Entrevista a Francisco Louçã
"Jamais faremos coligações com o PS"
Publicado em 12 de Junho de 2009
"Defendemos a nacionalização dos sectores estratégicos", avisa o líder do Bloco
E o impossível aconteceu: nascido dos escombros dos ultraminoritários PSR e UDP, o Bloco de Esquerda já ultrapassou o PCP e tornou-se a terceira força da política nacional. Três dias depois da "vitória" eleitoral, Francisco Louçã recebe o i na sua casa, na Av. Duque de Loulé, ao Marquês de Pombal. A situação é delicada para o BE, se a esquerda que agora o inflacionou recuar para o PS nas legislativas com medo da vitória do PSD. Francisco Louçã não acredita nisso, ou pelo menos não o diz. Coligações com o PS não, nunca, jamais, em tempo algum.
O Bloco diz que tem um programa para governar. Mas com quem?
Estamos a trabalhar num programa que apresentaremos no final do mês. Estamos prontos para assumir a responsabilidade desse programa, para lutar por ele. É um compromisso com os eleitores. Qualquer pessoa que vota no BE tem sempre a certeza de que nos bateremos para aplicar cada uma das medidas desse programa e para procurar fazer vencer maioritariamente a sua estratégia.
O Bloco de Esquerda passou a terceira força. Mas não há um risco de que quem votou agora bloco daqui a três meses ir votar no PS para travar o crescimento da direita?
Eu creio que o que se está a passar no sistema político português é muito mais profundo do que meras oscilações de maré. E os politólogos que olham para isto como se fossem votos dados ao acaso estão profundamente enganados. Acho que o que se está a passar é o princípio da desagregação de um sistema político baseado no bloco central e num pacto profundo entre os partidos do bloco central no sentido de assegurar a sua continuação e a repartição de poder. O que está a acontecer à esquerda é uma crise de confiança no PS que é irreversível. Os protagonistas desse debate são pessoas que querem mudar a política e não acomodar-se ao desespero, à chantagem que os dirigentes do PS fazem para manter desesperadamente a sua maioria absoluta. Todos esses eleitores estão à procura, e por isso são tão decisivos na transformação da esquerda, de uma alternativa para uma crise de liderança política no país.
Mas essa crise irreversível pode levar o PS a perder as eleições...
O PSD não pode ganhar as eleições. Não tem condições nenhumas para ganhar as eleições. Nós estamos é perante uma situação de perda da maioria absoluta. Foi isso que morreu nestas eleições, com a particularidade de haver uma abstenção muito grande que distorce os resultados. O PSD nunca foi durante estes quatro anos uma alternativa ao governo da maioria absoluta. O problema nunca foi escolher entre o PS e o PSD. É escolher entre a política da crise, da recessão e da destruição das pessoas ou procurar uma política alternativa à esquerda. É por isso que o que mudou nestes anos foi a possibilidade de com o Bloco de Esquerda, muita gente do PS e com muitos independentes começar a haver uma nova esquerda que surge para poder liderar esse processo e essa alternativa.
Mas até Setembro isso não acontece...
Não se expressará como uma maioria para o país, mas o avanço do BE e a coerência de muita gente que criticou políticas essenciais desta devastação económica?
Está a falar de Manuel Alegre?
Manuel Alegre e muitos outros independentes. Há uma massa enorme de eleitores e de pessoas que sabem o que querem. Uma esquerda grande tem que contar com muita gente que está no PS, com muita gente que é independente, muita gente que é activa no movimento social e pode reconstruir a malha da luta social. Agora, o desafio verdadeiro perante toda essa esquerda que cresce é colocar-se como uma alternativa política e dar todos os passos nesse sentido e ganhar a confiança, a estrutura, a profundidade? Nós vamos vencer a maioria absoluta, não é sequer um objectivo, é uma certeza. E isso vai aumentar a responsabilidade do governo do PS e a nossa. A nossa capacidade de lutar cada vez com mais força para conseguir políticas que se tornem maioritárias.
E admitem ir para o governo?
Com José Sócrates não. Não faremos uma coligação com o Partido Socialista.
Imagine que o PS muda de líder?
O problema não é um problema de líderes. Não estamos a fazer ajuste de contas com Sócrates, estamos a discutir a coerência profunda deste governo. Foi a voz dos interesses económicos dominantes em Portugal ao longo do último século até hoje. É a ideia de que Portugal deve ser um país pobre, de salários baixos, de exploração intensa, de grande desigualdade, a maior na Europa, acumulação vertiginosa de fortunas pessoais nas mãos de uma máfia financeira de que alguns pequenos elementos foram revelados pelo caso BCP, BPN e BPP. Mas aquilo não é defeito, é feitio, é uma forma de criar o poder económico em Portugal. Nós queremos derrotá-lo. Uma esquerda maioritária tem que ser refeita vencendo as políticas do PS.
