Corrupção

Justiça portuguesa perde credibilidade no panorama internacional

por Cláudia Garcia, Publicado em 26 de Outubro de 2010   
Portugal tem um dos piores índices de percepção de corrupção da Europa, ocupando a 19ª posição em 30 lugares possíveis
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Nos últimos dez anos, Portugal perdeu nove posições no ranking mundial de percepção de corrupção. Em 2010 ocupa a 32ª posição e, apesar de ter recuperado um lugar em relação a 2009, perdeu vários pontos comparativamente à 23ª posição que mantinha no início da década. A tentativa de promoção de combate à corrupção do ministro da Justiça e a criação do Conselho de Prevenção da Corrupção em 2008 não impediram que o país estivesse entre os piores da Europa, ocupando o 19º lugar em 30, apenas à frente de Itália, Grécia, Malta e países do antigo Bloco do Leste. No entanto, outros estados democráticos mais recentes que Portugal, como Eslovénia e Estónia, obtiveram melhores classificações.

"Todos os anos foram iniciadas reformas na justiça, que nunca foram pensadas de forma estrutural, nunca permitiram uma aproximação do cidadão à justiça e permanece inalterada a percepção de que a justiça portuguesa é mais branda com os poderosos", afirma o presidente da TIAC (Transparência e Integridade, Associação Cívica), Luís Sousa.

A TIAC é o "ponto de contacto nacional" com a Transparency International (TI), responsável pela realização do CPI (Índice de Percepção de Corrupção) de 2010. Especialistas de entidades internacionais independentes como o Fórum Económico Mundial e o Banco Mundial avaliaram a extensão da corrupção nos sectores públicos e políticos (frequência e número de casos) de forma a alcançar uma classificação de cada um dos 178 países.

A regressão de Portugal revela o défice de confiança internacional no sistema de justiça português. "Num panorama internacional, Portugal é um país com uma administração muito corrupta", esclarece Luís Sousa. Para o professor, as recentes denúncias de escândalos de corrupção que envolveram altas chefias políticas, económicas e membros do governo "têm um efeito negativo multiplicador na opinião pública". Luís Sousa reitera sobre o impacto negativo dos resultados nos investimentos externos: "É o tipo de referência de que os investidores andam sempre à procura. Deste ponto de vista, Portugal tem um panorama que tem regredido."

Sobre as formas eficazes de combate à corrupção que permitam ao país alterar a percepção internacional de corrupção elevada, Luís Sousa aposta em "instrumentos de monitorização e numa estratégia nacional a cinco anos de combate à corrupção". Maria José Morgado, coordenadora do DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal) de Lisboa, salvaguarda a necessidade de aproximar o modelo de prevenção da investigação criminal. "Sou a favor de um modelo que funcione lado a lado com a investigação criminal para garantir a proactividade." A magistrada assegura que nunca houve uma agenda de combate à corrupção e perante a inoperacionalidade dos modelos em vigor, o sistema penal não pode resolver todos os problemas da corrupção. "O sistema penal é o último rácio, tem de haver prevenção."

Perante uma moldura penal desajustada, Luís Sousa questiona algumas das recentes alterações do Código Penal, como a criação do crime de recebimento indevido de vantagem. "Há aqui uma apropriação que é completamente terceiro mundista." Para Maria José Morgado as respostas estão "todas" na resolução da Assembleia da República destinada ao "reforço do combate à corrupção". A magistrada considera que o documento publicado em Diário da República a 10 de Agosto é inédito por condensar todas as medidas necessárias. As principais propostas da AR assentam num reforço no número de peritos nas áreas financeiras, contabilísticas e informáticas, maior investimento a nível de investigação, tal como "a especialização de magistrados do Ministério Público".

O i tentou obter um comentário da PGR e do Ministério da Justiça mas não obteve resposta até ao fecho da edição.


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