Entrevista Lázaro Ramos

"Sinto-me muito mais próximo dos personagens que falham"

por Vanda Marques , Publicado em 09 de Setembro de 2010   
Estudou Patologia Clínica, fez teatro sem ter visto uma peça e quase recebeu um Emmy. Encontrámos Lázaro Ramos, actor brasileiro, na praia do Samouco, na rodagem de "O Grande Kilapy"
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Quando telefonamos para o actor Lázaro Ramos, o Foguinho da novela "Cobras & Lagartos", quem atende não é um assessor que tem de passar a outro assistente. É o próprio actor, marido de outra actriz conhecida, Taís Araújo. Sim, estamos a falar de actores da Globo, a fábrica brasileira de novelas. Descontraído, um pouco mais tímido do que se esperava depois de o vermos como o trambiqueiro da novela, Lázaro Ramos, de 31 anos, está em Portugal a gravar o filme de Zezé Gamboa "O Grande Kilapy". Está cá desde Julho e não resiste a dizer que tem saudades da fruta e dos "sucos". "Tou farto de beber gasosa", comenta durante a boleia que lhe damos para Lisboa. Passou a tarde a filmar numa Angola improvisada, para os lados de Alcochete, na praia do Samouco. Agora já entende tudo de português e não tem de usar a expressão que repetia para os colegas: "Abre a boca, português. Vocês falam muito de boca fechada." Nomeado para um Emmy em 2007, Lázaro prepara-se para voltar às novelas.

O que o trouxe a Portugal?

As gravações do filme de Zezé Gamboa "O Grande Kilapy". É a primeira vez que estou em Portugal, mas queria ter tido mais tempo para fazer turismo. Filmei todos os dias e geralmente das sete da manhã às sete da tarde. Consegui ir a Sintra e a Cascais. Achei o cabo da Roca fantástico e o famoso Bairro Alto é sempre bom. O que gostei mais foi de comer. Comi muito bacalhau, fui aos pastéis de Belém. Mas só tirei foto.

O que nos pode contar do filme?

É baseado na história real de um angolano, conhecido como Joãozinho das Garotas. Ele teve a sorte de o pai o mandar estudar Engenharia em Portugal. Só que ele chega aqui e prefere aproveitar as mulheres e a boémia. Acaba por ser expulso, porque se junta ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Chegado a Angola - e não posso contar muito mais - é a primeira pessoa que tem coragem de dar um golpe. Ou de tomar de volta o que o colonizador tomou de Angola. Tudo para ter uma boa vida e ajudar o MPLA.

O que o atraiu neste papel?

O facto de ele ser um anti-herói. É uma história torta. Não gosto de histórias muito rectas. Sinto-me muito mais próximo dos personagens que falham. O roteiro está muito bem escrito e para um actor brasileiro fazer filme angolano filmado em Portugal, que mistura actores moçambicanos, angolanos, cabo-verdianos, portugueses, é tudo uma sedução. Sempre que posso fazer um personagem diferente do anterior fico seduzido.

Como estão a correr as gravações?

O cinema é muito invasivo. Tem vizinho incomodado porque fecha a rua, corta o trânsito. Alguns ligam o som alto só para atrapalhar a gravação. Mas aqui ninguém se sente incomodado. Na praia do Samouco continuaram a arranjar o peixe.

Mas comparado com a Globo...

Não sou esse tipo de actor. Fiz filmes tão distintos... Desde uma equipa enxuta até outros com uma equipa gigantesca, em Nova Iorque. Acho até que com uma equipa pequena toda a gente se empenha mais. Aqui vejo todo o mundo feliz e isso é um valor que não depende de estar na Globo. E sempre sonhei fazer um filme dos anos 70. Hoje estava aí com uma calça boca de sino, costeleta [patilhas] grande.

Em Portugal ainda é reconhecido como o Foguinho?

Todo o dia. Os imigrantes africanos já vêm com voz aguda a gritar "Foguinho". Os portugueses têm sido mais discretos. Geralmente falam, mas perguntam: "Não és o actor brasileiro das novelas?" Mas há até quem diga que me viu num festival do Porto.

Como recorda a personagem Foguinho?

É um personagem superespecial, só me trouxe coisa boa. Tinha sido convidado para novelas, mas não aceitava porque o cinema brasileiro estava numa altura muito bacana. Até que apareceu o Foguinho. Vi nele um universo muito próximo do Chaplin. Tanto que fiz o negativo do Chaplin. Ele tem rosto branco com bigode preto, eu pintei o meu bigode de louro. Assisti aos filme dele e dizia: "Vou por aqui."

A sua interpretação recebeu até uma nomeação para os Emmy em 2007?

Foi maravilhoso. Você faz uma novela e espera dialogar com o público do seu país e de repente um grupo de pessoas de outros países são tocadas pela mesma história. Foguinho tem características muito brasileiras. Ele é aquele cara que está lutando pela sobrevivência, de olhar carente, todo o tempo pedindo amor. É um trambiqueiro com um grande coração. Tenho um carinho muito grande por ele. Agora fico na expectativa para a turma [os portugueses] ir correr atrás e ver os outros filmes: "Cidade Baixa", "Madame Satã". É só entrar na net e pedir o DVD.

Quando percebeu que queria ser actor?

Fiz teatro antes de ter visto uma peça. Umas primas faziam teatro de bairro e o meu primo fazia a criança na peça, mas como ficou doente me chamaram. Era muito tímido e era mais fácil falar o que eu pensava se fingisse ser outra pessoa. No dia das mães fingia que era outra pessoa e dizia um poema. Era mais fácil dizer que a amava.

