Corrupção
Afeganistão. Polígrafo chumba agentes anticorrupção
por Gonçalo Venâncio, Publicado em 09 de Setembro de 2010
"Respeito a tecnologia, mas não é adequada aos afegãos", diz um dos inquiridos chumbados. Será?
No Afeganistão, o dinheiro é a solução para quase todos os problemas burocráticos. Quer chegar ao aeroporto de Cabul contornando os checkpoints militares que - a par dos velozes afegãos ao volante dos Toyota Corolla dos anos 70 - tornam o trânsito da capital caótico? Basta perder o amor a 20 dólares (16 euros) e arranjar o contacto certo. Mas se o seu problema é mesmo falta de título legal para conduzir, não desespere. Por 180 dólares, um administrativo orienta uma carta de condução num par de horas. Estes exemplos, das Nações Unidas, mostram como a indústria do suborno está altamente disseminada num país em guerra há 30 anos.
Num relatório de 2010, a ONU estima que a corrupção represente 25% do PIB afegão. Mais que lutar contra a insurreição dos talibãs e da Al-Qaeda, as autoridades norte-americanas e afegãs têm assumido claramente o combate à corrupção como uma prioridade no país. Ora foi precisamente nesse sentido que o presidente Hamid Karzai nomeou um grupo de supostos incorruptíveis capazes de livrar o país do crime e credibilizar a sua administração, tida como conivente com o statu quo.
Tudo certo. Até ao momento em que o FBI decidiu pôr à prova os homens que dirigem as agências governamentais anticorrupção. Perante a pergunta "Recebeu subornos nos últimos dois anos?", quatro deles chumbaram no mais conhecido detector de mentiras do mundo: o polígrafo. No grupo inclui-se o chefe da unidade anticorrupção, Mohammed Bidar; o procurador-geral adjunto, Ahmed Qaderi; Kalemullah Malekzai, um conselheiro do mesmo gabinete; e o responsável pela gestão de recursos humanos na Procuradoria, Sheraqha Shinwari. Ao diário londrino "The Times", os quatro descartam a validade dos testes de polígrafo: "Respeito a tecnologia, mas os polígrafos não são adequados ao povo afegão", defende-se Qaderi. O argumento é rebatido pelos especialistas: "O polígrafo mede a reacção fisiológica a estímulos psicológicos. Isso não tem nada que ver com a personalidade ou com a cultura porque o que é medido são impulsos inatos", explica ao i Amável Sanches, da BEAR Forensics, empresa multinacional especializada em psicofisiologia forense com escritórios em Portugal.
Bidar, o chefe da unidade anticorrupção, admite ao "The Times" ter falhado no teste e arrisca uma explicação: "Isto é uma coisa nova no Afeganistão e os polígrafos não reconhecem a personalidade." Já se viu que este argumento não convence, mas no seguinte o caso muda de figura. "Fizeram-me perguntas estúpidas", acusa Bidar, citando um exemplo: "Alguma vez fez bonecos de neve?" Para Amável Sanches, trata-se de um caso claro de formato de entrevista com perguntas "relevantes/irrelevantes" que tem sido progressivamente abandonado, especialmente nos casos criminais. "A fiabilidade do polígrafo não está em causa, porque é um instrumento da medicina. Mas no formato que é adoptado para a entrevista há uma preparação psicológica que deve ser feita pelo poligrafista e é dessa preparação que também dependem as respostas fisiológicas. Neste processo podem ocorrer erros, para mais se entrevistado e entrevistador não falarem a mesma língua", justifica Sanches.
Com ou sem razão, a verdade é que os factos não abonam a favor dos agentes afegãos. Na terça-feira, o "The New York Times" avançou com mais um escândalo que atinge em cheio a administração Karzai. O Banco de Cabul, escreve o diário, está à beira da falência depois de ter concedido uma série de empréstimos duvidosos. Aquela que é uma das maiores instituições financeiras do país tem como accionistas Mahmoud Karzai, irmão do presidente, e Haseen Fahim, irmão de Muhammad Qasim Fahim.
Conhecido por "Marshal", Fahim é um senhor da guerra tajique que chegou a vice-presidente do Afeganistão precisamente por sugestão de Haseen, que, em troca, prometeu a Karzai milhões do banco para financiar a sua reeleição. A investigação do "The Times" conclui que não é apenas o banco que está à beira do colapso: a ligação dos clãs Karzai-Fahim está na corda bamba. Nas palavras de um empresário local, no Afeganistão, e em Cabul, "na política só importa o dinheiro".
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