Francisco Lopes. "País comunista não há nenhum. Nem nunca houve"
por Sónia Cerdeira, Publicado em 22 de Outubro de 2010
O candidato presidencial do PCP espera que o rumo que a China tem tomado não signifique caminhar para o capitalismo
As histórias dos tempos do fascismo são inseparáveis de uma conversa com um comunista. Francisco Lopes não foge à regra. Devia ter uns 17 ou 18 anos quando foi ao Congresso da Oposição Democrática em Aveiro e as camionetas cheias de comunistas tiveram de ir por caminhos de terra batida porque a PIDE estava alerta. Chegados a Aveiro, os congressistas, Lopes incluído, foram agredidos pela polícia quando se manifestavam na avenida principal da cidade. Lembra-se como se fosse hoje. Um hoje em que, além de comunista, dirigente e deputado do PCP, é também candidato a Presidente da República.
Na apresentação da sua candidatura falou sempre no plural, num "nós". Quem se candidata é o partido ou o Francisco Lopes?
É a minha candidatura mas também a nossa, do colectivo do PCP. Uma candidatura que traduz os sentimentos, as preocupações e os projectos dos trabalhadores, do povo português, preocupados com a situação actual do país e que acham necessária uma mudança. Esta nossa candidatura envolve esse sentimento de pertença. É minha mas também de cada um que a assume nos seus objectivos e atitude crítica em relação ao futuro. É a candidatura do PCP porque decidida pelo PCP, traduzindo um conjunto de valores que ajudam a distingui-la. Um compromisso com o povo português, de alguém que estará no poder não para servir os interesses próprios mas os interesses nacionais, e isso não é limitador.
O cargo de Presidente da República é unipessoal e não prevê uma intervenção partidária. Se ganhar, em tese, estaria na presidência um partido?
Quem se candidata sou eu, Francisco Lopes, para exercer as funções de Presidente da República, com o compromisso de defender e fazer cumprir a Constituição Portuguesa. Com o sentido de intervenção, de responder às necessidades de hoje e contribuir para a afirmação de um regime patriótico e de esquerda.
Entregaria o cartão de militante, como fez Mário Soares?
Essa questão não se põe. Não se entregam as convicções, não se entregam os valores, a coerência, o projecto de futuro essencial a Portugal. O cartão do meu partido representa as minhas convicções. Outros podem fazê-lo em operações de mágica, como se hoje fossem uma coisa e amanhã fossem outra.
Qual é o grande objectivo da sua candidatura?
Apresentar-se ao povo português como a alternativa para exercer as funções de Presidente da República, no quadro de um projecto patriótico e de esquerda, vinculado aos valores de Abril, que tenha como objectivo contribuir para o desenvolvimento da soberania e o progresso social. Vive-se uma das piores situações desde o regime fascista, marcada por grandes preocupações quanto ao futuro. Um país cujo aparelho produtivo tem sido liquidado, com mais de 700 mil desempregados, a maioria jovens. O agravamento das desigualdades tem contribuído para que o país esteja cada vez mais atrasado. Mas os grupos económicos têm acumulando lucros nos últimos seis anos, ditos da crise. Este Orçamento de austeridade é um pacote brutal de injustiça social e afundamento do país. É necessário que na Presidência da República haja alguém que diga que Portugal tem recursos, potencialidades e mobilize todas estas forças para o desenvolvimento. Isso implica uma economia mista, mais apoio às PME, melhores salários, um projecto de ruptura e mudança. Basta deste caminho.
Cavaco Silva é o seu principal inimigo?
A opção na minha candidatura implica contribuir para que o actual Presidente não seja reeleito. Cavaco Silva tem graves responsabilidades na situação a que o país chegou e olhando para o futuro vemos que não tem nenhum elemento que possa contribuir para resolver os problemas. Pelo contrário, será a continuidade e o agravamento dos problemas.
PCP e Bloco de Esquerda costumam estar de acordo na Assembleia da República. Porque não estão agora no apoio a um candidato para uma união de esquerda?
A apreciação das candidaturas tem de ser feita em função do que cada um representa. Não se pode, por palpite, classificar esta como de esquerda e aquela de direita. Tem de se ver o posicionamento do candidato relativamente aos problemas que agravaram as injustiças sociais e à necessidade de um novo rumo. A minha candidatura é inequívoca e a única que não tem nenhuma responsabilidade no afundamento do país. Ao contrário das outras, seja Cavaco Silva, seja Manuel Alegre, que está comprometido com este rumo do PS. Manuel Alegre, independentemente das palavras que adianta, está a apresentar-se como um seguro para a continuidade da actual política do governo PS. Alegre é o candidato do PS, apoiado pelo Bloco de Esquerda, mas não deixa de ser o candidato do partido que está no governo a fazer esta política desastrosa.
Admite desistir da candidatura a favor de uma candidatura de esquerda?
