Livros
Howard Jacobson. Ri por último, ri melhor e leva o prémio
por Luís Leal Miranda, Publicado em 14 de Outubro de 2010
Era uma carta fora do baralho na shortlist do Booker Prize, mas "The Finkler Question" acabou por ser o ás de trunfo
Num artigo publicado este sábado no "Guardian", Howard Jacobson defendia que a literatura cómica tinha todo o direito de ser levada a sério. "Mostrem-me um romance que não é cómico e mostro-vos um romance que não está a fazer o seu trabalho", começa por escrever. Jacobson, autor inglês com jeito para literatura de fazer cócegas, viria a ser levado muito a sério três dias depois quando, terça-feira à noite, o seu nome foi lido em voz alta pelo júri do Man Booker Prize.
"The Finkler Question" (sem tradução para português, tal como todas as obras de Jacobson) foi o livro premiado: a história de um grupo de amigos judeus a braços com a viuvez e uma série de conflitos existenciais. Apesar do enredo parecer sisudo, Jacobson conduz o romance com espalhafatosa comicidade. Antes de receber o cheque no valor de 55 mil euros, Howard teve de ouvir o presidente do júri, sir Andrew Motion, descrever o livro vencedor como "muito divertido, mas também muito inteligente, triste e subtil".
O escritor, que já havia sido nomeado para a longlist do Booker em 2002 e 2006, bateu os outros nomeados, Peter Carey, Emma Donoghue, Damon Galgut, Andrea Levy e Tom McCarthy. Segundo a casa de apostas William Morris, Jacobson era o autor com menos hipóteses para ganhar - oito para um.
Por esse motivo, e porque nunca antes uma comédia vencera este prémio, a BBC descreveu o vencedor como um "outsider". O escritor e jornalista, que se apresenta como "a Jane Austen judia", recebeu o prémio com genuína surpresa e irreprimível felicidade: "Não sei o que dizer, mas felizmente preparei algo para dizer caso ganhasse. É um texto que escrevi em 1983, só para verem há quanto tempo estou à espera".
Como Philip Roth, mas bem disposto. Howard tinha sete anos quando a professora primária revelou aos pais o talento invulgar do garoto, apontando que este seria um dia "um grande romancista". Mas tanto a professora como os pais tiveram de esperar um pouco mais para ver o jovem Jacobson lançar um livro. Antes, foi professor de Inglês em Cambridge e no politécnico de Wolverhampton, experiência que alimentou o seu primeiro romance, "Coming from Behind (1983)", a história de uma escola falida que tem de se fundir com o clube de futebol local.
Aos 68 anos, Jacobson é o autor mais velho a ser escolhido nas últimas três décadas para o prestigiado Man Booker Prize - o sexagenário anterior fora William Golding ("O Senhor das Moscas").
Atribuído desde 1968, o Booker distingue o melhor romance em inglês escrito por um cidadão da Commonwealth, Irlanda ou Zimbabué. O ano passado o prémio foi para "Wolf Hall" de Hillary Mantel, que assim se juntou à lista de notáveis onde estão nomes como Arundhati Roy, J.M. Coetze e Salman Rushdie, mas nenhuma escritor nativo do Zimbabué.
Howard, que também já foi descrito como "um Philip Roth bem disposto", vence à 11.a tentativa (ou 11.o romance), sem a unanimidade do júri - "sei que sou um autor atípico para este prémio", acrescentou no discurso da vitória. O "Daily Telegraph" justificou assim a surpresa: "Ele é demasiado divertido para o Booker." Mas quem se está a rir agora é Jacobson.
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