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As raízes do desemprego: uma estrutura feita de desculpas

por Paul Krugman, Publicado em 01 de Outubro de 2010   
A direita diz que o desemprego é estrutural, quando tudo o desmente. Não há desajustamento entre oferta e procura no mercado de trabalho; só entre necessidade de acção e determinação política
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Que se pode fazer para combater o desemprego em massa? Todas as cabeças bem-pensantes concordam que não há respostas fáceis nem rápidas. Não que não haja trabalho, mas os desempregados não estão em condições de o fazer - ou se encontram nos lugares errados ou as suas qualificações não são as adequadas. Os nossos problemas são "estruturais" e vão ser precisos muitos anos para os resolver.

Mas não perca o seu tempo a pedir justificações para esta perspectiva sombria. Não existem. Pelo contrário, todos os factos sugerem que o desemprego elevado não resulta de uma inadequação da oferta. Dizer que não há respostas fáceis parece muito sensato, mas na realidade é uma tolice. A actual crise de desemprego podia ser facilmente resolvida, desde que tivéssemos a lucidez intelectual e a determinação política para o fazer. Por outras palavras, o desemprego estrutural é um falso problema, que serve acima de tudo para não se procurarem verdadeiras soluções.

Mas quem são as cabeças bem--pensantes de que falo? A mais citada é Narayana Kocherlakota, presidente da Reserva Federal do Minneapolis, que deu nas vistas por ter insistido que o banco central nada tem a ver com o desemprego. "As empresas têm empregos, mas não conseguem encontrar empregados apropriados. Os desempregados querem trabalhar, mas não encontram trabalhos que lhes convenham", assegura, concluindo que "é difícil perceber o que poderia a Reserva Federal fazer para resolver o problema".

A Reserva Federal de Minneapolis é conhecida pela abordagem conservadora e a tese de que o desemprego é sobretudo estrutural tende a vir do extremo mais à direita do espectro político. Contudo, do outro lado da linha divisória também há quem diga o mesmo. Por exemplo, o antigo presidente Bill Clinton disse há pouco em entrevista que o desemprego continua alto porque "as pessoas não têm as qualificações necessárias para a oferta actual de emprego".

Estava capaz de sugerir respeitosamente a Clinton que falasse com os investigadores do Instituto Roosevelt e do Instituto de Política Económica, que recentemente tornaram públicos relatórios que desmentem peremptoriamente a teoria de que se está a observar um aumento do desemprego estrutural.

Afinal o que seria de esperar se Kocherlakota e Clinton tivessem razão? A resposta é que haveria uma falta significativa de mão--de-obra em alguns pontos dos Estados Unidos - grandes empresas com planos de expansão que não pudessem levá-los a cabo por terem dificuldade em contratar pessoal, classes profissionais importantes que fossem objecto de grande procura, regiões com níveis de desemprego muito baixos, em contraste com outras em que se daria o contrário.

Nada disto acontece. A oferta de emprego caiu a pique em todos os sectores importantes, enquanto o número de pessoas obrigadas a contentar-se com lugares a tempo parcial aumentou em quase toda a parte. Só três estados, cuja população somada é pouco maior que a de Brooklyn, têm taxas de desemprego abaixo de 5%.

Ah, e as tais empresas que não conseguem arranjar trabalhadores? A Federação Nacional de Pequenas Empresas acompanha estas empresas há muitos anos, pedindo-lhes que identifiquem os seus maiores problemas; a actual referência a problemas de mão-de-obra está no ponto mais baixo de sempre, um reflexo de que actualmente mesmo os trabalhadores altamente qualificados estão desesperados por arranjar emprego.

Tudo desmente portanto a tese de que o actual problema de desemprego é na realidade estrutural. Nesse caso, o que explica que esta teoria se tenha tornado tão popular? Parte da resposta é que isto acontece sempre em períodos de forte desemprego - em parte porque os comentadores acham que declarar que um problema tem raízes profundas lhes dá um ar sério. Andei a estudar o que os autoproclamados especialistas disseram sobre o assunto durante a Grande Depressão; é quase o mesmo que estas Pessoas Muito Sérias dizem agora. O desemprego não pode descer rapidamente, dizia uma análise de 1935, porque a força de trabalho "está inadaptada e não tem formação, por isso não consegue responder às oportunidades oferecidas pela indústria". Alguns anos mais tarde, quando por fim foi posto em prática um pacote fiscal adequado de estímulo à economia, a indústria mostrou-se disposta, de um dia para o outro, a dar trabalho a essa mão-de-obra "inadaptada e sem formação".

Contudo, agora como então, há ideologias poderosas opostas à ideia da intervenção estatal a uma escala suficiente para pôr a economia em movimento. E basicamente é por isso que proliferam as teorias segundo as quais os nossos problemas são estruturais: servem para justificar a inacção em matéria de criação de emprego.

Aquilo que precisamos de saber é que não há quaisquer dados que apoiem esta ideia. Não há falta de mão-de-obra qualificada; há é falta de determinação política. Como expliquei, o desemprego estrutural não existe, a não ser como desculpa - é uma razão para não agir numa altura em que a América precisa desesperadamente de acção.

Economista Nobel 2008

Exclusivo i/The New York Times


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