Surf
Nuno Jonet. "O surf só me aconteceu aos 21 anos, em Angola"
por Filipe Duarte Santos, Publicado em 16 de Outubro de 2010
Conhece muita gente que considere Portugal, nesta altura, um "país interessante para viver"? Veja como o surf pode mudar a perspectiva
Nuno Jonet, a voz da Associação de Surfistas Profissionais, de microfone em punho, narrando para os milhares que estão na praia: "Olhem para aquela onda! Aquilo é como andar de bicicleta em cima de um terramoto." Nuno Jonet corre o mundo, se for preciso narra em qualquer onda do planeta, mas entre nós não se deixa inundar por aqueles clichés dos australianos, havaianos ou americanos. O homem nasceu em Portugal e fala do surf com a pureza que podia descrever uma sardinhada. Nuno Jonet é um homem do mar, agora até é pescador nas horas vagas, mas foi surfista campeão, jornalista, repórter fotográfico e juiz dos melhores surfistas. Nuno Jonet é a autoridade do surf em Portugal e um dia depois de Kelly Slater ter ganho o Rip Curl Pro faz-nos o mapa deste desporto. Que também é a sua vida.
Como chegou até aqui?
O surf só me aconteceu aos 21 anos, em Angola. Tive a sorte de conhecer um havaiano que estava a mapear a costa oeste de África, da Cidade do Cabo a Marrocos. Encontrei-o em Luanda e comprei-lhe uma prancha. Comecei a fazer surf, ensinei uma data de amigos e de miúdos das aldeias piscatórias. Em 1975 vim de volta para Portugal com mais um milhão de pessoas e depois demorei seis meses a encontrar a minha prancha.
O que fazia em Angola?
O meu pai tinha uma fábrica de plásticos, em Viseu, onde vivi até aos 14 anos. A minha mãe sempre teve família em Angola, aliás nasceu lá filha de um verdadeiro colono. Tínhamos umas roças de café do tamanho do Algarve, juntou-se o útil ao agradável e fomos para lá. Cresci, comecei a passar noites fora de casa, fazia tudo o que podia... aos 17 anos percebi que estava a ser pesado para a família e tinha de me tornar independente, e então fui trabalhar como operador de rádio.
Em 1975 veio para Portugal.
Quando cheguei havia mais cinco ou seis pessoas a surfar, algumas delas nem eram portuguesas. Eram filhos de militares da Nato ou de embaixadores... uma espécie de nata. Havia poucos surfistas pobres. Meti-me a fabricar acessórios de surf, fatos de borracha, mas o lado desportivo também aconteceu e um dia tenho esta reunião com outro surfista mais velho, o João Rocha, hoje juiz: "Fazemos este ano o primeiro campeonato nacional ou aguardamos mais um ano e ficamos com as ondas só para nós?" Venceu o altruísmo Em 1977, afinal, demos conta que éramos muitos mais. Julgámos que eram uns 40 surfistas no país e afinal apareceram 70.
Em Ribeira D''Ilhas, na Ericeira.
Não havia dinheiro, os patrocínios pagavam-se seis meses depois.
Como se aprendia a fazer surf?
Eu fui dos primeiros a fazer uma escola de surf, em Carcavelos, juntamente com o Pedro Melo, uma coisa já muito à frente, a filmar os miúdos em vídeo para depois lhes mostrar o que estava certo ou errado. Fomos assaltados duas vezes, levaram fatos, pranchas, televisores, vídeos. Mas nessa altura até achava aquilo estranho e pensava: "O surf aprende-se por osmose, vai-se para dentro de água e leva-se porrada, melhora-se por tentativa e erro."
Foi assim que aprendeu?
Claro. Quando cheguei a Portugal, com dois anos de surf, era um "paparuco", mas ainda deu para ganhar dois campeonatos europeus, em 1981 e 1983. Nessa altura havia lá onshore ou offshore... Ia-se para dentro de água e pronto. Hoje em dia somos uns esquisitos. Na altura tínhamos atenção aos lavradores e aos pescadores, aos boletins meteorológicos da televisão e assim que aparecia ondulação de cinco ou seis metros nos Açores sabíamos que vinham aí ondas sensacionais.
