PRIMEIRO PLANO

Relativismos

por Jaime Nogueira Pinto, Publicado em 09 de Junho de 2009   
Sendo cristão eu não sou nem posso ser relativista moral. Posso errar e pecar, escolhendo o mal e recusando o bem, mas sei onde eles estão.
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Algum tempo atrás, José Eduardo Agualusa, escreveu no Público, um texto intitulado "Angola e o relativismo moral":
"O relativismo moral parece ser uma doutrina comum a todos aqueles que não se envergonham de estender a mão aos dirigentes angolanos. Recomendo, a propósito, a leitura de Jogos Africanos, de Jaime Nogueira Pinto, o qual durante muito anos apoiou Jonas Savimbi, antes de descobrir que o "outro lado" estava, afinal, bem mais próximo do seu - o da direita nacionalista. Também Nogueira Pinto relativiza os eventuais excessos cometidos pelos dirigentes africanos: "Como eram os nossos Estados à nascença? Os reis não eram donos de tudo? Não distribuíam empregos e terras pelos seus partidários, confiscando-as aos adversários? Não favoreciam a família e os amigos. Não juntavam poder político, riqueza e direito de vida e de riquezas?". (página 513).
Só duas notas a este texto de Agualusa - de quem não esqueço Estação das Chuvas- e a quem por isso, gosto de esclarecer.
Primeiro, eu não andei a descobrir em Angola quais eram os "meus lados". Está bem explicado em Jogos Africanos, a esse propósito, que descobri sim - todos descobrimos, resultado do tempo do nosso tempo - que esses lados que tomamos politicamente têm a ver com razões ideológicas e interesses estratégicos e não com a bondade ou maldade das pessoas que os representam.
Segundo, isto não é relativismo moral. É relativismo político, que é uma coisa muito diferente. Sendo cristão eu não sou nem posso ser relativista moral. Posso errar e pecar, escolhendo o mal e recusando o bem, mas sei onde eles estão.
O juízo exprime sim o meu relativismo político, baseado numa concepção realista: as formas políticas, os regimes políticos, não são absolutos morais e devem ser adequados aos Estados, e às comunidades em diferentes áreas e tempos históricos.
É nesse sentido que vai a minha observação comparativa. Que mantenho, acrescentando que sem nação é muito complicado haver democracia. Pelo menos no seu corrente entendimento euroamericano.

 

É o que pode ver-se não só em África mas na área ex-comunista do Balcãs e do Leste europeu: quando ali se democratizou, a linha de lealdades partidárias confundiu-se quase sempre com linhas étnicas ou clânicas.

 

Em África as democracias funcionais (como Cabo Verde, o Botsuana e a Namíbia) não se devem a qualquer milagre laico de democraticidade. São ilhas, Estados monotribais ou escassamente povoados. Isto é sabido por quem estuda e quer perceber estes processos, sem preocupações de correcção ou de controlo moral.

Professor universitário



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