A medida da felicidade

por Joana Petiz, Publicado em 09 de Outubro de 2010   
E se em vez de medirmos o que produzimos passássemos a preocupar-nos com a felicidade? Pode ser muito mais que uma boa ideia
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Numa época de crise mundial como a que vivemos, a ideia de um homem no outro lado do mundo, numa realidade tão afastada da Europa moderna, ganha especial sentido. O ano era 1972 e o autor da ideia o rei do Butão, um pequeno país nos Himalaias, encravado entre a China e a Índia. Jigme Singye Wangchuck, o quarto rei do Butão, decidiu que era mais importante medir a felicidade do povo que a sua riqueza. No dia 2 de Junho de 1974, no seu discurso de coroação, disse: "A felicidade interna bruta é muito mais importante que o produto interno bruto." Tinha 18 anos e era o rei mais jovem do mundo. Mas não foram só palavras. A partir daquele dia, o PIB foi posto de parte e o modelo de desenvolvimento do Butão passou a ser medido pela felicidade e guiado para ela.

O conceito é simples: o que medimos afecta o que fazemos, logo, se apenas medirmos a produção de riqueza, é nessa evolução que vamos estar centrados. Acontece que, defende o rei do Butão, o verdadeiro desenvolvimento de uma sociedade só é possível quando o lado espiritual acompanha o material. Mas como medir a felicidade? Para o tornar possível, Wangchuck encomendou ao seu centro de estudos um sistema métrico com base num questionário que cobre nove áreas da vida: o bem-estar psicológico, a forma como o tempo é usado, a vitalidade da comunidade, a cultura, a saúde, a educação, a diversidade ambiental, o nível de vida do povo e a satisfação com o seu governo.

Entre um Nobel e as Nações Unidas Apenas conversa? Talvez não. Pelo menos a ideia foi suficientemente forte para despertar o interesse de um prémio Nobel da Economia. Em Fevereiro de 2008, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, criou a Comissão Internacional para a Medição do Desempenho Económico e Progresso Social. O director escolhido - nada menos que Joseph Stiglitz - justificou a sua importância com a sua "insatisfação, e a de muitos outros, com o estado actual da informação estatística sobre a economia e a sociedade". "A grande interrogação é se o PIB oferece uma boa medida dos níveis de vida", explicou ainda. E os resultados, apresentados em Setembro, confirmaram as piores suspeitas: o PIB não é uma medida fiel do bem-estar de um povo.

Stiglitz não foi o único a interessar-se pelo tema. Em 2006, o professor Adrian White, da Universidade de Leicester (Reino Unido), desenhou mesmo um mapa da felicidade (ver infografia) - o Butão aparece como um dos países mais felizes dos 178 estudados, apenas atrás da Dinamarca, da Suíça, da Áustria, da Islândia, das Bahamas, da Finlândia e da Suécia. E é o único no top 10 com um PIB per capita extraordinariamente baixo: 5312 dólares, seis vezes mais pequeno que o espanhol.

A FIB ainda não é uma realidade, mas a ONU olha para este índice com cada vez maior atenção, tendo mesmo chegado a organizar conferências sobre o assunto - uma delas no Brasil, em 2009 -, e continua a seguir de perto o trabalho desenvolvido no Centro de Estudos do Butão.

Segundo Ruut Veenhoven, psicólogo social e professor da Condições Sociais para a Felicidade Humana na Universidade de Erasmus, em Roterdão, Holanda - que dirige a Base de Dados Mundial da Felicidade e o "Journal of Happiness Studies" -, o PIB não tem uma relação causa/efeito com a nossa felicidade. Basta olhar para o top 5 das populações que mais felizes se dizem: Islândia (em bancarrota), Dinamarca, Colômbia (maior produtor de cocaína do mundo e que tem a mais alta taxa de homicídios per capita), Suíça e México. O PIB per capita também não parece ser o que traz a felicidade: o ano passado o do México, por exemplo, era de 13 600 dólares, contra os 22 600 dólares de cada português, segundo o FMI. No entanto, numa escala de felicidade de 0 a 10, nós ficamo-nos pelos 5,7 (ver gráfico).

Que podemos então fazer com esta informação? Aprender a ser mais felizes. Faça o teste em e saiba a que ponto é feliz.


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