Como descobriu aquilo das referências do surf, os havaianos e os australianos?
"Surfer Magazine"! Chegava com quatro a seis meses de atraso. Foi através dessa revista e dos nómadas, os surfistas que por cá passavam. Depois os portugueses também começaram a ir à procura de ondas pelo mundo e traziam fotografias que ninguém imaginava, traziam sonhos. Arranjava-se algum dinheiro e apanhava-se um cargueiro para os Açores... Hoje agarra-se num grupo de doze miúdos, vai tudo para um hotel flutuante nas Maldivas e aquilo é uma autêntica disneylândia do surf.
Também se meteu num cargueiro?
Coisas parecidas... viajei, passei por situações complicadas, às vezes metido dentro de uma canoa com o meu material fotográfico. No Panamá, a passar de uma ilha para outra, levei muita pancada e não sabia se chegaria ao destino.
Quando começou a fotografar?
Logo em 75 ou 76. Fazia mais fotografia dentro de água, achava piada. Comprava aquelas maquininhas amarelas, com um rolo de 120. Depois descobri que disparavam sozinhas quando as ondas lhes caíam em cima. Mas com isso consegui fazer uma capa da "Surf Portugal", o número 2, uma fotografia do Dapim [um dos mais talentosos surfistas de sempre; ainda pode encontrá-lo num dia bom em Carcavelos]. Depois fui ficando interessado e comprei material cada vez melhor. Quando cheguei ao Havai, no meu primeiro ano, em 1989, aí a coisa ficou séria porque um grande amigo quase me ofereceu, por 600 dólares, uma lente enorme.
E como nasceu a sua ligação oficial ao que é hoje a ASP?
Foi por acaso, em França. Em 1983 a ASP [Associação de Surfistas Profissionais] fez a sua primeira prova em Lacanau. Eu competi e fui eliminado cedo. Nessa altura quem ficava livre passava para o painel de juízes. Depois apareceu um grupo de surfistas na água e o director da prova precisava de os tirar de lá, para continuar o evento. Pediu-me que falasse, porque eu sabia línguas, mas afinal chegou--me o português porque eles eram brasileiros. Correu bem, evoluí e daí para a frente criei a minha própria relação com os surfistas e com o público, que precisa muito de ser educado para o surf. Hoje já não é tanto assim.
O nosso país entende o surf?
O nosso país não tem "surf living associations". No dia em que tiver algo parecido com isso, teremos uma relação com o mar bastante melhor. A Austrália, a África do Sul e os Estados Unidos têm esses clubes de surfistas com responsabilidades sociais, há gerações. Lá o mar não é uma chatice que de vez em quando fica malvado e nos parte coisas. Quando arrancou a nossa federação não conseguimos fazer singrar os clubes, agora temos esta onda chamada "surfcamps" a dar cabo de tudo.
O negócio das escolas de surf está a matar a evolução do desporto?
Qualquer pessoa pode ficar rica em dois anos se tiver um terreno de um avô junto à praia e construir uma brincadeira dessas. Isso vai ocupar espaço de outras coisas que se calhar deviam ser mais sociais e mais abertas.
Quem tem um café numa praia tem de pagar a um nadador salvador. Seria normal pedir a uma escola de surf alguma responsabilidade na praia?
Claro. É uma questão de igualdade de direitos e de deveres na utilização dos recursos.
No meio disto tudo, o que é o surf competitivo em Portugal? É o Tiago Pires?
É o Tiago Pires e mais duas ou três esperanças. Mas estou convencido que dentro de quatro anos podemos conseguir tirar algum partido daquilo que aconteceu em França, o país que mais tem sabido crescer na modalidade.
Não devia acontecer no surf o mesmo que em qualquer modalidade, ou seja, uma federação escolher e apoiar os melhores?
Isso vai ter de acontecer. Haverá centros de alto rendimento, por exemplo em Peniche, ao longo da costa de uma forma que eu diria... interessante, se tivermos em conta quem são as pessoas com cargos mais importantes na Federação Portuguesa de Surf. A intenção é boa...