Alegre fez bem em ter ficado no PS?
Nunca me pronunciarei sobre a posição de Manuel Alegre no seu partido.
Falaram bastantes vezes ao longo deste processo?
Sim, mas não discutimos a sua relação com o seu partido.
Mas discutiram a possibilidade de uma alternativa?
Discutimos muitas alternativas que estão a ser construídas e que são todas públicas e evidentes. Nós sabíamos que quando se fizessem as iniciativas que fizemos, como na aula magna, era uma pedrada no charco cujas ondas de repercussão iam continuar durante anos a fio. E vão continuar e vão crescer.
Se Alegre tivesse decidido fazer um partido, poderia ter-se aliado ao BE?
Isso são cenários que não aconteceram. Sei que essa força que emergiu da crítica coerente de pessoas que no PS não aceitaram a política liberal de devastação económica é um processo que está a continuar, que está a crescer.
Os críticos do PS que votaram BE não correm o risco de voltarem à casa-mãe para impedir a vitória da direita?
Estas pessoas querem muito mais do que ser meras marionetas no jogo entre o PS e o PSD. Querem destruir o jogo político que está a empurrar o país para o desastre económico. Essa é a resposta profunda e é por isso que ela é tão prometedora para o futuro da esquerda. Reconstruir o sistema para ir mantendo a paz podre de uma economia que desfaz as pessoas é uma ambição miserável.
Para si o PS é igualzinho ao PSD?
Tem raízes sociais diferentes e tem formas diferentes de actuar. Com o PS houve uma votação no referendo do aborto que levou a uma alteração a uma lei fundamental. Isso não acontece com o PSD que é um partido de profunda cultura reaccionária. No PS há quem combata o código do trabalho. No PSD e no CDS estão todos a favor.
Mas o BE diz que não irá para o governo com Sócrates...
Não é um problema de Sócrates. Não iremos com nenhum partido e nenhuma política aos quais nos opomos. Não achamos que seja num conselho de ministros que se convença uma política a aceitar o contrário daquilo que são os interesses que ela defende. A lógica de coligação é uma lógica de destruição da política, da falsificação das opiniões, de fazer um arranjo de governo.
Mas serve para influenciar?
Não influencia nada! Isso destrói o sentimento de política, destrói a democracia, porque significa que nós, em nome de carreiras pessoais, do brilho do poder, aceitaríamos fazer o contrário do que dissémos aos eleitores. Não podemos fazer isso. Nunca! Jamais! Diremos isto todos os dias, com toda a clareza, para que ninguém tenha a menor dúvida. Nunca faremos! Só conseguiremos uma política contra a desigualdade se houver uma força maioritária no país que esteja disponível, capaz, mobilizada, preparada, informadíssima sobre toda a luta que é preciso fazer nesse sentido.
Isso é um trabalho para anos?
Pois claro que é. É um trabalho para anos. É o que vamos fazer e é o que temos feito. Temos ganho sempre até agora. Teremos vitórias e teremos derrotas nesse processo de futuro. Estamos preparados para isso. Mas esse é o trabalho que é preciso fazer, caso contrário Portugal vive sempre a dançar à volta do mesmo prato, com a mesma música.
E se vocês disserem: nós estamos disponíveis para governar com o PS mudando o PS?
Isso é uma aldrabice. Nós não mudamos PS nenhum. O PS representa os interesses que queremos derrotar em nome da democracia. Queremos nós e muitos eleitores do PS e é por isso que queremos obter uma maioria na esquerda.
Se o PS mudasse de liderança?
Não tem nada a ver com liderança do PS. Ponha lá o António Vitorino...
O António Costa, por exemplo?
Mas eu não faço cenários sobre isso. O António Costa fez parte deste governo. Eu conheço-o pessoalmente, respeito-o, como respeito outros dirigentes do PS, mas as coisas são como são. Ele fez parte de todas as decisões políticas que deram corpo a este governo.
Portanto, nunca darão apoio nenhum a este PS, dariam apoio a Alegre se ele estivesse no poder do PS, mas não está.
O PS faz tudo para destruir o Manuel Alegre, ao ponto de ele ter considerado que não tinha sequer condições para ser candidato a deputado. Há um aparelho do PS contra Manuel Alegre que, por acaso, nas presidenciais, só teve mais votos que o aparelho do PS nestas europeias. Manuel Alegre terá uma voz decisiva na reconfiguração da política de esquerda. Este BE dará tudo por isso, é indispensável que assim seja. Não se pode fazer uma esquerda grande sem ter muitas dessas pessoas que protagonizaram lutas essenciais. Isto significa que depois das eleições as coisas vão mudar muito. Se o BE tiver a representação que estas eleições permitem supor, queremos ser determinantes na acção política.
