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As vozes deles estão no meio de nós. Evangelho dos senhores locutores

por Diana Garrido, Publicado em 09 de Outubro de 2010   
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01 | Nuno Reis

Voz da RTP, 36 anos

Tem 36 anos mas trabalha com a voz há 20. Tudo começou porque gostava muito de música. Aos 15 já fazia um programa na Rádio Comercial da Linha, convidado por Francisco José Viegas, amigo da família, que viu no adolescente algum talento para a coisa. O programa tinha "um nome muito piroso", diz Nuno, e nós concordamos: "A Hora da Lua". Um ano e meio depois passou para a TSF e daí para a XFM, a rádio que mais prazer lhe deu, garante, e finalmente para a Comercial.

A primeira vez que trabalhou para a televisão foi na SIC, como locutor de continuidade, função que desempenhou dez anos. Um locutor de continuidade é aquele que ouve no final dos programas a anunciar o que vem a seguir, está a ver?

Começou na RTP em 2001... Ou 2002. As datas não são o seu forte. Além de ser a voz do canal público, Nuno faz as promoções para a Antena 1 e para o programa "Caixa de Ritmos", da Antena3. Ninguém lhe reconhece a voz no dia-a-dia, mas ela já o livrou de uma multa, nos tempos da Rádio Comercial: "Ia em excesso de velocidade e mandaram-me parar. Quando o polícia olhou para a carta de condução perguntou se eu era o Nuno Reis da Comercial. Disse que sim e ele deixou-me ir, porque gostava muito do programa."

Quanto a ser a voz da RTP, ao mesmo tempo que é um orgulho "é cansativo". "Todos os intervalos, lá está a minha voz, em todo lado... Ainda hoje me faz confusão ouvir a minha própria voz."

02 | Isabel Bernardo

Voz da PT, 44 anos

O sonho de Isabel era a música. Chegou até a fazer parte de uma banda de salsa, nos anos 80, a Sonora de Lisboa. Mas depois pôs-se a estudar música à séria, e "as coisas parece que perderam um bocado da magia". Diz que bloqueou e acabou por não fazer disso vida. Como tinha uma boa voz, uns amigos desafiaram-na a gravar publicidade. Gostou tanto que nunca mais parou. Mesmo que não seja a cantar, "é interessante trabalhar com a voz", confessa.

É Isabel que lhe diz, numa voz pausada, em nome da PT comunicações, que "o número que marcou não se encontra atribuído". Todas as mensagens da PT são gravadas por Isabel. Ora marque lá o 118. Ouviu "bem-vindo ao 118, serviço de informações nacionais", certo? É a Isabel. Além da PT, tem por sua conta os anúncios da Garnier e é a voz do Canal MOV. Mas não pense que lá por isso esqueceu a música: "Um dia hei-de conseguir."

03 | Augusto Seabra

Voz da SIC, 47 anos

Se há vozes que não são reconhecíveis a menos que saiam devidamente colocadas, a de Augusto Seabra está fora desse grupo. Seja ao telefone seja ao vivo, é dono de uma voz impressionante que quem ouve tem a certeza absoluta de conhecer de algum lado. Só não está a ver de onde.

Foi a primeira voz da SIC, há 18 anos. Aguentou um ano e meio: "Pedi a demissão. Já não conseguia ouvir a minha própria voz. Naquela altura toda a gente via a SIC, que tinha intervalos com sete promoções e anúncios publicitários também com a minha voz. Não aguentava mais." Hoje, garante, já não cansa tanto. Mas nem só da SIC vive o homem. Augusto Seabra faz trailers para o cinema e não fica nada atrás do senhor americano de voz profunda. Agora sente-se no sofá e ligue a televisão. Daqui a nada deve dar um anúncio da Gillette. Ou mesmo da Actimel. Quem sabe se do Bollycao? Preste atenção. É a mesma voz que vai ouvir nas promoções da SIC. Bollycao? Perante a incredulidade da jornalista, Augusto encarna toda a energia que o produto pede e acaba com as dúvidas de uma vez por todas. Logo a seguir faz a voz da Gillette, o melhor para o homem, mas pára antes que jornalista e fotógrafo peçam que monte no estúdio um pequeno espectáculo de variedades de voz.

Augusto Seabra também começou nas rádios piratas, mas o curso de voz da TSF, há 23 anos, é que lhe ensinou quase tudo. Foi também graças a essa experiência que foi parar à Rádio Comercial, onde fez programas como "TNT - Todos no Top" e "Rock em Stock". "Acabei por trabalhar com a malta toda que admirava na altura: Luís Filipe Barros, António Sérgio, Rui Morrison..." Mas a maior surpresa foi o arranque de toda a carreira de Augusto: "Andei 15 dias em digressão com o José Cid, em Paris. Eu tocava bateria. Houve um dia que dei uma entrevista para o Rádio Clube Português e foi aí que me disseram que eu tinha boa voz para locução." Tinha 18 anos na altura e não pensou duas vezes. Arrumou a bateria e fez-se à voz.

04| Helena Lopes

Voz do Metro, 42 anos

Helena não é uma profissional da voz. Quando soube que a queríamos conhecer ficou muito nervosa. Afinal está habituada a trabalhar no metropolitano de Lisboa, atenta a qualquer problema que possa haver na circulação dos comboios. Não, não é a voz de Helena que ouve a cada paragem do metro: "Próxima estação, Alameda, com ligação à linha verde." A voz de Helena é aquela que ouve cada vez que há más notícias, como alguma anomalia na circulação (das que o deixam fechado no metro durante alguns minutos). As mensagens "estão gravadas numa pasta no computador" e é só clicar. Perguntámos se tinham previstas mensagens relativas a uma invasão de ratos nas estações. Não têm. Helena é também responsável pelas mensagens que passam nos painéis electrónicos do metro. A partir de agora, quando olhar para eles, por exemplo para saber se o metro vai chegar a horas, lembre-se de Helena.



