PRIMEIRO PLANO
Seria possível pior sem os "alertas" do professor Cavaco?
por Ana Sá Lopes, Publicado em 28 de Outubro de 2010
Com um Orçamento chumbado, haverá outro candidato cujo discurso se volatilizará: Cavaco Silva, aquele cujos "alertas" e "apelos" não servem para nada
Tivessem as negociações entre governo e PSD acabado em "bem" e o tom do anúncio da recandidatura do professor Cavaco Silva não pareceria tão a despropósito, tão descolado da realidade, tão desatinado - nomeadamente para os seus interesses pessoais enquanto candidato a segundo mandato no Palácio de Belém.
O professor Cavaco admite - e como não? - que "Portugal se encontra numa situação difícil". Pior, evidentemente, que há cinco anos, quando comprometeu na campanha presidencial a sua reputação de economista para combater "a situação difícil" que já estava instalada em 2006. Mas o Presidente da República pede-nos que acreditemos que o caos em que vivemos sem ele teria sido pior. Mas porque diabo decide o professor Cavaco convencer-nos das magnificências do seu contributo para o estado crítico do país? Um mistério que ficará para os anais da estratégia política.
Para o professor Cavaco, "há uma interrogação que cada um, com honestidade, deve fazer: em que situação se encontraria o país sem a acção intensa e ponderada, muitas vezes discreta, que desenvolvi ao longo do meu mandato?". Segunda pergunta: "O que teria acontecido sem os alertas e apelos que lancei na devida altura, sem os compromissos que estimulei, sem os caminhos de futuro que apontei, sem a defesa dos interesses nacionais que tenho incansavelmente promovido junto de entidades estrangeiras?"
Ora o prof. Cavaco não tem dúvidas de que a sua "magistratura de influência produziu resultados positivos" e o único problema foi que "podia ter sido mais bem aproveitada pelos diferentes poderes do Estado" - leia-se governo, uma vez que não há outro "poder do Estado" que esteja em posição de "o aproveitar" com a devida proporção.
É evidente que o maior risco da campanha de Cavaco Silva seria a (injusta) co-responsabilização do Presidente da República pela crise económica. Os poderes presidenciais não permitem a nenhum Presidente da República qualquer espécie de influência sobre os rumos da economia e dos Orçamentos. As responsabilidades do professor Cavaco sobre a actual crise podemos ir descobri-las nos três governos em que foi primeiro-ministro - e não nos últimos anos, em que os seus poderes de "árbitro" e "magistrado de influência" não servem para muito mais do que lançar vagas e crípticas mensagens à nação.
De resto, o Presidente Cavaco Silva não lançou tantos "alertas" e "apelos" quanto isso: até muitas personalidades da direita acreditam que o Presidente, nos seus "alertas", podia ter ido mais longe: ainda que não tenha armas concretas (à excepção da dissolução da Assembleia da República), um Presidente tem a possibilidade de pressionar o governo com instrumentos como mensagens à Assembleia da República ou reuniões do Conselho de Estado para discutir a crise económica. Nem uma coisa nem outra aconteceram. No meio da ruptura à volta do Orçamento do Estado e de uma trágica crise económico-financeira, o professor Cavaco a tentar convencer-nos de que sem ele seria o caos não deixa de ser uma estranha forma de arrancar uma campanha.
Já sabíamos que Manuel Alegre tinha ficado sem discurso: a amálgama entre o apoio ao governo e a acomodação do Bloco - nomeadamente a propósito do Orçamento - redunda em zero. Mas com um Orçamento chumbado haverá outro candidato cujo discurso se volatilizará: Cavaco Silva, aquele cujos "alertas" e "apelos" não servem para nada numa situação de emergência nacional.
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