Coluna vertical

Favorecer quem se conhece?

por José Couto Nogueira, Publicado em 09 de Outubro de 2010   
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Caro Couto Nogueira,
Estou no departamento de recursos humanos de uma grande empresa. Um amigo, ou talvez seja melhor chamar-lhe conhecido, com quem me dou com irregularidade há muitos anos, preencheu a ficha de candidatura a uma posição na empresa e telefonou-me a pedir um empurrãozinho. Sei que ele está desempregado e tem filhos pequenos, está numa situação muito difícil, mas também sei que há muita gente com dificuldades. Praticamente todas as fichas que recebemos são casos tristes e alguns até devem ser piores do que conseguimos perceber. Vendo a ficha dele, tem as habilitações requeridas para a posição que queremos preencher, mas é um pouco mais velho do que os outros candidatos nas mesmas condições. É mesmo mais velho que o limite da nossa política de contratações, que não está escrito mas é seguido pelo departamento desde sempre. Por outro lado, sei que ele é uma pessoa competente e dedicada. No entanto, não quero que me acusem de falta de ética por ter escolhido um amigo. O que sugere que eu decida?
Colaborador consciencioso

 

Caro Consciencioso,

Antes do mais, se alguém dentro da empresa o acusar de ajudar um amigo, é porque lhe quer mal e está a ver se o prejudica; toda a gente ajuda os amigos, na sua empresa e nas outras, no aparelho de Estado, na economia informal e mesmo na ilegal. Acontece aqui e na China, nos regimes capitalistas e socialistas e nas anarquias sem lei nem ordem. É a ordem natural das coisas, digamos assim. Agora as situações em que se ajudam os amigos é que não são sempre as mesmas, e há que atentar às diferenças.

Se houver vários candidatos a um lugar (ou qualquer outra situação de muitos cães e um só osso, passe a expressão) e todos cumprirem igualmente os requisitos, um deles ser amigo é uma boa razão para o escolher. Porque não? O amigo é a pessoa que conhecemos e em quem temos confiança, um ponto que não figura no currículo mas pode ser importante. É natural querer trabalhar com pessoas de quem já temos ideia formada, e até conveniente para a empresa.

A questão da idade, que parece ser a única alínea em que o seu amigo perde, é uma limitação imoral que não deveria existir na nossa sociedade. As pessoas vivem mais, são activas mais anos, e parece que a partir dos 35 ninguém as quer - um contra-senso estúpido, além de que se perde a experiência dos mais "velhos". Uma vez que essa doutrina não está escrita nos manuais da sua empresa (o que, aliás, seria ilegal), o leitor até tem um bom argumento para a ignorar: "Ele é mais velho, mas em compensação conheço-o e sei que é trabalhador e honestíssimo." Assim inverte a seu favor o que poderia ser usado contra si. Não está a favorecer um amigo, está a escolher uma pessoa que tem as mais-valias da experiência e da confiança.

E digo-lhe mais, caro Consciencioso: numa cultura de nepotismo, favorecimentos escusos e preferências inconfessáveis como a nossa, é comovente ver que ainda há alminhas sãs como a sua. Afinal nem tudo está perdido.

Escreve ao sábado



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