05 | Fátima Belo

Voz da TMN, 43 anos

Vire a página para ver a fotografia 5. A cara não lhe é estranha, certo? Pois. Fátima Belo é actriz e uma figura conhecida do público, prestes a entrar pela casa dos espectadores dentro com "Sagrada Família" e "Voo Directo", da RTP. Mas nunca pensou que fosse esta actriz a voz da TMN, pois não? Mas é. Cada vez que liga a um amigo e do outro lado da linha ouve "TMN, serviço de voice mail, deixe a sua mensagem a...", é Fátima a falar consigo. Ou se ligar para o apoio a cliente e uma voz lhe disser "prima 1 para outras opções", Fátima, outra vez.

Há dez anos que é assim. E não pense que por serem mensagens técnicas não dão prazer a uma actriz, habituada a decorar textos. Nada disso. Fátima garante que gosta muito de ser a voz da operadora e do desafio que isso representa: "Tento sempre que se perceba tudo o que digo, que a dicção seja perfeita. Por outro lado, tento gravar as mensagens com o máximo de simpatia e clareza possível. Como são mensagens muito técnicas, tento humanizá-las o mais possível."

Fátima também dá voz a publicidade. Já fez anúncios do queijo Limiano, da Danone, da Mimosa e da Johnson&Johnson. Está um pouco por todo o lado. Mesmo que não veja televisão, não pode fugir de um telemóvel desligado. "É sempre esquisito ouvir a minha própria voz. Sou muito crítica e estou sempre atenta às falhas, a ver o que posso corrigir. Mas é engraçado."



06 | Paulo José

Voz da TVI, 42 anos

As andanças da voz começaram em 1984 numa rádio pirata. Chamava-se Rádio Onda Livre da Amadora e Paulo José tornou-se locutor aos 17 anos. "Tinha um programa semanal, às 23h. Fiquei lá quatro anos, sem ganhar nada", conta. Daí passou para a Rádio 98, também da Amadora: "Ganhava oito contos e o passe social."

Depois de várias passagens por rádios locais chegou o convite de Nuno Santos para integrar a equipa da Rádio Energia, onde ficou sete anos, até ao fecho da estação. Foi o adeus à rádio, da qual ainda tem saudades, apesar de achar que hoje em dia "perdeu encanto por ser tão formatada".

A televisão surgiu há 11 anos, quando foi convidado para ser a voz da TVI. Cada vez que há um intervalo com autopromoções, que é como quem diz publicidade aos programas, novelas e filmes da estação, é a voz de Paulo que se ouve. E ele, garante, não se farta: "A parte mais interessante, para mim, são os intervalos. Sou um bocado narcisista e não me farto de me ouvir. E, claro, aproveito para me corrigir."

Mas não é só na TVI que pode ouvir a voz de Paulo. Se ligar a TSF e prestar atenção à publicidade da revista "Maxmen", "Volta ao Mundo" ou Citroën, poderá ouvir o locutor noutro registo. E se calhar apanhar um elevador da marca Shindler (no aeroporto de Lisboa, por exemplo), a voz que lhe disser "piso 1, recepção", é a do Paulo.

07 | eduardo rêgo

Voz "BBC Vida Selvagem", 59 anos

Sabe quando toma o pequeno-almoço ao sábado e domingo, de olhos postos na SIC, a admirar a vida da bicharada, e comenta com a cara-metade a maravilha que é a voz do locutor? Eduardo Rêgo é o dono e senhor desse tom de voz relaxante, capaz de acalmar a alma mais stressada ou nervosa do mundo. Quando Eduardo descreve a vida selvagem, nada mais importa. Os espectadores sentem-se parte do acasalamento das orcas, da vida em comunidade dos leões ou da organização quase militar das formigas. A voz é tão envolvente que há quem lhe diga que a meio do programa já nem liga aos bichos: só o ouve.

Mas não pense que foi fácil chegar a este tom de voz, a esta dicção perfeita. Para aqui chegar foi precisa "uma luta titânica contra o sotaque minhoto", garante Eduardo. O locutor, que estudou num seminário em Guimarães e por pouco ia sendo padre, começou a carreira em 1977, na Rádio Renascença, depois de ter acabado o curso de Teologia: "Fui o primeiro realizador de programas da Renascença", garante, com orgulho. Além de fazer locução, é dono de uma empresa de tradução e legendagem, que partilha com uma das filhas. Afinal a locução só lhe leva dois dias por semana.

O bicho da rádio atacou-o quando ainda era miúdo, e até no seminário gostava de dar música aos colegas, durante os jogos de voleibol e futebol.

À Renascença deu 15 anos, até que decidiu sair para dirigir uma rádio local: a Rádio Mais, da Amadora. Daí passou para a RTP, onde foi voz da estação e onde, pela primeira vez, fez locução de documentários da natureza. Até hoje, 22 anos depois, continua a ser a sua grande paixão: "É um prazer inimaginável. Não há coisa mais reconfortante que a natureza." Nem que a voz de Eduardo Rêgo, atrevemo-nos a acrescentar.


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