Ataque na Ossétia: instabilidade no Cáucaso, dores de cabeça em Moscovo
por Gonçalo Venâncio, Publicado em 10 de Setembro de 2010
Carro bomba mata 17 pessoas na Ossétia do Norte. Violência escala para níveis recorde em região de tremenda relevância estratégica para Moscovo. Estratégia de Putin em causa
Um carro carregado com 40 quilos de TNT esventrou ontem o mercado de Vladikavkaz, a capital da província russa da Ossétia do Norte. Pouco passava das 7h, hora de ponta no comércio osseta, quando um homem conhecido por Archiyev detonou o carro matando 17 pessoas e ferindo 112 - a maioria está em estado crítico.
Numa reacção imediata ao atentado, Dmitri Medvedev prometeu uma luta sem tréguas aos autores do atentado: "Vamos dar o melhor para apanhar as bestas que cometeram este hediondo ataque contra o povo. Vamos fazer tudo para os encontrar, puni--los de acordo com a lei, esmagá-los se oferecerem resistência", disse o presidente.
À hora de fecho desta edição o ataque ainda não tinha sido reivindicado, embora o Kremlin esteja a tratar dele como uma "acção terrorista". A Ossétia do Norte, ao contrário dos vizinhos do Cáucaso islâmico, é uma região de maioria ortodoxa e tem sido fiel ao poder de Moscovo. As razões do atentado não são claras, mas há pelo menos dois dados adquiridos: o objectivo de destabilizar o Cáucaso e a Rússia numa zona de grande valor estratégico para a segurança de Moscovo e a progressiva sensação de um fracasso de Vladimir Putin na tentativa de fechar a válvula secessionista.
Daguestão, Inguchétia e Chechénia são províncias sob domínio russo com fortes ambições separatistas e num processo de radicalismo islamita acelerado - um verdadeiro pesadelo para o Kremlin, que lida com a alteração da balança demográfica em favor dos muçulmanos na Rússia. A Ossétia do Norte sofre com o contágio e, perante o cenário, o Kremlin não tem olhado a meios para neutralizar os terroristas no flanco sul: é lá que Moscovo tem ancorada a única fronteira natural na região, onde o império russo se encontra com o persa e o otomano e onde se cruzam oleodutos do mar Cáspio e do mar Negro.
Tiago Ferreira Lopes, investigador do Instituto do Oriente especializado no Cáucaso, avança ao i duas explicações para o ataque de ontem: uma, de cariz étnico--político, porque "pode ser o sinal do reacendimento da animosidade entre ossetas e inguches por causa da questão não resolvida de Prigorodny", outra, claramente apontada a Moscovo, numa demonstração de força do autoproclamado "emir do Cáucaso", Dokka Umarov, numa altura em que a sua liderança é disputada: "Perpetrar um ataque desta dimensão garante a lealdade dos seguidores e mostra à Federação da Rússia que o movimento não será facilmente vencido. A escolha da Ossétia do Norte, a mais leal das repúblicas do Distrito Federal do Cáucaso Norte, é tragicamente simbólica."
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Ataque na Ossétia: instabilidade no Cáucaso, dores de cabeça em Moscovo
Actividade em ionline