A escola de Kasparov explica

Não somava 2+2, agora é campeão de xadrez

por Sílvia Caneco, Publicado em 22 de Outubro de 2010   
Há cinco anos, Hugo nem conseguia completar um jogo de tabuleiro. Hoje é aluno de 100% a Matemática e a Música
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O corpo de Hugo Ferreira está ali sentado mas a cabeça está no xadrez: no programa que vai instalar a casa de um amigo para poderem competir um com o outro. Baloiça-se na cadeira para trás e para a frente e esgaravata o rótulo de uma garrafa de plástico. Não descansa enquanto não lhe retira a última ponta de autocolante. Ao olhá-lo naquela guerra com uma garrafa, que só de olhar cansa, é difícil imaginar como aguenta competições de xadrez que já chegaram a durar quatro horas e 17 minutos.

Aos 11 anos, Hugo ainda pode ser uma criança irrequieta mas o pai, Carlos Ferreira, já não o reconhece. Aos seis, Hugo tinha dificuldade em somar dois mais dois e não conseguia completar um jogo de tabuleiro. Como uma pulga, o seu cérebro saltitava sempre de um lado para o outro. "Num instante estava a jogar, no outro já estava farto", conta o pai. Filho e neto único, "era super-mimado, conflituoso, hiperactivo e não aceitava ''nãos''". O psicólogo deu a receita: uma actividade física para descarregar a energia e uma actividade intelectual para prender a atenção, "como a música".

Em vez da música, apareceu o xadrez, porque o ATL oferecia a modalidade. Quando o treinador chegou munido de tabuleiros e relógios, os olhos de Hugo fixaram-se como um íman. "Nem sabia o que era o xadrez, só conhecia as cartas, o dominó e as damas, porque o meu avô é campeão", diz Hugo, enquanto enrola o papel desfeito do rótulo como se fizesse bolas com miolo de pão.

Depois da primeira aula, a directora do ATL mandou chamar os pais do Hugo. "Ai, que vem daí bronca", pensaram. "O que é que ele fez agora?" Mas dessa vez não havia queixas. Só um alerta: "Isto pode ser a salvação." Numa aula de 50 minutos, a criança que antes não conseguia chegar ao fim de um jogo decorou o nome de todas as peças, fixou os movimentos e já queria jogar.

O professor leva-o para o Santoantoniense, clube do Barreiro. Com menos de dois anos de treinos é campeão nacional de sub-8 em semi-rápidas. E quando começa a achar que "queria andar mais rápido mas o Catuto (o treinador de xadrez) não deixava" muda-se para o Ferroviários: um clube cheio de bons mestres, mas votado ao abandono desde que o bar da sede, outrora sempre cheio e maior fonte de receitas, se tornou um lugar moribundo debaixo da ponte. Quando nasceu o comboio na ponte, o Barreiro deixou de ser o centro para quem seguia para o Algarve e a sede do Ferroviários transformou-se num pavilhão-fantasma num sítio semidesértico.

Depois da vitória no campeonato nacional, faltava o campeonato europeu, em Mureck, na Áustria. O ordenado baixo do pai e o desemprego da mãe não davam para pagar inscrições, viagens e estada. Hugo inscreveu-se na rede The Star Tracker. Tiago Forjaz, um dos fundadores da rede global de talentos portugueses, ofereceu 57 milhas do seu cartão da TAP, dois membros ofereceram dinheiro. Chegado à Áustria, depois de andar de "bicicleta só com o pai", porque "a mãe não sabe mas foi lá dar sorte e arranjar a roupa para dois trapalhões", conquistou o 20.o lugar. 

A escola soviética Andrey Ferents é o treinador de Hugo e mestre internacional de xadrez. Licenciado em Psicologia na Ucrânia, chegou a Portugal há sete anos depois de um amigo lhe dizer que o xadrez lhe poderia dar emprego num país em que havia falta de mestres. Se tinha 29 anos e jogava xadrez há 24, "por que não?". Dá aulas de xadrez no Sporting e é treinador e jogador pelo Ferroviários, onde já formou cinco campeões distritais e dois campeões nacionais. No primeiro ano a ensinar no clube do Barreiro, juntamente com outro mestre ucraniano, levou a equipa a subir à primeira divisão; no ano passado, num campeonato em que "quase metade dos jogadores são estrangeiros pagos para esse efeito", transformou-os em vice- -campeões. A escola de Kasparov explica. "Não acho que seja melhor. Venho é de um país que é uma escola no xadrez. As técnicas de ensino são outras, à moda soviética", justifica o mestre, esmagando as bochechas com os pulsos.

Hugo já jogou com raparigas que "não são mais espertas nem menos espertas" e até já piscou o olho a uma do Porto. Com o pai "já perdeu a piada" porque ganha sempre. Na escola, passou a ser aluno de 100% a Matemática e a Música. "Está menos distraído e já aguenta esperar", afiança o pai. Já sabe esperar até na baliza do Barreirense, quando "antes era uma barata tonta" e "achava muito giro jogar à bola, mas numa lógica de ''a bola é minha''". Na escola, "como ninguém lá sabe o que é isso", diz que "ninguém acredita" que é bom no xadrez. Antes de esborrachar a garrafa, remata: "Devem achar que sou convencido."


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