Submarinos. Tridente anula efeito positivo das exportações

por Nuno Aguiar, Publicado em 09 de Setembro de 2010   
Economia portuguesa desacelera e cresce apenas 1,5% no segundo trimestre deste ano
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No mesmo dia em que o Tridente foi apresentado oficialmente na base naval do Alfeite, as Contas Nacionais do Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam que o primeiro submarino comprado pelo estado português à Alemanha fez disparar as importações, anulando a boa performance das exportações. Mas o agravamento do défice da balança comercial também fez subir o consumo público, provocando um efeito nulo no crescimento do PIB.

O consumo público teve um aumento anormal de 6,2%, o que corresponde a 332 milhões de euros. O crescimento elevado é atribuído pelo INE "à importação de equipamento militar". Questionado pelo i, o Ministério das Finanças reconhece o efeito submarino. "O equipamento militar a que o INE se refere corresponde ao registo da chegada do submarino Tridente, objecto de recepção provisória em Junho de 2010", referiu fonte oficial do ministério.

Apesar de ter um efeito nulo no crescimento do PIB, a compra dos dois submarinos terá um impacto significativo no défice público. Com um investimento superior a mil milhões de euros (cerca de 0,6% do PIB), alguns economistas acreditam mesmo que o negócio anulará o efeito das medidas de austeridade do governo. "O aumento de impostos que estamos a sofrer este ano tem o mesmo valor que os submarinos. Se o governo quer manter o défice, terá de cortar mais mil milhões de euros em custos ou temos de aumentar mais os impostos", explicava há um mês à Rádio Renascença João Duque, presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). Contudo, o governo deverá empurrar esta despesa para os próximos anos, adiando assim uma penalização que poderia chegar aos 0,3% do PIB e assim comprometer as metas de redução do défice.

Contactado pelo i, Paulo Portas, ministro da Defesa responsável pela compra dos dois submarinos, recusou-se a fazer qualquer comentário sobre o impacto desta aquisição nas contas públicas. Porém, existirá a possibilidade de o governo só registar no défice a despesa total com os dois submarinos em finais de 2012, princípio de 2013.

as outras contas do INE O PIB português cresceu 1,5% no segundo trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2009. Um abrandamento que é ainda mais visível ao olhar para o crescimento em cadeia: depois de ter avançado 1,1% nos primeiros três meses do ano, entre Abril e Junho a economia portuguesa cresceu apenas 0,3%.

O reduzido crescimento voltou a ser suportado pelo consumo das famílias que avançou 2,8%. Dentro desta categoria, o INE destaca o "aumento expressivo" dos bens de consumo duradouro, para o qual foi decisivo o contributo da forte subida nas vendas de automóveis. "Houve um efeito de antecipação do consumo devido ao anunciado aumento de um ponto percentual do IVA", explicou Cristina Casalinho, economista-chefe do BPI. "Tem sido o consumo das famílias a segurar a economia, mas no próximo trimestre deverá abrandar. Admitimos mesmo que o próximo trimestre seja de crescimento negativo." Outro indicador preocupante é a queda de 3,8% do investimento que, para a economista, "não antecipa nada de bom".

João Cantiga Esteves, professor de Finanças do ISEG, vê estes números como uma prova que a economia continua estagnada. "Se considerarmos o enorme esforço do Estado, e se é só isto que conseguimos, é muito inquietante. O motor ainda não arrancou. A associar a isto há ainda o desequilíbrio das contas públicas e o endividamento, o que traça um cenário de crescimento muito fraco para os próximos meses."

Os números do INE revelam ainda que o emprego, em todos os ramos de actividade, diminuiu 1,5%. "Não se percebe onde haverá criação de emprego", afirmou Cantiga Esteves. "Este conjunto de indicadores reafirmam apenas o padrão de estagnação de Portugal dos últimos anos." Com B.F.L. e I.S.L.


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