Tal como muita gente, Maria Imaginário - nome também ele imaginário, porque não gosta de se identificar nem de dar a cara - ficou inspirada depois de um desgosto amoroso. Em vez de escrever poemas pirosos ou canções lamechas a contar as desventuras de um coração partido, a artista lisboeta de 24 anos preferiu brincar com a situação. "Estava muito triste porque o meu ex-namorado tinha acabado comigo e ia na rua com um amigo que me dizia que tinha de acordar para a vida, até que parámos porque ele pisou merda", conta com uma gargalhada. "Ele olhou para mim e disse: ''Vês, isto podia ser o teu coração.'' E achei tanta piada à situação que assim que cheguei a casa decidi pintá-la."
À ilustração de um coração colado à sola de um sapato, onde se lê "Pisei merda. Ai não, afinal é o teu coração", seguiram-se perto de vinte. "Comecei a fazer isto há um ano sem sequer pensar que poderia dar uma exposição", afirma. "Pintei várias situações relacionadas com o amor, no início também coisas positivas, mas optei por expor aqui as mais irónicas."
"Coraçãozinho de Merda" foi o nome que deu à exposição que até segunda-feira, 1 de Novembro, satiriza os desgostos do amor em doze trabalhos na Montana Shop & Gallery, no Bairro Alto, em Lisboa. Num dos quadros, um coração chora baba e ranho, mas justifica-se: "A culpa é da cebola." Noutro serve de isco num oceano vazio e pensa: "Mas toda a gente me disse que havia muitos peixes no mar..." Há também um coração gigante - "feito de esferovite azul e gesso" - que inunda a pequena galeria com as suas lágrimas e outro que serve de saco de boxe. "Identifico-me com todos", diz Maria. "São tudo coisas que já vivi e acho que a maior parte das pessoas também. Há alguém que não tenha tido um desgosto amoroso?"
Quem quiser ter um destes na parede de casa terá de pagar entre 200 e 400 euros. No fim da exposição os quadros estarão à venda no site da galeria Yellow Pants, que também pertence a Maria Imaginário e ao seu amigo Pedro Matos. "É uma galeria virtual e queremos ter um espaço físico a curto prazo, mas para já não temos dinheiro", explica Maria. "É a única em Portugal vocacionada para a arte urbana e para a street art."
GELADOS DE GRAFFITI
Além das ilustrações, desde 2005 que Maria enfeita as ruas de Lisboa com graffiti de bolos e gelados coloridos e até já pintou no muro da Palestina. "Os meus amigos pintavam em comboios e eu na altura decidi fazer uma coisa mais colorida em prédios abandonados", conta. "Mas muitos dos meus desenhos em Lisboa já foram limpos na altura das eleições."




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