O Tiago Pires é o melhor ou o maior surfista português de sempre?
As duas coisas. Não só é hábil como, enquanto modelo e exemplo de vida, é um caso único. Bateu, bateu, bateu, andou anos a bater à porta do circuito mundial e entrou. Para depois ouvir que a sua carreira só estava a começar! Ou seja, o mais difícil não é chegar ao circuito, é ficar. O Tiago sempre teve fé e apoio da sua família, trabalhou, e depois disso tudo hoje diz que surfa pela bandeira do país. Isso é de um grande altruísmo.
Quem o marcou no passado?
O Paulo Inocentes foi o primeiro grande surfista português. Depois veio a época do Dapim, que tinha altos e baixos, alterações de biorritmo. Entretanto o leque alargou-se. Hoje o futuro é do Kikas [Morais] e do Vasco [Ribeiro]. Temos grandes esperanças neles...
Passemos ao circuito. Na quinta-feira viu Kelly Slater ganhar mais uma vez... ele é mesmo um mito, é deste planeta?
O gajo é meio extraterrestre. Se não fosse bom em surf era bom noutra coisa qualquer. Ponham o Slater a jogar póquer ou golfe e ele dá-nos uma abada, à vontade. O Slater é uma pessoa fora do vulgar, desde miúdo com muito jeito, e marcado pela separação dos pais. É chegado à mãe e sentiu a responsabilidade de ganhar por ela, para não lhe faltar nada. Em termos competitivos, é o que parece mais à frente, está sempre onde os outros ainda não chegaram. Por fim, tem uma maneira de perder e de ganhar muito dignas. Vi-o chateado três ou quatro vezes na vida e faço o circuito desde o princípio dos anos 90.
O surf ainda é visto como um desporto marginal?
É, é! Marginal! Basta olhar para o que os surfistas recebem e é marginal! Peanuts! Pipocas! Estão a dar peixinhos às focas para elas saltarem fora de água. É ridículo. Uma pessoa arrisca o pescoço ali nos Supertubos e sai de lá com dinheiro para comprar meio automóvel? É preciso mais um zero à frente.
Quando é que o surf vai conseguir explicar à comunidade que merece ser visto com um desporto de alta competição?
O problema é que o surf tem esta aura de desporto inatingível para o comum dos mortais. Há um código, qualquer coisa a sugerir que isto é bom de mais para ser atingível. E isso não é verdade! Para fazer surf basta as pessoas quererem! O que acho que vai acontecer entretanto é um debate para se saber se devem ser construídas piscinas e ondas artificiais, por causa dos Jogos Olímpicos, ou se isso também será obrigatório porque o número de praticantes é cada vez mais elevado e a indústria vende cada vez mais... Vejo daqui a 20 anos os miúdos a surfarem no reef Billabong artificial aqui em Peniche, ou nas Caldas da Rainha, numa piscina construída de raiz. O mar está a subir, há erosão na costa e o futuro passa por aí.
Como seria a sua vida sem o surf?
Advogado não seria, não sei que espécie de bandido podia ser... Tinha de estar ligado à natureza e ao ar livre, às pessoas, talvez a trabalhar com cavalos.
Ainda faz surf?
Menos, tive uma hérnia discal que me atirou com a barriga para a frente. Ainda faço umas ondinhas com o meu longboard... e lá no Havai, com água quentinha, surfo quase todos os dias.
Viverá em Carcavelos para sempre?
Julguei que voltava a África mas está complicado. Portugal é um país cada vez mais interessante para viver.
Mesmo com a crise?
Quando estás envolvido em qualquer coisa que oferece o olhar para o lado positivo, algo que surge como uma nova alternativa para empregar pessoas, Portugal até é interessante. Gostava muito que as pessoas agora não tivessem de andar a buzinar porque lhes puseram qualquer coisa nas suas estradas de sempre, compreendo os problemas das pessoas, mas neste momento estou entusiasmado com Portugal.
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Artigo: Nuno Jonet. "O surf só me aconteceu aos 21 anos, em Angola"
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