por Joana Azevedo Viana e Mariana de Araújo Barbosa, Publicado em 02 de Outubro de 2010
Segunda volta ainda pode acontecer, mas Dilma deverá ser a nova presidente do Brasil. A incógnita está no futuro: será um governo de continuidade ou novo protagonismo?
Serra é 45.
Marina é 43.
Dilma é 13. Cada número corresponde a um
candidato, mas a confusão dos dígitos leva muitos eleitores a cabularem. No boletim de
voto - a que os brasileiros chamam "santinho" - existem milhares de combinações numéricas, incluindo candidatos à presidência, ao Senado e à câmara de deputados. E este domingo o número do azar deve ser o da sorte, com ou sem segunda volta. As
eleições brasileiras estão marcadas para este domingo, 3 de Outubro, e todas as sondagens prevêem uma vitória da protegida do actual presidente:
Dilma Rousseff. Resta saber se o consegue à primeira volta ou se os adversários podem esperar uma segunda volta, a 31 de Outubro.
"Dilma foi beneficiada por ser a candidata do
governo. Era uma ministra desconhecida, mas Lula conseguiu usar a máquina administrativa muito eficientemente e torná-la a candidata ideal do PT", explica ao
i Bruno Garschagen,
cientista político da ONG política Ordem Livre.org.
Com os
escândalos que derrubaram os mais próximos de Lula, o PT viu-se tão carente de nomes que apoiou quase de imediato a candidata escolhida pelo presidente. Tomada a decisão, Luiz Inácio da Silva passou a levar
Dilma a todos os eventos públicos. E "enquanto Dilma fazia uma
campanha nacional,
Serra parecia levar a cabo uma campanha para prefeito de S. Paulo", avalia Bruno Garschagen. Esse foi um dos erros que assinaram a derrota precoce do candidato com mais
experiência política. Além disso, "o PSDB anunciou a candidatura de Serra no último dia do prazo legal, já
Dilma fazia campanha há seis meses".
DO QUE O POVO GOSTA
Marina Silva veio quebrar o duelo e rapidamente ganhou o seu espaço. "É
Lula no feminino. Tem uma
história bonita, mas não conseguiu a empatia da população que o Lula conquistou", explica ao
i Marcus Vinicius de Freitas, professor de Direito e Relações Internacionais na
Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Aí surgiram os problemas para a terceira candidata: Marina centrou a campanha em
questões ambientais, um assunto que não importa à maioria dos 134 milhões de eleitores. "É um discurso sofisticado de mais para o brasileiro que anda de ônibus apertado e cujas necessidades básicas não estão cobertas", diz
Vinicius de Freitas. "O país precisa de crescer e o facto de as ideias de Marina se centrarem no meio ambiente pode levar a que se atrase no progresso."
BANDEIRAS Da mesma forma que "ninguém acredita que Marina tenha capacidade para ser
presidente,
Serra já perdeu eleições antes e não apresenta algo que leve as pessoas a acreditarem que será um bom presidente", diz o analista. A falta de bandeiras políticas definidas assinou a vitória de
Dilma, que, apesar de não ter o carisma do presidente Lula, é considerada a candidata da continuidade, ou, nas palavras de Vinicius de Freitas, a pessoa que mais se assemelha ao "Lula que fala do feijão com arroz", do que realmente importa ao brasileiro comum. Quase 41% dos jovens (até 16 anos) não terminaram o ensino básico e 25% da população
brasileira é totalmente analfabeta, refere um estudo do Pnad/IBGE de 2008.
Jorge Troper, professor na Faculdade de Santa Helena e analista político, diz que "a população avalia positivamente os programas sociais, o crescimento económico e investimentos realizados em algumas regiões como o Nordeste, onde Dilma chega a ter 65% das intenções de voto".
DILMA DA SILVA? "Nos últimos três anos e meio, Lula viajou muito. E por trás desse trabalho havia alguém a impulsioná-lo. Dilma foi o gerente do
governo", explica Vinicius de Freitas. A previsível vitória de Rousseff traz a dúvida sobre o papel de Lula: estará na sua sombra depois das
eleições? "Dilma é um terceiro mandato da presidência de Lula, mas seria bom para ela que ele saísse por uns tempos do Brasil", refere. A vantagem de Dilma nas sondagens (47%, contra 28% de Serra e 14% de Marina) disputa a atenção dos
media com os rumores de que Lula possa dedicar-se a um cargo numa organização internacional assim que deixar a presidência.
"Lula é a versão brasileira de Nelson Mandela e difícil de igualar", diz Vinicius de Freitas. Os mais optimistas, adianta, tendem a acreditar que Dilma não vai alterar muito a linha de Lula. No entanto, a conhecida personalidade forte da candidata leva a suspeitar que "vai querer imprimir alguns factores de diferenciação", explica. Bruno Garschagen completa: "É uma pessoa muito difícil de lidar. Mesmo a equipa dela nunca teve uma boa impressão."
As diferenças em relação a
Lula vão além da personalidade: "É uma tecnocrata, não vai ter o perfil mediático de Lula. A vitória vai fazer regressar um tipo de presidente que o Brasil já teve, com menos atenção mediática e mais trabalho de bastidores", conclui Marcus Vinicius de Freitas. Bruno Garschagen deixa outra dúvida no ar. "Tenho muito medo do que pode acontecer. Não confio nela enquanto candidata e não sei se será capaz de controlar os radicais do PT, como Lula sempre fez."
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