Primeiro plano

Só há mão visível

por João Rodrigues, Publicado em 27 de Setembro de 2010   
Os países bem-sucedidos são os que conseguiram criar instituições e políticas capazes de providenciar soluções que promovam a transformação estrutural da economia
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Uma fracção das nossas elites suspira por Angela Merkel e pelo FMI. É como se quisessem ver a economia portuguesa definitivamente canibalizada pelos representantes dos bancos internacionais, dos credores.

Geralmente, são os mesmos que nos colocaram nesta situação, apoiando um processo de integração monetária que, na sua configuração concreta, se revelou desastroso para a economia portuguesa. Os mesmos que aderiram à ruinosa moda das privatizações de sectores estratégicos, reconstituindo grupos económicos viciados nos bens não-transaccionáveis. Os mesmos que acham que basta liberalizar porque o mercado trata do resto. A "mão invisível" é invisível porque não existe, como disse Joseph Stiglitz.

São os mesmos que querem manter um capitalismo medíocre, incompatível com um Estado social moderno e com relações laborais promotoras da formação, motivação e participação de quem trabalha. Os mesmos que querem acabar com o investimento, reduzir salários e abocanhar recursos públicos. De braço dado com Merkel e com o FMI, que tem provas dadas nestas matérias, levam-nos, irresponsavelmente, para a recessão e para o desemprego.

Que fazer? Uma das possibilidades é lutar por um Estado estratego, garante da possibilidade da realização dos bens comuns na economia, como defende, entre outros, Manuel Alegre. Um Estado que imite o que muitos outros estados fazem, mas não dizem que fazem e por isso a sabedoria convencional não vê: uma política industrial que proteja e apoie os sectores nacionais inovadores e de maior valor acrescentado.

Na verdade, como assinala o economista Ricardo Paes Mamede no blogue Ladrões de Bicicletas, existe algum esforço governamental para dotar o país de uma política industrial digna desse nome, com vontade de reverter a posição excessivamente dependente do país a que os défices externos expõem todos os dias.

No entanto, vai ser preciso fazer muito mais e contrariar outras políticas. As políticas dos PEC, dos PIN ou das parcerias público-privadas ruinosas. Políticas que favorecem precisamente os sectores económicos que sobrevivem transferindo custos sociais para o resto da sociedade. Os sectores que querem aumentar horários de trabalho, fragilizar os laços laborais, construir em áreas protegidas ou apanhar a fruta doce da saúde e da educação, transformando-as em negócios.

A esquerda não tem medo dos verdadeiros empresários. Uma das suas tarefas tem de ser descobrir soluções que promovam a transformação estrutural da economia, garantindo ao mesmo tempo, que o Estado não é capturado pelo sector privado. É fácil? Não. Mas não tenham dúvidas de que os países bem-sucedidos foram os que descobriram como criar instituições e políticas capazes de prosseguir estes objectivos: de agências públicas com funcionários motivados aos subsídios e investimentos públicos certeiros, sem esquecer a política de crédito paciente.

Em Portugal, isto passa também por mobilizar os subestimados conhecimentos e energias dos trabalhadores e das suas organizações e por ir contornando e torcendo as regras do mercado interno europeu, feitas para favorecer a Alemanha. Se calhar está na altura de darmos um sentido culturalmente aberto e cosmopolita, mas economicamente direccionado e selectivo, à palavra soberania...

Economista, Centro de Estudos Sociais


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