Defendem a nacionalização de boa parte dos sectores vitais...
Defendemos a nacionalização dos sectores estratégicos. Temos um défice orçamental e as empresas que dão lucro são entregues ao sector privado para transferir lucro para o sector privado. As Águas de Portugal vão ser privatizadas. Como é possível privatizar aquilo que é único? Do ponto de vista estratégico e de desenvolvimento manter no sector público esses serviços é decisivo.
O Estado burocrático e governamentalizado é melhor que a iniciativa privada? Há reguladores.
Os reguladores são um fracasso. A supervisão é uma anedota para enganar os incautos. Agora, eu não quero nenhum estado burocratizado a dirigir a economia. Acho é que, onde não há concorrência, porque é que se há-de entregar o monopólio a privados para eles abusarem dos preços em relação às pessoas, que ficam indefesas?
Porque falhou o acordo com Helena Roseta para a câmara de Lisboa?
Helena Roseta considerou que era cedo demais para um movimento que fizesse uma convergência entre o esforço do Bloco e o seu movimento de cidadãos. Provavelmente tinha razão. É melhor fazer bem no futuro do que fazer remediado no curto prazo.
Qual é a política de defesa do Bloco? Sair da NATO?
Sim.
Reduzir as Forças Armadas a funções policiais?
Achamos que devem haver forças com funções especializadas, como o controlo das águas territoriais. O próprio conceito de defesa e soberania deve ser alargado. Há muitas funções que não são armadas. A promoção da cultura, do cinema, é soberania portuguesa. Recusamos completamente qualquer política de ocupação colonial. As Forças Armadas estão a ser submetidas à vergonha de estar a defender um governo de traficantes de droga no Afaganistão, no âmbito da NATO. É uma degradação civilizacional absoluta a situação em que estão as forças armadas portuguesas.
Mas o que defende o BE para combater o terrorismo?
A presença no Afeganistão foi um balão de oxigénio para a Al-Qaeda, que beneficiou imenso dessa guerra. Detesto a ideia da arrogância colonial segundo a qual os senhores da guerra, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, vão civilizar alguns países. A guerra é a barbárie! Durão Barroso, Tony Blair, Aznar, George Bush são criminosos de guerra! Desencadearam o bombardeamento sobre populações, permitiram o assassinato de civis, massacraram. Isto são crimes. A ideia de que as bombas civilizam e o massacre traz democracia é uma ideia sinistra. Já houve tempo em que as esquerdas tinham conceitos mais claros sobre isso e temos que os recuperar.
Mas imagine que somos aqui atacados no Marquês de Pombal. Como é que combatia o ataque?
Todos os crimes se combatem da mesma forma. Com prevenção, com punição, com informação policial, com capacidade de intervenção. Quanto mais graves, mais capazes têm que ser os meios para intervir. Mas nenhum meio desses é massacrar um povo.
Ia procurar a Al-Qaeda aonde?
Os criminosos devem ser procurados em todo o lugar onde estão. Um crime deve ser punido. A Arábia Saudita deve ser bombardeada porque o Bin Laden é saudita? Mas porquê? Não faz nenhum sentido. No debate político instalou-se com uma preocupante facilidade noções delirantes dos generais de sofá a incentivar o morticínio como instrumento político.
Obama, que defende o reforço das tropas no Afeganistão, não representa uma revolução nos Estados Unidos?
Foi uma renovação profunda que reflecte um gravíssimo descontentamento. Obama teve a coragem de ter lutado contra a guerra do Iraque. Mas eu creio que a continuação da guerra no Afeganistão é trágica.
Gostou do discurso do Cairo?
Achei o discurso do Egipto melhor do que o discurso da campanha eleitoral, que era um discurso completamente alinhado com a visão sionista do controlo do Médio Oriente. Registei o silêncio dele sobre os ataques a Gaza no final da campanha. Nessa altura não houve nenhuma condenação por parte de Obama. Os políticos medem-se nos momentos difíceis, não é nos cálculos eleitorais.
Não acredita que Obama possa mudar a América?
Houve muitos presidentes que prometeram mudar a América. O Clinton prometeu, o Kennedy prometeu. E o Clinton e o Kennedy foram dos presidentes mais militaristas. Uma transformação política nos Estados Unidos exige muito mais do que está a ser discutido.
Rejeita, para o Bloco de Esquerda, a definição de partido da extrema-esquerda?
Sim, é uma definição desinteressante e desadequada. Nós queremos ser uma componente central da esquerda portuguesa, porque achamos que o Partido Socialista se tem deslocado cada vez mais para o centro, que se define a si próprio como partido do centro. E é no centro que está o colapso.
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