Sentia que tinha jeito?

Sim. Era metido. Além de achar que dava para esse negócio, achava que fazia bem. Mas não tinha como objectivo sobreviver dessa profissão, era muito difícil.

Mas estudou?

Meu pai trabalhava na indústria petrolífera e me estimulava muito para ir para essa área. Dizia que depois era mais fácil arranjar emprego lá na empresa dele. Só que com 14 anos o bichinho do teatro já tinha mordido. O meu pai marcou de eu fazer um teste escrito nessa escola técnica e eu fui. Só que o que eu queria era ir para uma escola chamada Anísio Teixeira, que tinha um curso gratuito de Teatro, que se podia fazer estudando lá pela manhã nos cursos de Patologia Clínica ou Desenho Industrial. Fui fazer o teste para trabalhar na indústria petrolífera e marquei tudo letra C. Não pude entrar na escola técnica e disse ao meu pai: "Sou apaixonado por patologia clínica." Olha que loucura, não gostava nada. Meu pai me matriculou e fiz Patologia de manhã e Teatro à tarde.

Na adolescência era popular?

Não. Era aluno de sentar na primeira fila e só quando estava actuando é que era extrovertido. Na adolescência pensava muito e não tinha ninguém para falar.

Chegou a trabalhar em patologia?

Fui técnico de patologia durante dois anos. De manhã pegava o ónibus e ia para um hospital no interior da Baía, fazia exame de sangue, fezes e urina. Voltava às cinco da tarde e ensaiava das sete às dez no teatro. Estava no Bando de Teatro Olodum. Quando entrei nesse grupo não parei mais.

Imaginava-se como actor da Globo?

Não, nem sabia se havia espaço para um actor como eu. Durante um tempo as novelas no Brasil não dialogavam com a diversidade que é o país. Sou um actor que vem de outra região, que não é São Paulo ou Rio de Janeiro, com sotaque nordestino. Ao mesmo tempo, eu não gostava de interpretar os personagens que via os outros actores negros fazerem. Queria protagonismo, queria personagens que não estivessem somente falando da violência urbana, de exclusão social. O meu maior sonho eram as grandes peças de teatro, fazer de Hamlet. Depois o cinema começou a deixar os clichés e a contar qualquer história com qualquer actor. Cheguei no Rio de Janeiro fazendo peça de teatro do João Falcão. Fui eu, Wagner Moura [protagonista de "Tropa de Elite"], meu amigo, meu irmão, Wladimir Brichta, Gustavo Falcão e Carina Falcão. Num mês fiz testes para sete filmes e fiquei em cinco. Aí foi uma loucura. Num ano fiz cinco: "Madame Satã", "O Homem Que Copiava", "O Homem do Ano", "As Três Maria" e "Carandiru".

Como foi fazer "Carandiru"?

Era muito forte. No primeiro dia de filmagem levamos uma trança de alho para pôr na cadeia. Dizem que alho puxa energia. No último dia a trança estava preta. Isso quer dizer algo. Filmámos dentro do Carandiru, era muito claustrofóbico.

As novelas tornaram-no mais conhecido. Como lida com a fama?

Fiz duas novelas e vou fazer a terceira, "Insensato Coração", de Gilberto Braga. É bom receber carinho e ter o trabalho reconhecido. Quando nos tornamos demasiado conhecidos vêm outras coisas, como a invasão de privacidade, mas você estabelece limites. A vantagem de fazer humor é que o público te aborda de forma diferente do herói, com aquela coisa do intocável. As idosas tratam-me como filho, as mais novas como camarada. É mentira que não dá para ter tranquilidade.

Mas sendo casado com outra actriz famosa, Taís Araújo, a imprensa cor- -de-rosa anda atrás de vocês?

No princípio dificultou. Toda a gente perguntava, os paparazzi seguiam-nos. Olha a maluquice... Um ser humano perdendo tempo, perseguindo a gente... Aí depois entrou na normalidade. São seis anos de casamento, já não há novidade nenhuma.

Mas o que lhe fizeram de mais estranho?

Tem uma história engraçada. Estávamos descendo do carro e tomei um susto porque o paparazzo estava muito perto. E perguntei: "O que ''tá fazendo aqui tão perto?" Ele não respondia, só flashes. E falei: "Você acha que sua mãe fica feliz com isso?"

Além do cinema e das novelas, tem um programa de televisão. Como é?

Me chamaram para fazer um programa de turismo no canal Brasil. Mas eu não queria falar de turismo, disse-lhes que tinha outra ideia. Na realidade não tinha ideia nenhuma. Só sabia que não queria aquilo. Falei assim: "É um programa sem formato, cada dia é uma coisa diferente. Às vezes tem entrevistas, outras documentários." Eles acreditaram. Deu tão certo que estou há cinco anos no ar e estou nomeado para melhor apresentador na revista "Monet", ao lado de Marília Gabriela e Jô Soares. Acredita? Já entrevistamos Seu Jorge, Wagner Moura ou Pedro Cardoso. Mas há um programa de me orgulho, que foi a entrevista a Tom Zé. Pegamos em anónimos para o entrevistar: uma velhinha saindo de uma missa, duas lésbicas namorando num muro, um vendedor de amendoins, entre outros. O cara do amendoim faz a melhor pergunta: como é que surgiu o tropicalismo? Toda a gente fala sobre isso, mas o que é afinal? O Tom Zé deu uma explicação linda.


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