Sismo
Haiti. Epidemia de cólera chega à capital e ameaça campos de refugiados
por Sara Pereira, Publicado em 25 de Outubro de 2010
A doença já provocou a morte a mais de duas centenas de pessoas nas regiões de Artibonite e do Planalto Central
A epidemia de cólera que atinge desde dia 16 o Norte e Centro do Haiti provocou já a morte de 253 pessoas e chegou à capital Port-au-Prince, onde cinco casos foram ontem confirmados pela Organização das Nações Unidas (ONU). Os pacientes viajaram da região de Artibonite, onde se confirmaram 3015 casos, para Port-au-Prince. Um porta-voz da ONU disse à Reuters que não se trata de um novo foco de infecção, já que a doença foi transportada a partir de uma zona afectada e que os cinco casos foram "prontamente identificados e isolados". Ainda assim, as autoridades sanitárias estão preocupadas com a possibilidade da doença atingir os acampamentos de refugiados.
Centenas de milhares de haitianos estão aí alojados desde o sismo de Janeiro, que deixou perto de um milhão sem casa. Estella Serrano, na ONG World Vision, acredita que "se a epidemia abrir caminho até Port-au-Prince, onde crianças e famílias vivem em acampamentos sobrelotados e sem saneamento básico, as consequências podem ser desastrosas".
Prevenção O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA) revelou no sábado que "apesar do aumento de casos confirmados, a epidemia está a evoluir mais lentamente que nos dias anteriores, o que pode indicar que as medidas de prevenção e tratamento estão a ter efeito". Áreas de quarentena estão a ser criadas em Port-au-Prince e as autoridades de saúde estão a apostar em prevenir a doença. A companhia de águas duplicou aquantidade de cloro na água da rede pública e os grupos de ajuda humanitária estão a distribuir sabão e pastilhas de desinfecção da água. O ministro haitiano da Saúde, Alex Larsen, apela a que as pessoas lavem as mãos com sabão, não comam vegetais crus e fervam toda a água que consumirem. A cólera causa diarreia, vómitos e caimbras e pode matar por desidratação em poucas horas. A Cruz Vermelha vai começar hoje a informar os refugiados em Port-au-Prince sobre a prevenção da doença e como lidar com os infectados. No Haiti, não se registavam casos de cólera há 50 anos e muitos haitianos são conhecem sequer a doença. A transmissão da cólera é feita através do consumo de água ou comida contaminadas pela bactéria Vibrio cholerae. Geralmente, a fonte de contaminação são fezes de pessoas infectadas com a bactéria, o que faz com que seja uma doença de rápida propagação em zonas com sistema deficitário de esgotos ou falta de água potável. Alguns pacientes dizem que adoeceram depois de beber água de um canal ligado ao rio Artibonite, que se acredita que esteja contaminado com a V. cholerae. As recentes chuvadas fizeram o rio galgar as margens e inundar a região, o que pode ter causado o aparecimento da doença.
Cenário de Guerra A epidemia é já considerada a maior crise de saúde desde o terramoto, no início do ano. Os hospitais das cidades da periferia de Port-au-Prince estão sobrelotados. No hospital de Saint Nicholas, na cidade de Saint-Marc em Artibonite, os pacientes são obrigados a esperar a soro no parque de estacionamento pela transferência para uma clínica perto da capital e alguns hospitais ponderam começar a atender doentes em tendas. Alex Larsen estimou em cerca de 574 mil euros o dinheiro necessário para as medidas iniciais de combate ao surto.
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