A minha candidatura dirige-se aos portugueses para suscitar não apenas o seu apoio mas o seu voto. Os portugueses decidirão na primeira volta quem passa à segunda. Cada voto na minha candidatura conta para impedir que Cavaco Silva seja reeleito à primeira.
Manuel Alegre dará um melhor Presidente que Cavaco Silva?
Pode haver estilos diferentes, palavras diferentes, mas em aspectos essenciais o percurso de um e de outro coincidem.
Uma candidatura presidencial do PCP é vista como uma alavanca para um próximo passo. Já se pensa na sucessão a Jerónimo de Sousa?
Essa questão não se põe de maneira nenhuma nem se vai pôr.
Mas isso aconteceu com Jerónimo de Sousa...
Na experiência do partido houve muitas situações. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Estaria disponível?
Estou disponível para travar com todas as minhas energias esta batalha de dar alternativa ao povo português no exercício das funções de Presidente da República.
Quando se soube do seu nome para candidato presidencial houve quem dissesse que era desconhecido do eleitorado e isso iria prejudicar o PCP nas urnas.
Tenho 38 anos de intervenção política dedicados ao partido e ao país. Não é apenas importante a intervenção mais visível aos olhos de todos. É importante ter uma intervenção coerente, que tenha o objectivo de resolver os problemas e fazer avançar o país. Progressivamente a minha intervenção tem tido maior visibilidade, fui eleito deputado, e a campanha que é unipessoal inevitavelmente leva a que haja um acrescento de notoriedade.
Considera-se um ortodoxo? Sabe que tem a conotação de ser da linha mais dura do partido...
(Risos) Essas conotações são recorrentes e correspondem a formas pouco profundas e tipificadas de analisar a vida partidária, principalmente do PCP. Não me reconheço como ortodoxo. Reconheço-me como comunista, que assume os valores e o projecto deste partido, esse patamar mais elevado do socialismo para o qual pretendemos que a civilização avance.
O PCP já anunciou o voto contra o Orçamento do Estado. Não acha que a situação se vai tornar ainda mais grave com o chumbo?
A situação do país torna-se mais grave se o Orçamento for aprovado. Portugal não precisa deste Orçamento.
Mas os mercados internacionais apontam noutro sentido, que a situação vai piorar...
O problema é exactamente esse. Ao longo de mais de três décadas os governos de Portugal, em vez de agirem em função dos interesses nacionais, têm agido em função dos mercados financeiros internacionais, e é por isso que estamos na situação em que estamos. Se o comando da política nacional tem sido outro, estávamos a produzir mais, tínhamos mais emprego, melhores salários, melhores serviços públicos, não estávamos dependentes.
Se o Orçamento for chumbado, o governo deve demitir-se?
Essa opção cabe ao governo. É preciso um novo rumo e uma nova política e este governo já mostrou que não responde a estas necessidades. Mas é preciso mais que uma simples mudança de governo, é preciso uma mudança de política.
Qual a melhor solução de governabilidade?
É fundamental que o Presidente da República influencie essa mudança política no cumprimento da Constituição da República. O actual Presidente tem intervindo no processo do Orçamento como o padrinho entre PS e PSD para um Orçamento que é de brutalidade e retrocesso económico e social. O Presidente deve favorecer um entendimento em pólos opostos a estes.
Se o Presidente optasse por um governo de coligação, o PCP deveria estar disponível para integrá-lo?
O PCP tem-se batido ao longo dos anos pela necessidade de uma política de esquerda e assume a disponibilidade para exercer todas as responsabilidades políticas mas sempre com uma condição: para uma política que vá ao encontro dos interesses nacionais. Não é nunca imaginável que o PCP se possa comprometer com uma política contrária aos interesses nacionais.
O PS estará sempre comprometido?
Repare-se na situação nacional, o que representa o PS e o PSD. O processo de mudança necessária passa também pela intervenção dos trabalhadores. É, por exemplo, muito importante a convocação da greve geral, uma manifestação de protesto.
Se Passos Coelho vier a apresentar uma moção de censura, em Maio, o PCP deverá apoiar?
O PSD está comprometido com o rumo de desastre do país. Tem engendrado um conjunto de cálculos políticos de maneira a ter possibilidade de aceder ao poder. PS e PSD fazem jogos políticos no âmbito da distribuição de lugares governamentais, lugares de responsabilidade política para que os eixos principais da política nacional não mudem. Há um conjunto de grupos económicos que uma vez apostam no PS outras no PSD, e é assim que temos andado, de alternância em alternância para o declínio do país. Precisamos de caminhar para uma política dos valores de Abril, e isso claramente não passa pelo PSD.
Em relação à revisão constitucional, acha possível chegar- -se a um consenso?
