Matthew Weiner: "Será mesmo que já não somos assim?"
por Exclusivo i The New York Times, Publicado em 25 de Outubro de 2010
É a série do momento, coleccionando fãs e prémios. Dois dias antes da estreia em Portugal da quarta temporada de "Mad Men", o seu criador fala dos novos episódios e de um mundo que afinal não mudou assim tanto
Matthew Weiner, o criador e produtor do drama de época "Mad Men" (cuja quarta temporada chega a Portugal quarta-feira no Fox Next e a segunda temporada está a repetir na RTP2, pouco depois da meia-noite) esteve a semana passada em Nova Iorque para acompanhar o actor principal da série, Jon Hamm, que ia participar num episódio ao vivo de "30 Rock", na NBC. No entanto, quem precisava mais de ânimo era talvez Don Draper, o alter ego de Hamm em "Mad Men". Na quarta temporada da série, cujo último episódio passou no domingo à noite, salta de mulher em mulher e de garrafa em garrafa com a sua agência publicitária à beira da falência.
Um adeus firme à indústria do tabaco seria suficiente para salvar a sua empresa, ou pelo menos Don? Weiner não levanta o véu. No entanto, no seu hotel em Manhattan, falou-nos dos assuntos e das ideias que dão forma à quarta temporada de "Mad Men" e à relação entre os anos 60 e os nossos dias.
Pode dizer-se que um dos temas desta temporada foram novidades: a Sterling Cooper Draper Pryce ou o casamento de Betty [ex-mulher de Donald Draper] com Henry Francis, perigosamente perto da ruptura.
Não há dúvida que isso está presente. Eu sempre disse que a base desta série tem a ver com os acontecimentos terem consequências, mas ao mesmo tempo o drama resulta de levar esses acontecimentos para o nível seguinte. O casamento deles é um fracasso, por isso fazemos uma coisa que não é habitual em séries de televisão, que é acabar de facto com ele. Além disso mudámos o negócio. Queria mostrar que Don perdeu as coordenadas, já não está casado, está a ficar velho e não se aguenta sozinho. E quem é que aguenta?
Estes maus bocados têm a finalidade de nos mostrar que, apesar de todo o seu encanto, Draper é um tipo por quem não devemos deixar-nos seduzir? Será o Tony Soprano que há nele que está a mostrar-se?
Não acho que ele seja um mau tipo e não quero que as pessoas pensem que é. Não é nenhum Tony Soprano. Aqui a ideia não é contar uma história que mostre que o crime não compensa: a história é de como as coisas são difíceis. Ele tem grandes qualidades, no fundo é bom tipo, e comete erros. Moralmente, é uma pessoa dividida. A ética dele é situacional, a doença do século xx.
Foi propositadamente que a vida familiar de Betty Francis - na verdade de quase todas as personagens - teve menos peso na última temporada?
Não. O que acontece é que estamos a contar a história de um tipo que não tem família e por isso passa a vida a trabalhar. Às vezes, as pessoas avaliam as coisas dessa maneira: este ano há Betty de mais, este não há Betty que chegue. A minha maneira de ver é mais: que história é que estou a contar? Qual é a melhor maneira de a contar?
Acho que as pessoas temeram uma eventual saída de algumas personagens.
Todos os actores querem trabalhar. E querem trabalhar todas as semanas. Estão sempre preocupados por não estarem em cenas suficientes, enquanto Jon Hamm está preocupado por estar em cenas demais. Essa ideia de que a Betty não estaria na série divertiu-me.
Nesta temporada, quando a Betty apareceu foi quase sempre por coisas ligadas à filha, Sally, e das duas era a Sally que parecia a adulta.
A Betty passou um mau bocado. Não é que eu a odeie. Eu sei que é difícil. Acho que as pessoas se revêem nela, e não é agradável. Adoram o prazer de pensar: "Eu cá nunca seria assim." Com sorte talvez não, mas deixe-me dizer-lhe isto: como pai, procurando imaginar como será um divórcio, acho que se um tipo leva a filha para o fim-de-semana e quando ela volta a mãe vê que cortou o cabelo, é natural que fique furiosa...
É possível que não queira responder a isto, mas em relação à Joan Harris, a personagem da Christina Hendricks, especulou-se muito sobre se ela teria mesmo feito o aborto.
