PRIMEIRO PLANO

É só contabilidade

por Ricardo Reis, Publicado em 09 de Outubro de 2010   
Com a invenção da contabilidade criou-se uma ilusão: que por se mudar a categoria de uma despesa algo de real se altera
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Com a invenção da contabilidade, o homem passou a controlar uma parte importante da sua vida. Este controlo deu, no entanto, origem a uma ilusão: de que por se mudar a categoria de uma despesa, algo de real se altera. Por exemplo, depois de gastar 20 euros num jantar, o leitor pode dizer que consumiu, que investiu na sua saúde, ou mesmo que poupou por não ter gasto 30 euros no restaurante ao lado. Chame-lhe o que quiser, tem menos 20 euros e a barriga cheia. O resto é só contabilidade.

Na última semana, muitos protestaram contra a integração do fundo de pensões da PT nas contas do Estado. Não li nesses comentários resposta a duas perguntas: primeira, se daqui a 30 anos o fundo de pensões da PT não tiver dinheiro para pagar as reformas prometidas aos seus aposentados, acha que o Estado vai assumir essa dívida? Segunda, se o fundo de pensões for tão rico que comece a pagar aos aposentados da PT o dobro do que recebem outros trabalhadores do Estado, acha que o governo dessa altura vai bradar contra esta injustiça e retirar o excesso de dinheiro do fundo de pensões para "promover a igualdade"?

Se a sua resposta for afirmativa a ambas as questões, a manobra contabilística de Teixeira dos Santos não alterou nada de real. Afinal, o leitor acha que as obrigações do fundo de pensões da PT já eram implicitamente garantidas pelo Estado. Logo, a mudança da última semana só tornou esta garantia explícita. Além disso, com a ligeireza com que o Estado português desrespeita compromissos, tornar a garantia explícita não a tornou mais forte. Foi só contabilidade.

Nos últimos dias li outras notícias referindo um estudo segundo o qual a produtividade dos funcionários públicos é baixa, puxando a produtividade média do país para baixo. Não consegui encontrar o estudo, mas, como noticiada, esta afirmação é difícil de entender. A maioria dos trabalhadores do Estado são professores, militares, funcionários da administração central, enfermeiros e médicos. Uma característica dos bens que eles produzem é não terem um mercado ou preço que nos permita contabilizar as suas receitas (para efeitos de contabilidade nacional, ainda se trata o produto de uma escola pública como diferente do de uma escola privada).

Ora sem haver um registo de vendas não é possível medir o produto destes trabalhadores. A convenção contabilística é que o produto seja apenas igual aos custos. Por outras palavras, convencionou-se (por conservadorismo) assumir que o valor acrescentado por estas actividades públicas é zero. Logo, por definição contabilística, a produtividade destes trabalhadores é zero. É zero hoje, é zero amanhã, e o seu crescimento é zero sempre. Não porque estes portugueses não prestem um serviço útil ou não criem riqueza e bem-estar bem reais. É só contabilidade.

rr.ionline@gmail.com Escreve ao sábado


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