A experiência de situações anteriores mostra que entre PS e PSD muitas vezes há grandes discussões em relação à revisão constitucional, mas na fase final o PS mete no bolso as críticas e vota a favor das propostas do PSD. É assim que se tem descaracterizado a Constituição.
O PCP afirmou que o Nobel da Paz, entregue a Liu Xiaobo, é "inseparável das pressões económicas e políticas dos EUA à China". Também lamenta a atribuição do prémio Nobel?
A minha candidatura é a favor da paz, da cooperação e dos direitos humanos no mundo. É favorável à ideia da existência de um Prémio Nobel da Paz que tenha como objectivo a valorização dos esforços pela paz. Mas não deixo de questionar os critérios que têm presidido à sua atribuição. De vez em quando inserem-se no espírito da paz, mas na maior parte dos casos distanciam-se dele. Fala-se em coragem, mas se fosse uma questão de coragem talvez se pudesse dar aos cinco cidadãos cubanos presos em cadeias dos EUA. Isso é que era um acto de coragem em relação aos EUA e ao seu poder no mundo. Questiono que um dos países que se têm caracterizado pela ocupação e pela guerra seja um dos países cujos principais dirigentes tenham mais prémios Nobel. Há critérios que pouco têm a ver com a paz e muito têm a ver com a instrumentalização da paz a favor de jogos políticos.
Mas neste caso Liu Xiaobo luta pela democracia na China...
O problema é o critério que leva à atribuição. São mesmo essas as razões que são invocadas? Esta atribuição coincidiu com um momento de particular crispação entre a China e os EUA no âmbito do FMI com as questões cambiais...
Apesar de ser um país comunista, não considera que a China pratica um capitalismo selvagem?
País comunista não há nenhum no mundo. Nem nunca houve. Essa afirmação pode surpreender mas o que tem havido são experiências e processos de construção de socialismo. Tenho uma concepção muito clara do que é o ideal comunista. O projecto do socialismo é baseado na ideia que representa mais democracia, na sua dimensão económica, social e cultural. Esses exemplos internacionais são muitas vezes usados para pôr em causa e deturpar o projecto dos comunistas.
Para onde vai a China?
A China caminha num quadro de defesa dos seus direitos, dos seus interesses, no quadro da cooperação mundial e espero que não evolua no sentido do capitalismo mas sim da afirmação do que caracteriza o socialismo, na resposta às necessidades do povo.
Voltando um pouco atrás, ao caso de Cuba. As últimas intervenções de Raúl Castro abrem um pouco as portas ao capitalismo. O marxismo está a morrer em Cuba?
As campanhas relativamente às experiências de construção do socialismo são as mais diversas e em regra querem levar a uma conclusão: não há nada para além do capitalismo. A sociedade humana desenvolveu-se ao longo de milénios mas agora parou, a humanidade não avança mais, o capitalismo é o fim da história. Têm sempre em vista matar a ideologia, matar o projecto, matar a esperança de que é possível uma sociedade mais justa. É preciso olhar para todas as experiências, não para desistir mas para aprender.
Faz-lhe confusão que na Coreia do Norte haja uma monarquia informal?
Sou republicano e o meu partido também. O PCP tem o seu próprio projecto: afirmação republicana, de democracia económica e social. Mas há critérios diversos para apreciar realidades distintas. É uma realidade complexa a desse país, que tem de ser acompanhada, embora com uma preocupação. É que esse tipo de críticas não sirvam para justificar linhas de ocupação e de guerra. Há sempre uma componente avançada do ponto de vista de informação e desinformação da crítica que é a parte mais avançada de uma estratégia que vem a seguir. Os povos orientais têm culturas muito deferentes das nossas, na Índia, no Paquistão, por exemplo, e creio que são situações diferentes da da Coreia do Norte, onde esse aspecto dinástico não está tão vincado, ou não tem essa característica como aparece no Paquistão, em que a família Bhutto tem um poder que se vai sucedendo. Há características culturais dos povos cujo peso devemos avaliar em certas soluções ou caminhos políticos.
China, Cuba, Coreia do Norte... São países inteiramente livres?
Há a ideia de que o PCP defende essas formas de organização do poder político. Temos o nosso próprio projecto em relação ao poder político. Uma coisa diferente é, porque um dia na Casa Branca se decide que este ou aquele país é um inimigo a abater, tenhamos de acompanhar essas instruções - que não são ditas como instruções - mas são envolvidas em grandes campanhas comunicacionais. Há uma questão de liberdade de análise e independência, de respeito das opções dos povos e dos países e de contrariar um desígnio que existe dos EUA e da NATO que é a ideia de que todo o poder que lhes escape é para deitar abaixo. Criticam a Coreia do Norte, Cuba, a China, a Venezuela, muitas vezes o Brasil, isto é, todos os que não estejam na sua lógica de domínio planetário, de percurso deste capitalismo, com as características de exploração e guerra, são para eliminar.
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