Para saber vai ter de ver. Uma semana depois podemos voltar a falar do assunto, mas antes vai ter de ver. A Christina é uma grande actriz, é tudo o que posso dizer-lhe. Tanto quando lemos que fez como quando lemos que não fez, pressentimos a força de alguém que toma uma decisão.
Esta temporada até vamos ver mais o Glen Bishop. Porque escolheu o seu filho Marten para interpretar esta personagem arrepiante, demente?
Eu sei que as pessoas dizem que ele é arrepiante, mas não percebo porquê. E também não acho que seja nenhum louco. Nos Estados Unidos temos a ilusão de que as crianças não são pessoas. Todos parecem esquecer-se das coisas que lhes passavam pela cabeça quando tinham seis ou sete anos, e o que já sabiam com essa idade. O meu filho tem olhos muito grandes e o cabelo dele é preto e muito forte, e talvez seja por isso que as pessoas o acham tão intenso. Mas ele é adorável, e adora o papel. A única coisa que me preocupa é que possa ler algumas coisas que as pessoas escrevem sobre ele na internet, mas não há-de acontecer. Tirando isso...
Na série já chegámos a 1965 e não há personagens pretas importantes, nem de nenhuma outra minoria étnica.
Os judeus contam como minoria étnica? Porque há muitos judeus na série.
Acho que não. Isso pode ser interpretado como uma espécie de posição da série em relação ao mundo que estas personagens preenchem?
É esse o mundo em que estas personagens se movimentam. É claro que tentei mostrar, à medida que o tempo vai passando, que as coisas também mudam. Ah, e a propósito, mudam socialmente. Na publicidade não mudam, ainda não mudaram. E nisto não arredo pé. Desafio qualquer pessoa a encontrar nas velhas fotos de empresa um negro numa posição de poder.
Houve um debate interessante sobre o filme "A Rede Social" [que estreia a 4 de Novembro em Portugal]. Algumas pessoas criticaram-no por ter muito poucas personagens femininas e as que tinha eram objectos sexuais.
Uma coisa fascinante para mim foi perceber que o mundo das mulheres nesse filme - e isto não é uma crítica - é muito parecido com o da série "Entourage" ["A Vedeta"]. Sobre "Mad Men", graças a Deus que já não somos assim... Mas não seremos mesmo? Uma das histórias de um episódio deste ano, ouvi-a da boca de uma directora criativa de Nova Iorque. Acho que começou aqui nos anos 80, só tinha homens no staff, fez uma apresentação com os dentes todos borrados de baton e ninguém disse uma palavra.
Em que altura vai começar a pensar na temporada cinco?
Nesta altura ainda não sei. Há muitas coisas ligadas ao investimento que têm de ser resolvidas, a um nível que me ultrapassa. Oficialmente ainda não assinámos o contrato, embora eu esteja a contar que isso vá acontecer. Para mim, as próximas semanas vão ser para me habituar a outro ritmo, porque estou acostumado a trabalhar horas a fio, todos os dias. Tenho de voltar a conquistar o meu espaço na família, com os meus filhos. Assim que assino um contrato começo a pensar nisso, e já sei o que me espera.
A cultura de 2010 dá-lhe prazer?
Este modelo de negócios na indústria do cinema tornou os filmes muito pouco atraentes. É uma chatice ver tanto talento e tanto dinheiro desperdiçados em filmes falsos, sem vida. Mas eu tenho quatro filhos pequenos, por isso vejo todo o tipo de entretenimento. Eles estão fartos de ir ao cinema e há coisas que vemos todos juntos. Vemos os Simpsons, "30 Rock", adoramos aquele cartoon, o "Avatar: The Last Airbender". Vemos o "Sym-Bionic Titan". E vemos muitos filmes antigos. Se calhar pareço um velho a falar, mas os tempos não são dos melhores para uma pessoa que trabalha 24 horas por dia e quer que a distraiam. E a culpa não é da comunidade que está por trás da produção artística. Aconteceu qualquer coisa que impede que se façam bons filmes por valores entre os 500 mil dólares e os 80 milhões. E isso é absurdo.
A quarta temporada de "Mad Men" estreia quarta-feira no Fox Next, às 22h10. A segunda temporada está a repetir na RTP2, de 2.ª a 6.ª, depois da meia-noite
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