Visto de fora

Os ricos em fúria e os impostos

por Paul Krugman, Publicado em 24 de Setembro de 2010   
Os ricos são diferentes do comum dos cidadãos: têm influência sobre os políticos também porque estes passam muito tempo na sua companhia. É assim na América e também na Europa
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A fúria está a varrer a América. É um facto que esta raiva cega é a de uma minoria branca, não é um sentimento da maior parte dos nossos concidadãos. Mas esta minoria em fúria está realmente enraivecida: são pessoas convencidas de que lhes está a ser tirado algo a que têm direito. E querem vingança. E não, não é do Tea Party que estou a falar. É dos ricos.

Os tempos que vivemos estão a ser terríveis para muitas pessoas no nosso país. A pobreza, em especial a pobreza extrema, surgiu do pântano económico actual. Milhões de pessoas perderam as casas, os jovens não arranjam emprego e muitos de-sempregados com pouco mais de 50 anos receiam nunca mais voltar a arranjar trabalho.

No entanto, se quisermos ver uma raiva política genuína - aquela que leva as pessoas a compararem Barack Obama com Hitler ou a acusá-lo de traição -, não é entre estes americanos cheios de problemas que a vamos encontrar; é entre os verdadeiramente privilegiados, as pessoas que não precisam de se preocupar com a possibilidade de ficar de-sempregadas, de perder a casa ou o seguro de saúde, mas se sentem revoltadas - indignadas! - com a ideia de ter de pagar impostos um pouco mais altos.

A fúria dos ricos tem crescido desde que Obama tomou posse. Ao princípio, no entanto, estava quase confinada a Wall Street. Quando a "New York" publicou um artigo intitulado "Os Lamentos de 1 por Cento", falava dos financeiros cujas empresas tinham sido salvas pelo dinheiro dos contribuintes, mas estavam furiosos com a possibilidade de em contrapartida lhes serem exigidos cortes temporários dos bónus. Quando o multimilionário Stephen Schwarzman comparou uma proposta de Obama com a invasão da Polónia pelos nazis, estava em causa o fim de uma brecha fiscal que beneficiava especificamente administradores de fundos como ele próprio.

Agora que se aproxima o momento da decisão a respeito da redução de impostos de Bush - voltarão aos níveis anteriores à era Clinton? - a fúria dos ricos generalizou-se, e em certo sentido modificou-se.

Por exemplo, o desvario chegou ao mainstream. Uma coisa é um desabafo de um rico num jantar, outra é um artigo de capa da "Forbes" em que se diz que o presidente dos EUA está a tentar deliberadamente deitar abaixo o país no âmbito do seu plano "anticolonialista" e que "os EUA estão a ser governados de acordo com os sonhos de um cafre dos anos 50". Quando está em causa defender os interesses dos ricos, as regras do discurso civilizado (e racional) parecem deixar de se aplicar.

Ao mesmo tempo, a autocompaixão dos privilegiados parece ter-se tornado aceitável, e até elegante. Os defensores da redução de impostos dizem preocupar- -se acima de tudo com a família americana média. Mesmo as reduções que favorecem os ricos foram justificadas com a ideia de que os benefícios no topo criariam estímulos que iriam favorecer a economia no seu conjunto. Actualmente já ninguém liga muito a essa justificação. Sim, os republicanos continuam a dizer que aumentar os impostos no topo teria um efeito negativo sobre as pequenas empresas, mas não parecem realmente convencidos disso.

Não, agora nega-se com cada vez maior convicção que os que ganham 400 ou 500 mil dólares [300 ou 400 mil euros, aproximadamente] por ano sejam ricos. Basta ver as despesas das pessoas nessa classe de rendimentos - a quantidade de impostos que têm de pagar sobre as suas casas caríssimas, as propinas dos filhos nas melhores universidades, e por aí adiante. No fundo, mal conseguem fazer o dinheiro chegar ao fim do mês.

Já os inegavelmente ricos foram dominados por um sentimento diferente: o dinheiro pertence- -lhes e têm o direito de ficar com ele. "Os impostos são aquilo que se paga para viver numa sociedade civilizada", disse Oliver Wendell Holmes - mas já há muito tempo. O espectáculo dado pelos americanos muito ricos - os mais sortudos dos habitantes do planeta - atolados em autocompaixão e dominados pela indignação moral até teria piada se não fosse o perigo de virem a conseguir o que querem. Pouco importa o custo de 700 mil milhões de dólares que teria prolongar as isenções dos mais ricos; quase todos os republicanos e alguns democratas preparam-se para acorrer em socorro dos ricos oprimidos.

É que os ricos são diferentes de mim e de si: têm mais influência. Em parte é uma questão de contribuições para as campanhas, mas também está aqui em causa uma certa pressão social, já que os ricos passam muito tempo na companhia dos políticos. Assim, quando aqueles enfrentam o perigo de ter de pagar mais 3% ou 4% do seu rendimento em impostos, os políticos sentem o seu sofrimento - sentem-no com uma agudeza muito maior que o das famílias dos desempregados, dos que ficam sem as casas e vivem sem esperança.

Seja como for, quando a luta fiscal terminar, pode ter a certeza que as pessoas que actualmente defendem os rendimentos das elites vão voltar a exigir cortes nas ajudas aos desempregados. A América enfrenta escolhas difíceis, hão-de dizer; todos temos de fazer sacrifícios. Mas quando disserem "todos" o que querem dizer é "você". Os sacrifícios são para os pequenos.

Economista Nobel 2008

Exclusivo i/The New York Times


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