Obrigações do Tesouro

Dívida pública. Juros sobem quase sempre antes dos leilões

por Luís Reis Ribeiro, Publicado em 21 de Setembro de 2010   
Especuladores têm aproveitado para fazer muito dinheiro com dívida portuguesa
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Há um lado bom na crise da dívida pública: muitos agentes internacionais, entre eles grandes bancos e fundos de investimento, estão a apostar forte contra a dívida dos países económica e financeiramente mais frágeis - caso de Portugal, Irlanda e Grécia - e a ganhar muito dinheiro com isso. Este comportamento tem sido habitual desde o início do ano.

Em contrapartida, os governos - e por arrasto as economias - estão a pagar cada vez mais pelos empréstimos e os respectivos contribuintes a serem sobrecarregados com mais impostos ou cortes de despesa no futuro. Ontem, a dois dias de mais um leilão de venda de obrigações do Estado português, a taxa de juro das Obrigações do Tesouro (OT) a dez anos portuguesas atingiu o valor mais alto desde que o euro entrou em circulação (2002), superando já 6,45% ao ano, e o prémio de risco (spread) face à taxa alemã, também.

Os juros da Alemanha são considerados a referência das obrigações com risco virtualmente nulo. Ontem, essa diferença entre os juros portugueses e as taxas das Bunds germânicas estava em quase quatro pontos percentuais, o valor mais elevado na história do euro e claramente acima do anterior máximo de início de Maio, altura em que o governo foi obrigado a apresentar um plano de austeridade para as contas públicas com a apresentação de uma nova versão do Programa de Estabilidade e Crescimento.

A promessa do governo em reduzir o défice de 9,4% do produto interno bruto (PIB) em 2009 para menos de 3% já em 2012, um ano antes do que era exigido por Bruxelas, está a ser mal recebida nos mercados. Esses operadores não estão satisfeitos, exigindo cada vez mais dinheiro a Portugal pelos empréstimos contraídos.

Neste clima de pressão crescente, a banca portuguesa tornou a sinalizar o seu desagrado face à situação. Em entrevista à Antena 1 sábado, o líder da Associação Portuguesa de Bancos, António de Sousa, disse que "se os investidores não voltarem a Portugal, a situação tornar-se-á bastante complexa" e que "simplesmente os bancos não terão dinheiro para emprestar".

Não é ainda o que está a acontecer. A procura por OT portuguesas até tem sido abundante graças aos juros altos que Portugal é obrigado a oferecer. Acontece é que o preço é cada vez mais incomportável para um país já de si tão endividado. E quem empresta sabe que assim é.

De acordo com dados da Reuters e do Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP), esse problema é visível no andamento das taxas de juro de mercado das OT de longo prazo. Este ano, por exemplo, na esmagadora maioria dos casos, sempre que se aproximou a data de um leilão de OT, as taxas de juro de mercado de longo prazo (definidas pelas intenções de oferta e de procura) subiram bastante para, após a referida operação, descerem de forma pronunciada. Este ano foram já realizados 12 leilões de Obrigações do Tesouro, envolvendo 18 tranches de dívida. Nove destas operações foram afectadas por movimentos de subida repentina das taxas de juro dias antes da sua realização, a que se seguiram quedas nos dias seguintes.

Vários analistas internacionais confirmam que a maioria dos "investidores internacionais" está na verdade "a ganhar muito dinheiro" a especular contra a dívida dos países mais frágeis, caso de Portugal e Grécia e, mais recentemente, a Irlanda, que tem em mãos um banco gigante falido. "Os operadores vendem curto antes dos leilões e depois compram de volta [as OT] e fazem muito dinheiro. Esse parece ser o plano", constatou ontem David Keeble, analista do Crédit Agricole, à Reuters. "Vender curto" é quando um investidor pede emprestado um activo ao agente que o detém realmente para o vender noutro mercado (derivado). No caso das OT, o objectivo do especulador é contratar a recompra da dívida dos países a um preço baixo, devolvendo-a ao proprietário original, encaixando a diferença face ao preço actual (alto). Os problemas financeiros de Grécia, Portugal e Irlanda tornam-nos alvos fáceis deste tipo de técnicas.

Outro gigante da banca de investimento, o Nomura, recomendou ontem aos clientes que aproveitem as oportunidades de lucro implícitas na compra e venda de OT da Irlanda e Portugal. O banco japonês considera que a oferta de juros elevados nas emissões, "pode representar uma boa oportunidade de compra".

A factura do serviço da dívida (prestações dos juros em falta) será paga nos próximos anos pelos contribuintes que terão de enfrentar ou mais cortes na despesa ou mais subidas de impostos, garantem os economistas.


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