a maioria dos países, o que não quer dizer que as coisas tivessem corrido melhor com as velhas moedas (provavelmente não teriam). Certo é que a velha Europa está velha e não consegue acertar com o essencial - veja-se onde vai a famosa Agenda de Lisboa, que iria fazer deste bloco político a primeira potência tecnológica.

Os sinais são de que muitos dos fundamentos da União estão mesmo em crise.

Resta que esta Europa algo desmiolado ainda tem peso em Portugal.


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